Este texto é continuação da temática iniciada no mês anterior, onde abordamos o tema da morte e do luto infantil.

Hoje inicio lançando algumas perguntas para reflexão:

E a perda de alguém por suicídio? De que modo a criança vivencia este luto?

Ou antes disso: a criança deve estar ciente da causa da morte? Como conversar com ela sobre isso?

O suicídio é um evento trágico para toda a família.

Todos são extremamente impactados por essa morte e, na maioria dos casos, precisam de cuidados especiais, o que inclui acompanhamento psicológico.

Se muitas vezes silenciamos e não nos encorajamos a falar com as crianças sobre o tema da morte, a perda de alguém por suicídio costuma ser um terreno ainda mais delicado para muitas famílias.

Dentre muitas especificidades, o luto por suicídio guarda uma que aqui gostaria de sublinhar. Em mortes por outras causas, de modo geral, os membros enlutados costumam se unir no acolhimento e partilha da dor. No luto por suicídio, os laços familiares ficam fragilizados, amigos podem não reagir com o mesmo nível de consolo e apoio comunitário e pode haver um sentimento de estigma pelo acontecimento.

Mais uma vez (e principalmente!) o diálogo franco, empático e adequado para a idade ajudará neste momento.

Conversar com uma criança sobre o que aconteceu e sobre como ela está se sentindo pode fazer grande diferença em seu processo de luto e na busca de uma nova forma de existir no mundo.

Nos últimos anos as mortes por suicídio têm alcançado números alarmantes e é possível assistir a inúmeras mobilizações e campanhas de prevenção mundo afora. Entendemos que trabalhar no sentido da prevenção do suicídio, bem como diminuir o estigma e tabu sobre o tema, é atuar principalmente pela via da informação. E isto pode iniciar dentro de casa, já com as crianças.

Alguns estudos mostram que, em casos de suicídio, a criança vive o luto duas vezes e esta vivência pode ser tão impactante como a de um abuso. A descoberta não só que a pessoa morreu, mas a forma como morreu, pode ser bastante mobilizadora e despertar os mais variados pensamentos, sentimentos e curiosidades.

Por mais difícil que possa ser este momento, a sinceridade, união e apoio da família será melhor do a mentira, mesmo que esta esteja a serviço de sua proteção.

Mais tarde a criança poderá descobrir por outra pessoa e isso pode desestruturar o elo de confiança que havia entre ela e “quem deveria ter contado”. Além disso, pensamentos sobre morte são muito comuns, principalmente na adolescência. Se esse tema é tabu ou assunto proibido na família, corre-se o risco de perder de vista um importante caminho para a prevenção de tentativas de suicídio futuras.

Em “Suicídio e Luto: Histórias de filhos sobreviventes“, a Psicóloga Karina Fukumitsu traz relatos de pessoas que perderam seus entes queridos por suicídio e do quão devastadora pode ser a consequência dessa perda. Desse modo, fala da importância do trabalho não apenas de prevenção, mas também de posvenção do suicídio:

[…] o termo posvenção foi cunhado por Edwin Shneidman (1985;1993), para representar todas as atividades que ocorrem após o suicídio, para minimizar o impacto das consequências da morte por suicídio.[…] Portanto, a posvenção é a prevenção das próximas gerações. Dessa maneira, existem duas fases relevantes da abordagem do contexto suicida: a fase de prevenção e a fase de posvenção. Assim, enquanto o programa de prevenção visa à redução os suicídios, a posvenção preocupa-se com o cuidado com os sobreviventes, no que diz respeito ao pós-suicídio de um ente querido (pag. 58)

Desse modo, ao atentarmos e cuidarmos do luto infantil por suicídio, estaremos atuando tanto no campo da prevenção como no da posvenção.

Mas, afinal, como abordar este tema com a criança? O que dizer e não dizer a ela?

Orienta-se que a primeira comunicação deve ser simples, direta e dirigida por alguém de vínculo e confiança da criança. O que fará diferença é o que acontece depois desse primeiro momento. Mais uma vez é importante lembrar que o luto é um processo e, portanto, deve-se deixar “a porta aberta” para o diálogo, para que a criança possa retornar ao tema quantas vezes achar necessário, até que o acontecimento possa ser compreendido e a vivência internalizada. Isto poderá acontecer ao longo de anos.

A perda por suicídio desperta as mais variadas sensações e sentimentos nos enlutados e é possível que, assim como os adultos, as crianças também experimentem sentimentos de culpa, vergonha, indignação e raiva em seu processo de luto. Seja qual for o sentimento, este deve ser acolhido e respeitado.

Na maioria dos casos de morte por suicídio há o componente da depressão, e esse seja, talvez, um caminho para abordar o tema com as crianças. Pode-se dizer, por exemplo, que esta pessoa tinha uma doença que se chamava depressão. Essa doença a fazia ficar muito triste. Certo dia, essa pessoa ficou tão triste e também tão confusa que ela quis se machucar. Aí ela pulou da janela e morreu ou colocou uma corda no pescoço e amarrou tão forte que morreu. Deve-se cuidar para privar a criança de detalhes desnecessários, mas é importante ressaltar que a pessoa estava doente, que não estava bem ou pensado direito e por isso, achava que nada ia resolver, mesmo sabendo que haviam pessoas para ajudar.

É também de crucial importância diminuir as fantasias sobre o fato. As crianças, principalmente as pequenas, possui o pensamento egocêntrico sobre os acontecimentos da vida, ou seja, acham que qualquer coisa que aconteça é culpa dela. É preciso esclarecer que não há um culpado e que nada do que ela pudesse ter feito ou falado iria mudar o que ocorreu. Perguntas sobre a veracidade ou intensidade do amor do ente por ela podem ser bastante comuns e, desse modo, deve-se explicar que o que aconteceu nada tem a ver com o amor que a pessoa sentia por ela, mas com pensamentos ruins e confusos de alguém que estava muito doente.

Ao falar sobre suicídio com crianças, inevitavelmente devemos considerar o importante papel que a escola tem neste processo. Isto deve-se não apenas por considerar as possíveis dificuldades que a criança enlutada possa ter em seu rendimento escolar e convivência social, mas também, que este possa ser um lugar onde a criança possa partilhar sua dor e conversar sobre o assunto. Desse modo, a criança precisará de acolhimento e cuidado especial no retorno às aulas e, muitas vezes, será necessário que a escola converse com os alunos da sala antes do seu retorno.

Certamente este são percursos delicados, com diálogos difíceis e que requerem profunda sensibilidade. Entretanto, por mais impactante que possa ser, são caminhos possíveis e as crianças costumam acompanhá-lo, a seu tempo.

A querida Psicóloga Karen Scavacini, referência no Brasil sobre o tema, nos presenteia com seu livro “E agora? Um livro para crianças lidando com o luto por suicídio“. O livro trata de forma sensível, corajosa e cuidadosa este difícil tema e tem o objetivo de ajudar não apenas as crianças, mas aos pais, educadores e profissionais nesta delicada jornada.

Por mais que o suicídio já seja considerado uma questão de saúde pública, a produção de conhecimento sobre a temática do luto infantil por suicídio ainda é escassa e os espaços de fomento de debates e discussões ainda são raros.

Desse modo, finalizo fazendo um convite para pensarmos e construirmos juntos mais estratégias para o cuidado e o acolhimento da dor de crianças enlutadas por suicídio.

Esse é um trabalho de muitos.

Abraços!

Patrícia Bessa