Encaixes

Crescemos com a ideia de que precisamos fazer parte de algo, mas para fazer parte de algo sempre existem os critérios. Um clube tem critérios para aceitar um sócio, um time tem critérios para aceitar um jogador, uma escola tem critérios para aceitar um aluno, um emprego tem critérios para aceitar um novo funcionário.

Enquanto crescemos, a lista de critérios aumenta, e para cada critério que depositamos uma certa importância, abrimos mão, só mais um pouquinho, do que é nosso.  Pensamos que não, mas absorvemos esse critérios como uma verdade irrefutável, e passamos a enxergar e enquadrar as pessoas através de critérios, que muitas vezes não são nossos, que muitas vezes mascaram a essência.

Tem dias que fico pensando nessa coisa do identificar-se, e de como essa questão de identidade vai nos limitando e nos transformando numa peça de encaixe.

A identificação é com algo externo, eu tomo o de fora como referência, percebo o que naquilo se enquadra no que é meu, e logo construo uma relação, um vínculo, e me identifico. Olhando sempre para fora, esse laços se constroem para fora, e vão se amarrando por aí… Quanto mais eu me identifico, mais meu olhar se volta para o do outro, para  fora. Às vezes não dá tempo de olhar para dentro, refletir e dialogar. Às vezes é só um laço rápido, para não perder a referência, não perder um lugar.

Dizem que precisamos fazer parte de algo para nos sentirmos incluídos. Dizem.

Eu me forço, eu me encolho, eu me dobro, contorço, até que de alguma maneira, bem desconfortável, eu estou ali, naquele “encaixe perfeito”, nem que meus pés estejam cheios de calos, nem o aperto deixe a minha silhueta marcada com linhas vermelhas que doem, nem que minha coluna doa, nem depois eu não consiga mais voltar para o lugar.

Olhando pra fora, esqueço de alimentar o de dentro. Quando fonte seca, nada brota, nada cresce. A gente vai enrijecendo. Vocês já viram o que acontece com a carne quando perde a água?

Alimento o de fora, e esqueço do que existe dentro. Julgando, culpando, comparando, a partir de critérios externos que não fortalecem.

Somos amarrados em critérios que não nos respeitam, nos violam diariamente, para a construção de uma identidade massificada, o que distorce é inadequado.

Quando me vejo indo no sentido contrário do fluxo, bate uma angústia, uma ansiedade como se algo muito estivesse acontecendo porque não estou daquele lado. E às vezes por uma bobagem, como no trânsito meu trabalho fica pro lado oposto do engarrafamento. Será que eu não deveria estar indo pro lado de lá, também?

Os critérios nos ensinam a mentir. As crianças pequenas quando não estão preparadas ou afim de dividir naquele momento são cruelmente punidas (cruel porque punir uma criança por expressar seu real sentimento é uma crueldade), reprovamos a criança que é identificada pela conduta. A criança é feia, a criança é chata, a criança é a egoísta que não sabe dividir. Compartilhar a contra-gosto para ser aceito, ou para ceder a vontade de um outro, nos obriga a mentir. Mentir sobre como nos sentimos, ou mentir para não ceder ao outro o que naquele momento não quero.

Tanto que se fala em limites, não aprendemos e nem ensinamos sobre respeitar os nossos próprios. Apenas a ceder o nosso espaço. De tanto ceder, nos agarramos desesperadamente a qualquer coisa que pareça ser nosso. De tanto não aprender a respeitar, não respeitamos, não compartilhamos, não dialogamos. Preenchemos critérios de condutas socialmente aceitas, mas sempre que possível refutados, e desobedecidos.

Não estou falando de rigidez, mas de flexibilidade.

De reconhecer nosso limite, e respeitar o do outro.

De construir diálogos, e não um check-list de certo e errado, que excluem os contextos e capacidades de compreensão.

Aprender sobre espaço e respeito, sem que nosso próprio espaço e respeito sejam diminuídos ou não considerados.

Compreender que certos comportamentos geram maior fluidez e outros embarreiram o funcionamento das coisas, e não porque as coisas devem ser assim, porque para ser uma boa pessoa eu preciso fazer assado, porque para ser aceita eu tenho uma infinita lista de critérios a serem preenchidos.

Cada critério gera uma culpa pela própria inadequação. Quando os critérios são externos, a culpa não é nossa por não preencher algo que não foi construído considerando que nós somos.

A culpa imobiliza.

Deixamos de crescer. Porque quando crescemos, o encaixe começa a apertar.

Quando crescemos não cabemos em encaixe algum.

Quanto mais crescemos, mais voltamos a ser criança.

 

Beijo grande,

 

Raisa.

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Psicóloga, mãe e feminista. Atuo na área clínica e escolar, mestranda em Saúde Coletiva com ênfase em gênero, maternidade e trabalho.

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"Encaixes" by @raisaarruda_

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