Em Abril de 2017, a Secretaria de Assistência Social do Amazonas lançou a campanha “Criança NÃO namora, nem de brincadeira”, como uma forma de informar e alertar aos pais dos riscos da erotização e sexualidade precoce em crianças pequenas.

É importante que os pais compreendam de início que toda criança brinca, e a brincadeira é essencial para o seu desenvolvimento. Em determinado momento elas brincam sim de família, de casinha, mas para a criança a brincadeira é uma forma de construir e compreender os comportamentos sociais, pois ela só aprende e apreende através da brincadeira. Desta forma, a brincadeira serve como algo que estrutura o saber, e assim, ela irá compreender os papeis maternos, paternos, femininos e masculinos de acordo com o que ela vivencia e observa na sociedade e aos estímulos que ela é exposta. Vale ressaltar que as brincadeiras e jogos simbólicos não são determinantes na orientação de gênero, posteriormente.

As crianças brincam desde sempre. E a partir disso podemos esclarecer algumas questões sobre erotização e sexualidade precoce.

Do ponto de vista psicológico e biológico, as crianças não tem maturidade para compreender o significado da palavra namoro, elas até apreendem a carga de responsabilidade imposta nesse termo, pela observação, mas não conseguem ainda captar todo o sentido atribuído à ele.

O que acontece, por via de regra, é que os adultos desvirtuam a brincadeira, interpretando do ponto de vista do adulto as preferências afetivas infantis. As preferências por certas amizades, por exemplo, as escolhas infantis são feitas por identificação e auxiliam a construção da identidade. Os adultos atribuem os significados de “namoradinho” e  “namoradinha” às preferências infantis, mesmo quando as crianças insistem no “eca” e no “não”.

O brincar é um exercício de comportamento, se a criança pula essa etapa, ela simplesmente passa reproduzir comportamentos sem compreendê-los, isso gera angústia, ansiedade e pode interferir no desenvolvimento sócio afetivo na vida adulta. O importante é sempre reconduzir a criança ao seu lugar de criança, explicando o que é de adulto e o que é de criança. Não é reprimir as expressões afetivas, mas atribuir os significados que dizem respeito à infância, como expressões de carinho, respeito e amizade.

É importante ter em mente que relacionamentos são responsabilidades e delegar essas responsabilidades para uma criança pode levar à frustração e baixa autoestima.

Além disso, existem os riscos da naturalização de um comportamento erotizado na infância, como por exemplo a vulnerabilidade ao assédio e abuso infantis. De acordo com Deborah Moss (Neuropsicóloga e Mestre em Desenvolvimento Infantil), as crianças que vivem essa naturalização de um comportamento de adulto não conseguem distinguir comportamentos apropriados dos inapropriados, mas quando as crianças sabem que beijo na boca, toques e namoro são coisas de adulto, elas tem mais condições de estranhar contatos físicos inapropriados.

Então, tomar medidas como diminuir o acesso às informações e estímulos que não são compatíveis à idade, diminuir o excesso e a super valorização  da vaidade, o que desloca a vontade e intenção da criança do brincar para outras situações, levando à criança a abrir mão de brincar, por exemplo.

Importante lembrar:

– Dos 4 aos 7 anos: a criança encontra-se no nível simbólico, onde a brincadeira e fantasia são primordiais para seu entendimento e desenvolvimento, nesta fase brincar é regra até mesmo para impor e explicar as regras.

– Dos 9 aos 12 anos: é a entrada na puberdade, mas ainda é criança, mas a curiosidade sobre questões de sexualidade e afetos aumentam. O importante é que pais e responsáveis (educadores e demais familiares) auxiliem as crianças a reconduzirem sua energia à atividades criadoras e criativas: jogos, esportes, música, arte, e conhecimento. Nesta fase, quando a criança desloca sua atenção para o universo adulto, diminui seu interesse na aprendizagem.

O momento certo vai chegar. E é imprescindível que os adultos reconheçam seu lugar de adulto na condução das crianças, de orientar, acolher, ensinar.

 

Texto escrito para Colégio Paulo Freire em Junho/2017