Aos 18 eu aspirava ser Trainee numa multinacional, especificamente a Volkswagen, e esse plano me martelou por muito tempo, mesmo. Entrei para um curso de alemão, e iniciei meus estágios na psicologia organizacional. Mas eu também achava o máximo o trabalho dos Médicos Sem Fronteiras, da Cruz Vermelha, atendimentos emergenciais em tragédias… Achava que seria incrível trabalhar como psicóloga em escolas públicas e pensar em projetos de empoderamento e qualidade de vida do professor… Como também imaginava a vida acadêmica, palestrando, fazendo conferência, viajando para falar de novas descobertas e pesquisas, essas coisas. Eu queria tudo isso junto, na verdade.

Eu tinha um modelo, na verdade, recortes de várias coisas que eu achava o máximo: vida saudável, milhões de livros lidos, falando idiomas, uma casa colorida, um carro quase uma perua pra poder viajar com a casa inteira dentro, um trabalho incrível e uma vida financeira estável, e isso aos 18, com a economia brasileira a todo vapor era super fácil de imaginar né, eu não esperava por essa crise nem de longe…

Durante os vinte, eu não me preocupei muito com meus modelos, sentia falta de ter referências, porque é como se tudo que eu quisesse fazer, da forma como eu queria fazer fosse inusitado demais para mim, de tal forma, que eu queria saber de alguém que já tinha caminhado aquela estrada, de como era, como se eu tivesse um sonho secreto de receber uma carta minha aos vinte e poucos, de como era a vida depois dos trinta, mas nada que me impedisse de tentar, de testar e de viver.

Mas…

Existe uma mística dos trinta anos, né?

Não sei porquê, mas essa coisa da mulher de trinta é tão badalado. É como se fosse o auge da vida adulta, os 10 anos de maior expressão de vida, nessa nossa cultura adultocêntrica, a casa dos trinta é hipervalorizada. Poxa, tem personagens centenárias de trinta anos! Tem expressão pra representar uma mulher de trinta: Balzaquiana! Como não pensar ou idealizar os trinta, desse jeito? 

E hoje, eu tenho vinte e nove. Por muito tempo me senti um pouco deslocada, como se me martelasse a questão: O que é ser uma pessoa de vinte e tantos? O que é ser uma adulta nos dias de hoje, quando não existe mais uma fronteira nítida entre a adolescência e a vida adulta! Basta ver os filmes, comerciais ou ir pra uma balada e ouvir as mesmas músicas que as crianças e adolescentes das escolas que trabalhei, e trabalho, também escutam. 

Aí eu penso, poxa, eu tenho um blog… Eu tenho blog desde os 13! Eu continuo blogando desde sempre! E eu hoje admito que algumas vezes parei porque pensava que isso era meio adolescente, e depois sentia uma saudade dos infernos disso aqui, porque eu gosto de escrever. E hoje, aos vinte e nove, me pego em vários pensamentos recriminatórios ao meu respeito, como se eu quisesse impor uma fronteira, ou me enquadrar num papel ou num modelo que não me comporta.

Ano passado eu tive uma crise, como tive pequenas crises esse ano também. Uma crise existencial de um não reconhecimento, por ter me esforçado a entrar num lugar que não me cabia, ora pequena demais, ora gigante. Um conflito mental e emocional desgastante, que me podava e me limitava dentro de fronteiras inflexíveis dos papéis que eu exerço, como se ser psicóloga não me permitisse ser o que eu sou, como se ser mãe não me permitisse ser o que eu sou, como se ser esposa não me permitisse ser o que eu sou, e juntando tantas impermissões eu acabei me desconhecendo.

