O universo corporativo é ainda bastante hostil às mulheres. Ganhamos menos, trabalhamos mais, somos menos promovidas do que homens com as mesmas habilidades. Não é de estranhar, portanto, que o número de empreendedoras só cresça: no Brasil, o índice de empresárias subiu 34% nos últimos 14 anos, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

No mundo, já são 224 milhões mulheres donas de seus próprios negócios, de acordo com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM). É uma forma rápida de alcançar a independência financeira e promover mudanças sociais importantes, como devolver a dignidade a populações marginalizadas, promover um estilo de vida mais saudável e reduzir danos ambientais.

Para Cyrille Vigneron, presidente da Cartier, que há dez anos premia grandes empreendedoras do mundo no Women’s Initiative Awards, esses resultados refletem a generosidade feminina empregada na gestão de um negócio. “Os homens têm uma visão verticalizada do sucesso, eles almejam chegar ao topo e quebrar recordes. Já as mulheres se sentem bem-sucedidas ao impactar a comunidade ao seu redor”, diz. Marie Claire esteve com as vencedoras da última edição do prêmio, em Cingapura, e conta aqui suas histórias de sucesso e coragem.

Katie Anderson
31 anos, Estados Unidos
Save Water Co., savewaterco.com

Há três anos, a engenheira texana tomou para si uma missão ambiciosa: salvar a água do planeta. “Quando você abre a própria empresa, pode criar o que quiser. Mas é preciso entender que grandes ideias se fazem com pequenas ações diárias”, diz. Com isso em mente, elaborou um método para reduzir o gasto mensal de uma casa ou estabelecimento comercial sem que fosse necessário alterar o consumo cotidiano. No novo processo, além de revisar as contas, a empresa realiza uma inspeção que identifica qualquer tipo de vazamento e ensina maneiras simples de conservação. O resultado não poderia ter sido melhor. Os 10 mil clientes que contrataram o serviço tiveram o valor da água reduzido em 35% e economizam, todo mês, 30 milhões de litros. O próximo passo da empresa é conseguir atender, até 2022, a maior fatia possível dos mais de 18 milhões de apartamentos da região. “A água é o combustível da vida, nosso bem mais precioso, que exige cada vez mais atenção”, afirma Katie.

Salma Abdulai (Foto: Reprodução)

Salma Abdulai
31 anos, Gana
Unique Quality Product Enterprise, uqualityproduct.com

Motivada pelo desejo de diminuir a desnutrição e transformar a vida de mulheres da zona rural de Gana, a cientista africana promoveu uma verdadeira revolução agrícola no país. Concentrou esforços para ampliar a produção de fonio, um cereal altamente nutritivo, e distribuí-lo no interior. Depois de pesquisar que tipo de solo era mais propício para o plantio, ela identificou a possibilidade de cultivá-lo em qualquer terra e profissionalizou pequenas agricultoras para comercializar o produto rico em ferro, proteínas e carboidratos. Em quatro anos, o trabalho já impactou cerca de 350 mulheres produtoras e abasteceu dezenas de escolas, armazéns e centros médicos, diminuindo consideravelmente a desnutrição nas áreas atendidas, onde 57% das crianças são anêmicas. Na África, a fome faz 3,5 milhões de vítimas fatais todos os anos. “Quando vou ao encontro delas, sou tratada como se fosse a presidente do país. De certa maneira, sou mesmo. Afinal, a função de um chefe de Estado é melhorar a condição de vida de seu povo e é isso o que faço”, garante. Em meio a um cenário de seca, a iniciativa promove também um impacto ambiental positivo. O cultivo de fonio minimiza a erosão dos solos, dispensa qualquer fertilizante e exige uma quantidade mínima de água.

Ciara Donlon (Foto: Reprodução)

Ciara Donlon
40 anos, Irlanda
Theya Healthcare, http://www.theyahealthcare.com

O câncer de mama faz mais de 1,7 milhão de vítimas por ano no mundo todo. Tocada pelas estatísticas e pela história da própria mãe, que enfrentou uma dura batalha contra o tumor e se submeteu à dupla mastectomia, a empresária irlandesa decidiu dar à Theya, sua marca de lingerie, uma função mais urgente: oferecer modelos específicos para pacientes em quimioterapia e radioterapia ou em fase de recuperação da cirurgia de retirada de mamas. “O estilo de vida dessas mulheres muda completamente depois de uma experiência como essa. Elas precisam de peças confortáveis. Contudo, o mercado de roupas íntimas ainda é dominado por estilistas homens, que fazem vistas grossas para suas necessidades”, protesta. Depois de uma longa pesquisa de matérias-primas sustentáveis, Ciara elegeu a fibra de bambu como base de suas peças. Além do toque suave, ela tem propriedades bactericidas que evitam infecções pós-cirúrgicas. Os modelos, à venda online, podem ainda ser moldados de acordo com cada corpo e possuem design anatômico. “O que mais me deixa feliz é ver mulheres recuperarem a feminilidade com nossos produtos”, diz Ciara.

