“Quem sabe do outro, é o outro. ”

A primeira vez que ouvi essa frase, me senti como um prédio sendo implodido. Por fora, eu caia “na real”, mas com aquela cara de paisagem. Por dentro, virei escombros. Pequenos fragmentos de realidade, julgamentos, pré-conceitos. Meu. Tudo meu. Estraçalhado.

Esse ensinamento me persegue até hoje. No dia a dia da maternidade, então… nem te conto.

Recentemente, fiquei assistindo algumas histórias no instagram e me deparei com a “satisfação” que uma mãe, bem famosa no meio da culinária infantil, estava dando para suas seguidoras.

A mulher foi cobrada (e rechaçada) por ter oferecido chupeta para sua filha. Essa mesma mulher está há alguns anos compartilhando receitas saudáveis para crianças. Essa mesma mulher doa seu tempo e seu conhecimento para quem ela nem conhece e nunca fez qualquer julgamento sobre a rotina alimentar de quem não concorda com seu estilo e o estilo de sua família. Ok.

Das coisas que me assustam no meio da “humanização-alimentaçãosaudável-criaçãocomapego eetcetal”, é o extremismo. Ser extremista dentro do contexto da maternagem, é cruel e covarde. É ignorar, por exemplo, que a própria “humanização” traz a ideia do respeito a subjetividade.

Fico pensando em como maternidade e culpa andam juntas. Porque não basta ser mãe e carregar um turbilhão de responsabilidades. Não basta parir um bebê e perceber que aquela ideia de família feliz, em muitas situações, não rola. A realidade é um negócio que bate de chinelo de couro. Dói, viu?! Haja chão pra aparar tanta queda.

Não basta, também, encarar as emoções, dentro do contexto em que você vive. Tem que aturar dedo apontado, opiniões, palpites e ideias que não cabem dentro da sua realidade. Querem que caiba. Empurram uma comparação daqui, uma culpa dali, informações de senso comum… Vão arrumar um jeito de te colocar o saco da culpa nas costas e de te apresentar a sensação do “sou a pior mãe do mundo”. Sabe a sobrecarga de atividades? Vão te fazer engolir a sobrecarga emocional também.

Deveriam fazer isso? Não. Por que fazem? Não sei. É um comportamento inconsciente, anestesiado e/ou sem reflexão de causa e consequência? Talvez.

Nunca se teve tanta informação, mas nunca foi tão complicado ter acesso e consciência do que se lê/ouve. Me parece que, aos olhos de alguns, informação é arma e deve ser atirada de qualquer jeito. Falta tato. Atiram, atingem o alvo e não importa o impacto causado.

Quando a gente tem informação, consciência de sua importância e consegue aplicá-la em nosso contexto, é maravilhoso. Quem não gosta de saber que alimenta bem seu filho bem, por exemplo? É bacana saber que o prato colorido de legumes, com pouca gordura, proteína, carboidrato, é o prato ideal para uma criança. Mas não é o prato real em muitos lares.

A chupeta… A chupeta vem sendo demonizada, a mamadeira, idem. Não vou entrar no mérito da “sobrevivência” (fiz isso e aquilo, usei isso e aquilo e não morri). Vários estudos condenam o uso da chupeta e trazem mais malefícios do que benefícios em seus resultados. A mulher que tem acesso a esses estudos e opta em oferecer a chupeta, sabe exatamente o motivo de aderir. A quem interessa seus motivos? Me parece que só a ela, visto que a patrulha da maternagem alheia não se importa em saber o que a levou a essa decisão. E pior! Saber que essa mulher usava o adereço às escondidas e foi descoberta por descuido.

Percebe o problema? Escondida. Alguém faz ideia do que passa na cabeça dessa mulher ao fazer uma fotografia e ter o cuidado de não mostrar a chupeta? Alguém conhece aquele contexto familiar?

Nesse caso que usei como exemplo, dentro da “satisfação” que ela dava para suas seguidoras, é que UM DOS motivos de a bebê usar chupeta, foi pela necessidade de fazer uma tomografia e de ficar 12 horas em jejum. Sabe o que é deixar um bebê de três meses em jejum, por 12 horas? Chuto que 99% das seguidoras não sabiam… Só ela. Sabia, optou por diminuir o desconforto da fome da filha e fez aquilo que estava ao seu alcance. Para diminuir o sofrimento de um bebê.

Quando minha filha mais nova tinha quatro meses, caiu da cama. Vomitou duas vezes e chorou muito. Fomos à emergência e ela precisou fazer tomografia. Maldita hora que não pensei na chupeta para aliviar sua vontade de mamar. Mais ainda! Maldita hora em que não usei a chupeta para fazê-la entrar na máquina com calma. Pois precisei entrar junto com ela, de QUATRO e angustiada em vê-la chorar por conta do desconforto.

Sejamos mais acolhedoras, mais realistas, mais sábias. Mais humanas. Mais maternas.

Que estejamos ligadas numa maternagem CONSCIENTE! Fazendo aquilo que cabe dentro da nossa rotina, da nossa história, do nosso roteiro, do nosso contexto.

A maternidade não precisa ser carregada, pesada e culpada.

Libertemo-nos!

por Laís Capibaribe