Inútil produtividade

Fazem dias que me cobro para voltar a escrever, não porque quero que esse espaço seja um desses blogs hits sabe? Mas porque eu se eu não começar a fazer alguma coisa eu vou me perder demais. Fazem quatro anos que cada passo que eu dou para me colocar em algum lugar na fila de prioridades, a vida me dá um puxão, como quem diz “ainda não.”

Ficar entre todos os meu desejos, projetos aleatórios iniciados, um casamento, um filho, e dois trabalhos tem sido um trabalho de equilibrista da porra. E esses dias tenho pensado muito nisso, fui engolida pelo discurso da mulher moderna.

GENTE, que saco isso!

Comecei o Mestrado e vou terminar, porque o tema me é muito caro, e exatamente por isso eu não sei mais se quero um doutorado. Mas eu sou apaixonada por essa pesquisa, de verdade, e quero terminar esse mestrado, porque eu acho que de alguma forma a gente pode usar esses dados pra fazer algo concreto, ou pelo menos ampliar minha percepção de maternidade e trabalho, e melhorar minha escuta clínica e orientação para pais. No entanto: querer terminar o mestrado não significa precisar terminar o mestrado com nota máxima.

Se eu quero ingressar na vida acadêmica? Do jeito que as coisas andam, não faço questão. Vocês já ouviram falar de teto de vidro? Vocês tem noção da pressão psicológica que é essa história de produção acadêmica? E como os professores são massacrados para produzir? E que essa produção é invisível, porque quanto mais se faz, menos se vê?

Eu todos os dias conto quanto falta pra terminar e eu voltar a ter dias para me dedicar mais às coisas que me são importantes, e entre elas: EU.

Fazem dois meses que eu não durmo e me dedico apenas ao Hugo. Acordamos 23h, 3h, 5h30, 6h. “A gente” inclui: marido, minha mãe e meu pai, tem dias que eu durmo lá pra revezar o cuidado. Quando é necessário subir a glicemia dele, porque tem dias que às 3h da madrugada despenca e não sobe mais, ou até sobe, mas duas horas depois despenca de novo, ninguém dorme.

E nesse ritmo sem dormir, eu me cobro para dar conta de trezentas mil outras coisas que humanamente é impossível dar conta. Mas P-O-R–Q-U-E eu me cobro por algo que eu SEI que não vou conseguir agora?

Por que a gente vive esse ritmo de vida maluco, e ainda por cima querendo que as coisas saim milimetricamente perfeitas, quando não faz o menor sentido que elas saiam melhores do que apenas feitas?

Quantos mini ataques de ansiedade, fazendo uma coisa e pensando em vinte coisas que deverão ser realizadas a seguir, preocupada se vai dar certo fazer direito ou não?

Bicho, isso é muito louco.

É muito doida essa cobrança interna, DESNECESSÁRIA. Eu quero mostrar pra quem, além de mim mesma, que eu sou capaz de realizar coisas? Se eu sei que sou capaz e quando tenho todas as condições favoráveis faço com a maior qualidade?

Agora, a pergunta correta é: quantas vezes nós temos as condições favoráveis para fazer as coisas que precisamos fazer? Às vezes as coisas só precisam ser feitas. E a gente precisa decidir o que deve ser feito com primor, e o que deve ser feito e ponto.

Eu só estou cansada da quantidade de coisas que aparecem para serem feitas, quando eu não consegui ainda fazer o básico. E me questiono todos os dias se essas coisas que aparecem de fato são necessárias. Quantas ilusões de responsabilidade e obrigações criamos para nos sentirmos produtivos.

Quero me livrar desse sentimento de produtividade necessária, para o de produzir apenas o necessário.

 


Em tempo: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/07/cultura/1517989873_086219.html

 

Written by

Psicóloga, mãe e feminista. Atuo na área clínica e escolar, mestranda em Saúde Coletiva com ênfase em gênero, maternidade e trabalho.

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"Inútil produtividade" by @raisaarruda_

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