Sobre inspirações e influencers.

Faz um tempo que eu queria falar sobre isso, mas meio que não tinha ainda elaborado um pensamento pra isso. Eu acompanho poucas blogueiras de lifestyle, na verdade, quem eu acompanho todos os dias é a Juliana Goes, as outras duas, eu acompanho mas não tenho uma frequência diária, tipo a Fê do Pigmento F e a Bia Jiacomine, e só. São as três que me identifico, que curto e pronto. O restante são blogs literários, que eu adoro ver os comentários sobre livros, mas também nada muito exagerado.

E aí, eu soube de um episódio que rolou que algo da vida privada da pessoa vazou, e foi pesado porque muita gente se inspirava nela, e essa coisa X mudava muito do que ela dizia para as outras pessoas, enfim. Desses bafafá de quem vive da imagem, sabe? E eu fiquei pensando nisso, vez por outra.

Esses pensamentos me impregnaram. De certa forma, eu enjoie um pouco do blog de psicologia, cansa fazer só uma única coisa da vida pra viver, sabe? Por mim eu seria uma multi-empreendedora pra ter várias coisas pra fazer além de ser psicóloga, e foram esses pensamentos que me impulsionaram para estar aqui, nesse outro projeto.

Pois então.

O que aconteceu foi que eu fiquei pensando muito sobre essa linha tênue entre as inspirações e as obsessões.

Quando a gente vê uma pessoa massa, fazendo sucesso porque ela é massa, eu acho que a gente tem que apoiar e se inspirar, porque ela é o que ela é, e o que ela faz serve pra ela, o que ela vive serve pra ela, mas pode nos apontar caminhos de coisas que podem servir pra gente também, sabe? Mas do nosso jeito.

Como no movimento da respiração, o ar entra, mas se transforma em várias coisas que eu corpo precisa, e sai como CO2. Mas ele se transforma dentro de você em coisas que você precisa, e mais ninguém.

E AÍ, quando eu vejo e acompanho os comentários, os comentários dos comentários, o que era pra ser inspiração, vira outra coisa. Sei lá, fica pesado. Ao invés de você ficar feliz pelo outro, você começa a ficar muito mal por vocês mesma, numa onda violenta e cíclica de inveja, baixa auto estima, auto depreciação, que acaba se tornando em ataque ao outro.

Eu acho que as redes sociais inspiram – ou deveriam inspirar – para estética  da vida,

A estética é uma ciência que remete para a beleza e também aborda o sentimento que alguma coisa bela desperta dentro de cada indivíduo.

A gente se movimenta para o belo, para o que é harmonioso, equilibrado, porque a beleza numa síntese bem reducionista, é isso: harmonia e equilíbrio.

MAS… algumas teorias atuais sobre estética também trazem a estética como verdade. E aí faz até mais sentido ainda, porque não basta ser belo, harmonioso, tem que ter autenticidade, tem que ser o que é, natural. Quando é forçado, a gente meio que não se interessa tanto, só quando a gente tá tão frágil, e fica tão cego e carente dessa beleza na nossa vida, que a gente não se importa de ser enganado, né não?

Por isso, tenho pensado muito nos perigos das inspirações se tornarem pequenas obsessões. De ter que todo os dias olhar o perfil daquela “influencer” pra saber como ela acordou e de certa forma, tentar imprimir a vida, tal e qual, na nossa vida, no nosso dia a dia, tentar viver aquilo como se fosse nosso; ou pior, cobrar da pessoa postagens e mais postagens, transformar em uma obrigação sem fim, sem horário. Viver o Show de Truman, ou sei lá, um Big Brother real.

Quanto mais a gente olha pra vida do outro, menos a gente olha pra nossa, menos a gente constrói e transforma nossa vida, menos a gente vive. E começamos a nos sentir frustrados e infelizes, acompanhando a vida alheia, e interpretado através da nossa própria fantasia.

Eu acredito sim que existem pessoas que tem um super tino e carisma pra viver esse lugar de “top” blogger, sabe? Como sei também que existem pessoas que não tem tanto tino, mas tem carisma de sobra e faz diferença na nossa vida, mesmo sem ser um “top” blogger.

Além disso, existe uma outra maioria de pessoas, que por razões próprias, não tem vontade, ou qualquer outra coisa que as faça querer aparecer e se destacar nesse universo de trocentas bilhões de pessoas. Elas são incríveis nos seus lugares, nos seus guetos, nas suas relações próximas.

E tudo bem.

Sucesso não é medido pela quantidade de seguidores e likes nas redes sociais, até porque né, gente que compra seguidor e bots de likes tem aos montes.

A nossa auto-depreciação é tão grande, que a gente deposita no outro uma fantasia e uma expectativa, e esquece que esse outro é gente, e que por algum acaso possui um talento, e saber se expor e dialogar com “ninguém” que ao mesmo tempo é um mundo de gente, é um talento sim.

Eu acho massa acompanhar pessoas normais pelas redes, gosto, vibro, gargalho, sorrio, torço por elas, já me senti mal, péssima, triste, e tudo mais, hoje em dia nem tanta, hoje em dia me cobro menos, e me reconheço mais.

Mas minha reflexão aqui é para pensar porque a gente toma isso pra gente como afronta à nossa vida, à quem nós somos, e não tomamos como inspirações para tornar a vida uma experiência estética.

Sem apologia ao consumo, numa experiência de que a vida é o que é, como é, e que ela pode ser melhor, mais bonita, com autenticidade, porque acompanhar as redes não nos leva a afirmar nossa própria verdade, no sentido, de afirmar quem somos verdadeiramente, e buscar sermos melhores em essência. Não ser melhor se comparando ao outro, mas ser melhor do que se é, comparando sempre a si mesmo. Até porque, para ser melhor, comparando ao outro, eu precisaria me deslocar do meu lugar e ocupar o lugar do outro, e veja só, dois corpos não ocupam o mesmo lugar.

Logo, comparações são frustantes e impossíveis. Eu só posso comparar iguais, e ninguém é igual à ninguém.

 

 

 

 

 

 

 

Written by

Psicóloga, mãe e feminista. Atuo na área clínica e escolar, mestranda em Saúde Coletiva com ênfase em gênero, maternidade e trabalho.

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"Sobre inspirações e influencers." by @raisaarruda_

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