Na contramão de um mundo corporativo ainda hostil à participação feminina, o número de empreendedoras só cresce. No Brasil, o índice de empresárias subiu 34% nos últimos 14 anos. Hoje, o mundo já soma mais de 225 milhões de mulheres donas de seu próprio negócio
Candice Pascoal  (Foto: Reprodução)

Candice Pascoal
37 anos, Brasil
Kickante, http://www.kickante.com.br 

Depois de atuar na captação de recursos para grandes ONGs, como Médicos sem Fronteiras e Anistia Internacional, a administradora de empresas baiana decidiu criar a Kickante, maior crowdfunding da América Latina, que atrai financiamento coletivo para iniciativas relacionadas, principalmente, a educação, música, ONGs e saúde. Desde 2013, seu objetivo é atrair doadores espontâneos para projetos inovadores, prejudicados pela crise econômica. “Talento não é sinônimo de oportunidade. Por isso, quero que o povo decida quais ideias merecem sair do papel para que possamos transformar a sociedade”, diz. Além da exposição e divulgação das campanhas no site, a empresa oferece treinamento em marketing digital para que os trabalhos se tornem de fato rentáveis em um país em desenvolvimento. Em quatro anos, mais de R$ 28 milhões foram arrecadados para mais de 45 mil iniciativas, sendo 50% lideradas por mulheres. “Nossos clientes vêm das mais diferentes esferas sociais. De grandes influencers a moradores das maiores comunidades do Rio de Janeiro e São Paulo, passando por artistas em início de carreira, provamos ser possível transformar um sonho em realidade por meio da generosidade dos brasileiros”, afirma.

Trupti Jain  (Foto: Reprodução)

Trupti Jain
46 anos, Índia
Naireeta Services, http://www.naireetaservices.com

A enorme desigualdade de gênero na Índia impede que pequenas agricultoras sejam reconhecidas como proprietárias de terra. Diante dessa realidade cruel, a engenheira indiana buscou durante dez anos uma maneira de livrá-las da pobreza e resgatar sua dignidade. A iniciativa recebeu o nome de Bhungroo (tubo oco feito à mão, em tradução livre), um sistema inovador de tratamento e armazenamento de água da chuva, que pode salvar os produtores em períodos de seca e cujo processo de fabricação foi ensinado às moradoras da zona rural. Ao todo, mais de 3 mil foram capacitadas e puderam, assim, não só alcançar independência financeira, como respeito em uma sociedade machista e patriarcal. “Minha próxima luta é para que todas as mulheres que trabalham no setor agrícola tenham os direitos garantidos pelo poder. Esse é meu maior sonho”, diz. Motivadas pelos ensinamentos de Mahatma Gandhi, líder espiritual e pacifista indiano, que apontava a ajuda às populações marginalizadas como alternativa viável ao alcance do bem-estar, as “líderes climáticas”, como foram apelidadas por Trupti, são também treinadas a compartilhar suas habilidades com moradoras de áreas afetadas por desastres naturais.

Sara-Kristina Hanning Nour (Foto: Reprodução)

Sara-Kristina Hanning Nour
27 anos, Egito
Sara and Lara’s Baskets, sarasorganicfood.com

Criada em uma fazenda e entusiasta do vegetarianismo, a agrônoma suíça, que se mudou para o Egito há seis anos, identificou na capital do país uma carência de produtos orgânicos. A insuficiência motivou Sara-Kristina a criar um delivery de frutas e vegetais produzidos em estufas, sem o uso de agrotóxicos. “Muita gente não faz ideia da origem de seus alimentos. A maioria deles é cultivada com excesso de pesticidas, extremamente prejudiciais à saúde”, alerta. Desde janeiro de 2014, o serviço, que atende cerca de 100 famílias no Cairo e em Alexandria, funciona por meio de uma assinatura semanal, com valores que variam de R$ 80 a R$ 130. Com planos ambiciosos de expansão nacional, a jovem pretende fomentar a alimentação saudável entre os 20 milhões de egípcios. “As pessoas precisam se alimentar de maneira mais segura. Os casos de câncer, infertilidade, insuficiência respiratória e problemas de aprendizado são cada vez mais comuns e afetam consumidores e produtores. Por isso, trabalho para educar o mercado como um todo”, diz Sara.

 

FONTE: Revista Marie Claire