Em tempos de descortinar opressões e preconceitos, esses dias eu quis questionar sobre a legitimidade das minhas dores. Eu, mulher, branca, graduada, mestranda, filha de professores com pós graduação (mestrado e doutorado), casada com professor universitário. Eu, classe média cheia de privilégios e facilidades. Eu quis, mais uma vez na minha vida, diminuir a minha pessoa, calar a minha voz sob o argumento de que eu não posso, não mereço, não devo, não é o meu lugar.

É uma luta interna que não cessa, de achar que devo me calar por não merecer algum espaço, ou ocupar algum lugar. Ao mesmo tempo, eu enxergo que as lutas são diferentes e complementares. E eu, assim como várias outras mulheres, que viveram situações de ridicularização, relacionamentos abusivos, preconceitos apenas por serem mulheres, devem estar juntas na luta de mulheres que viveram situações de humilhação porque além de serem mulheres, carregavam outros estigmas, porque eram pobres, ou negras, ou mães solteiras, ou LGBT, ou qualquer outro termo que crucifique uma mulher.

E aí, eu entendo, como essa luta também é minha, e do quanto esses conflitos são parte dessa construção social opressora, que apesar de termos ocupado tanto espaço, é como se esse espaço nunca fosse nosso, e que precisamos a todo custo, com toda força nos sustentar ali, onde queremos estar, o lado do público, do discurso, do trabalho. Porque não sintetizar como no lado do poder.

As histórias não são as mesmas, nunca serão, as cicatrizes não são pelas mesmas feridas, mas as lutas, nossa!, como se assemelham. Como elas dizem da vontade de sobreviver, da luta por um espaço, por um lugar, por não se contentar com menos do que existir, do que ser, do poder de ser o que quiser.

E como ao mesmo tempo existe a culpa, existe a vergonha, existe o medo.

Quem é que deve legitimar minha voz? Ninguém. Porque a voz é de cada uma, com sua história, com seu percurso, mas que sabe que existe um peso, um peso invisível no ombro de cada menina e menino que nasce, e enquanto não conseguirmos transmutar esse peso em liberdade, as coisas serão as mesmas. Os homens amarrados num conceito de masculinidade (e virilidade) que diminui a potencia de vida, a potência criadora, mas essa limitação é travestida em poder, um poder outorgado, que precisa ser tomado para ser compartilhado. E as mulheres, sofrem a opressão, desvalorização, a culpa de todas as mazelas do mundo, sofrem da iminência da violência e da morte à qualquer momento, só por ter nascido mulher.

Se diz de vários feminismos, porque existem várias frentes de luta. Eu, particularmente, penso que o feminismo é o mesmo, mas as histórias que nos conectam à ele são diferentes. Umas dizem da sobrevivência, real e concreta; outras dizem de outros tipos de sobrevivência, mas em todas elas, nós sabemos que o que não queremos é sobreviver.

E não numa tentativa de travar uma luta impossível com o masculino, mas também de dar espaço para que este se reinvente, se olhe, se compreenda, se aceite e se ame. As estruturas que mantem nossa civilização são perversas. Eu sofro da minha insegurança, do meu medo de nunca estar no patamar necessário para qualquer coisa. Mas eu sei também que muitos homens sofrem enquanto tentam legitimar sua virilidade, porque a masculinidade tem um significado por demais limitante e adoecedor. E sei que homens e mulheres sofrem suas dores por históricos e posições diferentes, e no final, são dores e sofrimentos que mantém um status, um modelo, que não faz o menor sentido.

Cada vez que meu filho diz que algo é coisa de menina ou de menino, eu vejo seu mundo encolher, e as possibilidades diminuírem. Cada vez que eu ouço uma mãe repreender uma filha com a justificava de que “você é uma menina”, eu vejo o universo encolher. Uma limitação cruel, que para desenraizar essas frases-parasitas que existem dentro da gente é um trabalho árduo e, jamais, solitário.

 

A gente tenta. Segue tentando.