Já fazem alguns anos que eu não conto mais com a virada do ano, nem faço promessas de réveillon.

Hoje, todos os dias eu me proponho e me esforço para que as coisas mudem, e melhorem. Antes eu me esforçava e cobrava até demais, porque existia um parâmetro, e por alguma razão eu queria me incluir dentro dele. Que parâmetro era esse? Nem eu sei. Mas era como se eu estivesse sempre fora do caminho, ou longe das minhas conquistas. Apesar de ter meus diários, e registrar muita coisa bacana, eu sou era muito exigente, os dias passavam com a sensação de que eu não tinha feito absolutamente nada.

Por muito tempo eu vivi morrendo de vergonha de ser o que eu era, uma sensação de inadequação entre os opostos que eu transitava, porque eu não sabia onde me encaixar. E nesse tentar me encaixar, eu sempre explodia, intempestiva, nos exageros.

E como eu tenho tinha muita vergonha, eu deixava de fazer muita coisa, era mais fácil fazer o errado do que o sério, na verdade, porque o errado já é errado mesmo, mas tentar fazer o “certo” tem a possibilidade de enfrentar o fracasso por ter tentado de verdade e essa possibilidade era bem dolorosa pra mim.

Todo esse conflito mental, e o mundo girando, as coisas acontecendo, e eu me sentindo no mesmo lugar, apesar de ter mudado muito, todos os anos. O problema é que quando você tem um conflito mental/emocional, não adianta o que você faça, tudo vai ser medido a partir do conflito, da auto-percepção, auto-aceitação e auto-depreciação. Então, mesmo que digam que você fez algo maravilhoso, se você não tiver nenhum pouquinho de segurança nisso, com certeza, não vai fazer sentido. E era assim que eu vivia, e quando isso acontece você vive cansada, porque tá o tempo todo lutando, tentando, batalhando, trabalhando, e nunca está satisfeita com nada.

E, acho que pra piorar, eu não estou estava nem um pouco à vontade com meu corpo, com minhas roupas, com meu estado de espírito, e com o que eu estava me tornando. Eu me olhava no espelho e me via completamente bagunçada e desarrumada. E de certa forma, me vestia assim, me desarrumava assim, mas o que eu ouvia das pessoas ao meu respeito era o oposto do que eu estava acostumada a enxergar.

Quando Hugo nasceu, o primeiro ano foi quase um desastre pessoal, eu me exigia demais, me cobrava demais, ansiava demais por mudanças, que as coisas se encaixassem e resolvessem. Um dia dei um estalo, e entendi que quanto mais eu apertava, mais ia demorar para as coisas entrassem no prumo, e, na maioria das vezes, o prumo das coisas nem sempre significava a direção que eu queria para elas. 

Eu tinha muito medo de por ser mãe as coisas realmente ficassem muito mais difíceis pra mim, e eu me cobrava tentando fazer tudo, como que para mostrar a mim mesma que era possível, mas nunca era, e os dias sempre tinham o choro no banho, nas mamadas de madrugada e uma insatisfação tremenda com tudo, como se todo o mundo fosse culpado pelo ritmo das coisas.

Quando eu comecei a afrouxar o nó, o tempo, a exigência, a expectativa, as coisas começaram a fluir.

Com Hugo eu aprendi que existe um tempo, um ritmo, uma frequência, e que tudo precisa de equilíbrio. Inclusive dentro da minha relação com ele, existe um tempo de distância necessário para que possamos ser, cada um ser um, individualmente. E ao entender as coisas assim, eu entendi que entre precisar respirar e ser irresponsável existe uma distância imensa, ao compreender as cobranças sociais exageradas, ao perceber que a minha própria idealização de uma boa mãe era irreal e impossível, eu aprendi a me aceitar, reconhecendo meus limites. E foi quando eu cresci, num salto.

Então, eu comecei a receber, comecei a aceitar o que eu ouvia e recebia dos outros, e de alguma forma, fui me percebendo a partir de outro olhar, menos crítico, menos exigente. E comecei a mudar. E eu só percebi que algo mudava em mim, quando me vi num ritmo diferente, não de uma resignação passiva, mas de uma aceitação diferente, como se eu tivesse me permitido respirar para libertar (e eu preciso muito falar sobre isso, de como eu aprendi sobre a vida depois que passei dois meses em fisioterapia e com tratamento com osteopata).

Esse ano de 2016 foi um ano de condensação de todos os aprendizados que tenho vivido desde 2013.

Em 2016 eu fiz muitas coisas, e pela primeira vez não estou terminando um ano achando que não fiz nada, muito pelo contrário. Profissionalmente foi um super ano para mim, com um salto imenso de aprendizado e maturidade. Pessoalmente, tenho sentido muita coisa engrenar em mim e sei que as mudanças são lentas, processuais, mas estão acontecendo.

Para 2017 eu desejo de coração me libertar um pouco mais para receber, me aceitar e confiar. Eu desejo transbordar de coração, de afeto, de amor, de conhecimento. E ao mesmo tempo eu sei que preciso liberar espaços, limitar escolhas. Focar, e ampliar neste foco. Desejo compartilhar todas as descobertas que faço, entre escutas e estudos, entre conversas e leituras, entre a teoria e a experiência.

E você, como foi seu 2016 e o que você deseja para 2017?