Eu percebi esse meu movimento interno, tentei lutar com bravura, na hora que esses pensamentos me tomavam, eu enxergava que nos últimos quatro anos eu estava vivendo um processo diferente, mas era como se eu pensasse que “não, é assim mesmo que deve ser” e ao mesmo tempo pensava que era só um momento de introspecção… eu vivia (e de certa forma vivo) um conflito, e para enfrentar conflitos se faz necessário apoio, e é nessa hora que a gente entende a importância de voltar e cuidar de si mesma, de mergulhar novamente lá dentro da nossa história e cuidar do que não pode ser cuidado ainda, porque talvez, agora era a hora de olhar para aqueles detalhes que ficaram por ali. Voltei para psicoterapia. (Todo psicólogo deveria fazer psicoterapia, e eu já fiz, a psicoterapia não é um processo eterno, você vai e volta, inclusive nós psis vivemos esse ir e vir da psicoterapia, é uma relação dinâmica).

Hoje, minha maior crise dos trinta é me despir de tantas impossibilidades construídas por mim mesma, tentando me fixar num modelo, quando a vida é maleável, e todo limite é borda. Porque nosso limite com o mundo é um corpo poroso, que troca com o mundo. Bordas inflexíveis não trocam.

Minha crise dos trinta que se aproximam, foi perceber um engessamento, numa formalidade que não me é natural. Porque eu que sempre falei o que pensava, sempre gesticulei e sempre fui tão expressiva, fui tomada por um “isso não é apropriado”, que me enchia de uma vergonha e um culpa massacrante. Mas como tudo que se força a caber, escapa, existe sempre uma fuga desses pensamentos sabotadores, porque é na hora que eu to ali, vivendo o que eu amo, realizando o que eu sou apaixonada, e nisso entra minha relação com meu esposo, com meu filho, com meu trabalho, na hora da empolgação, que a gente esquece e se solta, eu sinto, sabe? Eu sinto como se uma luz me atravessasse e eu me iluminasse de alegria. E ao mesmo tempo sou tomada por uma culpa estranha como se eu não pudesse…

Eu sei que ouvi várias vezes frases que se acumularam dentro de mim, em diversas situações, que me faziam sentir que cada detalhe meu, faziam com que quem eu era, parecesse inadequada… E por essas e outras, você começa a se policiar de tal forma, que deixa de existir, mas uma hora, tudo isso que ficou amarrado e amordaçado, incomoda. Eu poderia listar um trezentos mil parágrafos de coisas que eu ouvi que massacravam por dentro, e me colocavam em dúvida, e que eu pensava, que talvez eles tivessem razão. Apesar de as pessoas que eu mais admiro e que mais tem peso pra mim, nunca falaram nada que me fizessem sentir inapropriada ou incapaz, muito pelo o contrário.

Mas é a culpa-barra-vergonha de: me sentir orgulhosa de mim mesma, de querer me ver bonita e me sentir assim, de gostar de me cuidar e realmente o fazer, de não gostar dos quilos a mais que eu nunca tive, de gostar de ler absurdamente, e achar bonito e me sentir bem por me sentir inteligente, de ter ambições, da autoestima e de uma certa vaidade, de gargalhar, de sorrir, de ser simpática, de ser comunicativa, de gostar de ter e fazer novas amizades, de gostar de conversar com as pessoas… e de mais um monte de coisa que eu sei que aos poucos vou entender até que ponto fazem sentido e realmente não são coisas que eu quero pra mim, e até que ponto são coisas que eu gosto de ser e viver, que eu não deveria me sentir mal por isso.

Minha crise dos trinta é de redescoberta, e de re-apropriação. De sair desse olhar de “estou velha demais para isso”, e, puts! eu assisti Friends e Sex and the City a vida toda! Se eu acho que tô velha com trinta anos para ser minimamente alegre e divertida, imagina como eu vou estar com cinquenta, meu Deus?

Não é uma questão de “ah! quero ser como eu era aos vinte”, mas sim de “eu quero ser livre pra ser quem eu sou”. Numa explosão do meu ser criativo e criador, espontâneo e ousado, mas também introspectivo e responsável, com respeito a si e com a autoridade de quem se reconhece, e que de alguma forma, entendeu que ser adulta não é uma simples oposição à juventude, e que a autoridade não se conquista com formalidades exageradas, com austeridade e sisudez, se a minha preocupação era de como ser mãe e ter minha autoridade enquanto adulta da relação, né?

Sem limites inflexíveis, mas maleável e dialógico com o mundo e com a vida.