Uma ilha desconhecida

Uma vez comprei pro meu pai esse livro do Saramago, “O conto da Ilha Desconhecida“, e assim que possível eu pedi pra ler. Um livro curto e impactante. Me fisgou, mas eu precisei ler mais de uma vez, e no meu caderno de citações, acho que copiei o livro praticamente inteiro. (É, até eu me formar eu tinha um caderno onde além de pensamentos, crônicas, colagens, inspirações, um bullet journal num caderno universitário de 20 matérias que eu nomeei de retalhos do cotidiano)

Quando eu resolvi fazer psicologia eu li uma frase do Cazuza sobre ter medo de ir pra análise e perder a criatividade, e por muito tempo fiquei com isso guardado, sempre busquei terapia, análise, meditação, o que quer que me proporcionasse autoconhecimento. A análise em última instância numa vontade de ir mais além, nas profundezas dos meus significantes, dos significados que atribui e escolhi para minha existência.

E eu que gostava muito de escrever, sempre gostei, tive medo muitas vezes,um medo de que a autodescoberta me preenchesse de novos sentidos e que me esgotassem as palavras para dar conta dos vazios.

E aí eu entendi que os vazios são meio como a bolsa da Mary Poppins, sabe? (Pra quem não lembra: https://www.youtube.com/watch?v=T3-LZx8NF8k)

E quanto mais me (des)conhecia, quanto mais me percebia mutável, mais as palavras brotavam, mais sentimentos me mobilizavam, mais criatividade fluía.

Eu era mais fluxo, e menos rigidez.

Aceitar a vida como um lugar comum, aceitar a existência como um lugar comum é cravar um limite, uma cristalização do caminho.

Parece bonita a certeza de ser.

Ao mesmo tempo, quanto mais certos estamos de algo, menos nos abrimos a questionar, desbravar, (re)conhecer e transformar.

Quanto mais certa de quem eu sou, menos aprofundo no que eu posso ser. Menos me permito a ir e ser além, porque sempre serei uma imagem que construí de mim mesma. Uma imagem sem espaço para ampliar, amplificar, se transformar, se desdobrar.

Nos reconhecer enquanto universos, enquanto ilhas desconhecidas, que precisam ser desbravadas, e reconhecidas sempre que possível, nos abre um caminho maravilhoso de mudanças. Claro que em alguns trechos haverá calor, sede, fome, haverá dor, haverá cansaço. Óbvio. Como todo percurso desconhecido, mas ao mesmo tempo, se eu não alimentar a dificuldade, eu me permito olhar ao redor, enxergar e aceitar onde consegui chegar, vislumbrar o que se abre à minha frente. Me alegrar genuinamente comigo mesma.

O desconhecimento é fonte do ser, uma fonte inesgotável que nos alimenta e nos impulsiona. É a fonte da juventude da alma.

Não moldar os outros em julgamentos ou características pré concebidas me permite redescobrir as pessoas em cada momento, gesto, traço. Não me moldar em características pré concebidas me permite olhar para o outro com curiosidade e sem julgamento.

Não é de negar o que já vivi, adquiri, já fui, não é de negar o passado, mas de saber que o passado não vive em mim enquanto presente. Já foi. Eu não preciso ficar atracada no lugar que já fui.

E na busca de mim, não deixo de remar, seja no mar ou no rio, com essa vida ora é ventania, ora é brisa suave, nas velas do meu barco que navega de acordo com as condições.

Eu sou como o caminho, e o que eu sou é indizível, porque simplesmente sou.

Raisa Arrudailha desconhecida

Written by

Psicóloga, mãe e feminista. Atuo na área clínica e escolar, mestranda em Saúde Coletiva com ênfase em gênero, maternidade e trabalho.

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"Uma ilha desconhecida" by @raisaarruda_

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