[E o porquê da pizza?]

Tudo começou quando de uma hora pra outra, depois de muito tempo, peguei uma gripe que me deixou praticamente inútil (E não vale só pra gripe não, mãe também cansa, mãe também sofre de exaustão a depender da vida que leva). Só não me deixou mais porque “mãe padece no paraíso”, porque a vida não pára, e as crianças não vão mesmo esperar que uma mãe possa “curtir” a doença.

Curtir doença, Sarah? Sim, viver a dor sem ter que levantar cedo pra arrumar filhos e mochilas pra levar pra escola, preocupar com tarefas de casa, com casa minimamente arrumada, tomar o que tem que tomar de remédio e dormir por horas sem ter mãozinhas afoitas no seu rosto pedindo isso ou aquilo. E lá ia-se uma mãe se arrastando numa moleza febril atendendo mil e quinhentas demandas, porque 1001 é pouca coisa.

A rotina não para e o corpo não aguenta, por mais que tua rede de apoio seja eficiente, tem situações que parecem serem propositais, quanto mais você precisa diminuir o ritmo mais a meninada demanda. O que me fez mudar a rota, refazer meus planos e prioridades, forçadamente desacelerar e dizer pro mundo umas verdades para o mundo que te cobra perfeição, injetando doses de frustração e culpa. Mas não é bem assim que as coisas funcionam, escute aí:

Atire a primeira chupeta, se você preferiu fazer a mamadeira apenas com leite, porque tua energia não foi suficiente pra sujar um liquidificador para fazer uma vitamina de frutas.

Atire a primeira fralda, se na hora do almoço, tudo o que tu mais queria era sossego pra carregar o peso de uma gripe, do cansaço, seja lá o que tiveres sentindo. E então, o cardápio só tinha aquilo que as crianças gostam de comer e nem passa pela tua cabeça travar uma guerra pra convencer o pequeno seletor de alimentos verdes a comer uma folhinha sequer de alface.

Atire a primeira mamadeira, se as crianças passaram o dia de fralda, calcinha ou cueca. Porque tu, a mãe, não tinha forças pra lidar com a própria febre e a água fria do banho. Sim, não é só um banho, duas crianças no box do banheiro vira uma avalanche aquática e você por tabela toma um banho também.

Atire o primeiro brinquedo, AQUELE espalhado na sala que em dias normais tu terias paciência de ensinar o teu filho a juntar. Só que hoje, não importa esse obstáculo no meio do caminho e sim, poupar energias para suprir demandas calibradíssimas dos pequenos. E a tarefa da escola? Ficou pela metade, tudo culpa minha.

E hoje, justamente hoje… o corpo não me parece responder. E a coragem foi dar uma volta. Não vem pra jantar. a hora do jantar? Ah, pedi uma pizza porque sou filha de Deus, com febre, cansada e devastada de doente.

Atirem todas as coisas, mas não te esqueças: Um dia a vida mostra a tênue linha entre a expectativa e a real maternidade. E que podemos seguir desejando ser ideais para nossos filhos, mas entre erros e acertos, o que importa mesmo é a nossa presença. Inteira ou pela metade, do jeito que for, sem culpas.

Afinal, não precisamos dar conta de tudo.

Com amor,
Sarah.

Sarah Cavalcante Silveira

Graduanda em Psicologia – UFC/Campus Sobral

Autora do Instablog Manhêêê!

E-mail: sarahcavalcantesilveira@gmail.com