Esse é um relato sobre inícios e finais.

Inicio, em primeiro lugar, por estar chegando no Reflor&Ser e, pela primeira vez, compartilhando com vocês um pouco de mim. Esse, tem a ver com tantos outros: ciclos, jornadas iniciáticas, que por escolha, consciente ou não, me ensinaram preciosidades, sobre mim, sobre o mundo…E, principalmente, sobre o incerto e, por vezes, assustador processo de crescer.

Para essa partilha acontecer, agora, muitas foram as minhas partes que precisaram morrer, ter um fim. Seguidas pelo nascimento de novos aspectos, papéis e expressões, cada um desses finais teve valor incalculável, pois, apesar da dor causada pela perda – muitas vezes, de mim mesma, como eu conhecia, da ilusão de controle ou de permanência – foram eles que abriram espaço para o novo surgir. O desconhecido. O incontrolável.

Desde criança fui curiosa, observadora. Eu achava, até recentemente (nem tão recentemente assim), que essas características me ajudavam, desde cedo, a ter muita facilidade para me conectar com as pessoas, compreender as suas necessidades. Essa foi uma das razões pela qual escolhi a Psicologia (desde que me lembro, nunca cheguei a cogitar outra opção).

O que eu não percebi, durante algum tempo, é que esses aspectos, valiosos integrantes da minha existência, foram, ao longo da minha vida, muito refinados: aos poucos, as necessidades dos outros, as regras sociais, os padrões esperados, as crenças culturais do que é “bom”, “normal” ou “desejado” tornaram-se os parâmetros utilizados para “medir” o sentido da minha existência e significar a minha importância, o meu lugar no mundo.

Foram necessários alguns adoecimentos, frustrações, desconfortos intrínsecos comigo e com a vida para perceber que, na tentativa de “ser boa” (filha cuidadosa, estudante dedicada, amiga de todas as horas, profissional exemplar, …) é que eu estava “fora de mim”, completamente desconectada: esquecera de ser gentil, bondosa e amorosa comigo mesma. Consequentemente, abrira mão (das dores e do prazer) de viver sendo quem sou.

A partir desse momento, se iniciou um grande, novo e muito poderoso ciclo: de retorno à minha essência, às minhas raízes, aos meus desejos e necessidades e expressão genuína.Para abrir espaço, deixar esse novo “eu” chegar, entretanto, precisei abrir mão de algo a que estava apegada, havia muito tempo: aquela ideia, que eu construíra desde criança, sobre mim, sobre quem eu sou.

Eis um lugar que costumamos evitar a todo custo, de profundo desconforto e vulnerabilidade: a incerteza sobre quem realmente somos.

Costumamos ter medo de que a nossa verdade, o que temos a oferecer, não seja o bastante. Desenvolvemos mecanismos muito refinados de evitar o contato com a nossa humana e imperfeita singularidade.

Nos impedimos de experimentar quem já somos, muitas vezes, por medo do que vamos “descobrir” a nosso próprio respeito. Esse costuma ser um caminho tortuoso e, muitas vezes, desafiador. É preciso coragem para desnudar-se, deixar para trás a nossa versão cristalizada sobre nós mesmas.

Reconhecer a total falta de controle sobre as pessoas e as situações, ter consciência de que por maior esforço que façamos, jamais seremos capazes de agradar a todos, muito menos de atender às suas expectativas (e às nossas próprias), significa abrir mão dessa camada protetora, construída muito tempo atrás. É necessário humildade.

“Temos vergonha de nossas imperfeições, mas há que se ter disposição de aceitá-las para derrubar os muros que nos aprisionam, para abrir o coração. Somente assim será possível sair da construção que criamos para nos proteger, essa máscara” (Sri Prem Baba, em Amar e Ser Livre)

Descobri que ser autêntica, significa, acima de tudo, aceitar a minha humanidade e, consequentemente, a do outro. Essa é, na minha opinião, a real possibilidade de conexão, de mudança e de crescimento. Na minha jornada, esse é, sem dúvida, o ponto de partida para muitas das transformações, dia após dia, no interminável caminho do aprendizado.

Desde então, tenho escutado, acompanhado e observado a jornada de tantas mulheres que, a partir da angústia gerada na contínua busca por “ser o suficiente”, dentro dos padrões registrados ao longo de tantos anos, sentem a necessidade de retornar para casa, para si mesmas.

Com elas, aprendo cada dia mais sobre a beleza que pode surgir dessa reconexão, do amor que é possível cultivar, da união que se pode recriar, simplesmente, sendo, como somos: humanas.

Se fortalece a minha esperança na luz interna de cada uma e na minha própria que, a partir do contato com a vulnerabilidade, as sombras e as imperfeições inerentes de nossa existência, nos transformamos e nos reconhecemos, umas nas outras, compartilhando a real possibilidade de aceitar e amar a nós mesmas, podendo honrar, individual e coletivamente, os nossos ciclos, oscilações, alegrias, tristezas, desconstruções e reconstruções, inícios e finais.

Finalizo, então, com o coração imensamente grato e sinceros desejos de que o novo ciclo seja transformador, de acordo com o que necessitamos e na medida do que já podemos sustentar.

Paciência, Serenidade e muito amor na Jornada. 
Com Carinho,
Carolina Maia.