30.

Quando eu era adolescente, aniversários sempre tinham um significado, principalmente os que anos de transição, sabe quando você vira uma década? Pois é. Quando eu entendi o que era uma década, foi quando completei minha primeira, e a partir de então, completar décadas tinha um quê místico, cheio de força, na minha imaginação.
Dos 10 aos 20 a vida passou tão devagar, eu sonhava com minha vida adulta, a adolescência inteira, sonhando, imaginando, planejando, criando cenários e histórias.
Eu tinha uma lista de afazeres e as idades para completar. Fiz alguns, outros ainda vou fazer, mas o interessante é que não abri mão de nenhum: falar inglês, falar francês, falar italiano, falar alemão; conhecer outro país, morar fora, fazer mestrado, doutorado, ter uma profissão bacana, um cachorro, uma casa, um carro, ser escritora, viajar muito. Com uns 15 anos, eu fiz o calculo de quanto tempo cada atividade duraria para ser bem feito. E casar e ter filhos não tinha data, porque era uma incógnita, as brincadeiras acabavam antes das bonecas casarem.
As listas aumentavam, mudavam, os tempos, as idades… Eu recalculava a rota sempre que algo novo ou diferente acontecia.
Pensei algumas vezes que eu estava me enganando, sabe? Aquela coisa de vou dar uma mexidinha aqui e ninguém vai notar. Tive inúmeras crises de ansiedade nesse tempo, me achei por diversas vezes sabotadora, impostora, e incapaz.
Os vinte chegaram com toda intensidade e força que o fim da adolescência proporciona, como se você tivesse passado esse tempo todo acumulando energia dentro de uma caixinha, e de repente, essa caixa é aberta, e o mundo é pequeno pra dar conta de tanta curiosidade e insaciedade.
Os vinte se foram. E com eles muitas coisas foram se perdendo também, e de alguma maneira, eu achei que estivesse me perdido junto. Os vinte passaram depressa, e passei alguns anos tentando encontrar um encaixe que me coubesse.
Na verdade, quando revia meus escritos (perdi vários, e joguei outros fora), eu notava que sempre me sentia numa busca sem fim por mim. Algo estava fora do lugar dentro do que eu imaginava que deveria ser. Até que (me) reencontrei uma citação de Fernando Pessoa, que dizia que nós éramos um intervalo entre nossos desejos e o que os outros esperavam, como numa equação que nunca teria um resultado, porque esse intervalo entre nosso desejo e a expectativa dos outros não cabia definição.

Quem nós somos nunca vai se encaixar numa definição.

Seria impossível encontrar uma definição que viesse de fora.
Hoje, perto de virar mais uma década, evento que ainda carrega toda uma mística na minha fantasia, eu me sinto mais uma vez navegando, como ao entrar nos vinte, mas diferente, pois agora não procuro um caixote etiquetado para sentir que tenho um norte. Agora eu me encaixo perfeitamente na vida que tenho, na pessoa que sou, no corpo que eu tenho, na família que construí.
Eu não me sinto mais inadequada, como se estivesse algo errado, buscando desenfreadamente por algo que me dissesse “é isso e isso é você”. Hoje, eu me sinto faltosa, pois existe ainda um caminho e uma vida inteira de conquistas. E como é diferente, e como é maravilhoso trocar a inadequação pela inquietação.
Antes, eu achava que quando conseguisse avistar os trinta, ficaria triste e me sentiria velha, eu por ter essa imagem tão forte, me senti tão velha e triste nos últimos anos, era o “encaixe perfeito”. E a perfeição paralisa, e eu não nasci para ficar paralisada. E aqui, estou, em movimento, reconhecendo cada conquista e cada esforço, perfeitamente encaixada em mim mesma e na minha própria vida.
Mais bonita e mais jovem.
Mais forte. Mais eu.
Aceitei que a vida não para, e a gente está num eterno recomeço. Podem ser as décadas, como podem ser as passagens dos anos, ou dos dias.
O caminho não tem fim.
bjs
Raisa. <3
Obs.: Faço trinta em Novembro (dia 23/11) <3

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Psicóloga, mãe e feminista. Atuo na área clínica e escolar, mestranda em Saúde Coletiva com ênfase em gênero, maternidade e trabalho.

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"30." by @raisaarruda_

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