Para nos aquecer com este tema, gostaria de iniciar compartilhando o que a querida Psicóloga Patrícia Gebrim, em seu livro Palavra de Criança, no diz sobre a morte:

Morte…é quando a lagarta já aprendeu tudo sobre a vida das lagartas, aí ela se fecha numa casinha apertada chamada casulo, nascem asinhas nas suas costas e ela vira uma borboleta bem bonita e sai voando por aí, aprendendo um monte de coisas diferentes.

E então ela conclui

Entregue-se com confiança à transformação.

Nesta apropriação sobre o conceito de morte, Gebrim nos lembra que nascemos, vivemos e morremos em muitos sentidos na vida.

Se nos preparamos para falar de vida com as crianças, de onde elas vieram ou como nasceram, por que nos amedrontamos tanto para falar de morte, se esta também faz parte da vida?

O fato de não abordamos este assunto, muitas vezes delicado e indigesto para muitas famílias, não priva as crianças de vivenciarem este processo. Pelo contrário, ao não falarmos sobre morte, perdas e luto, deixamos de ofertar um espaço de diálogo e expressão de sentimentos,o que contribui para uma sensação de desconfiança e desamparo por parte da criança. Além disso, perpetuamos a falsa ideia de que falar sobre morte e suas vicissitudes é algo ruim, penoso e errado e, portanto, precisamos silenciar. Precisamos não sentir.

Dianto disto, o modo como tratamos (ou não) deste assunto com os pequenos irá depender, principalmente, do modo como nós, adultos, nos relacionamos com este tema, e isto está, inevitavelmente atrelado a uma questão histórica e cultural.

As crianças orientais, por exemplos, já são acostumadas desde cedo a vivenciarem rituais funerários e a lidar com a morte de modo mais leve e natural.

E aqui gostaria de lançar uma pergunta em forma de reflexão: De que modo sua crença/fé/religião/espiritualidade contribui para sua relação com a morte?

Essa questionamento é essencial, pois, quando formos conversar com as crianças sobre este tema e ajudá-las a lidar com essa experiência (seja a perda de um ente querido ou a de um bichinho de estimação, por exemplo) é desse lugar que iremos partir, sempre com muito amor e respeito. Direcionar o olhar para nosso estado interno e ter a compreensão e clareza não só do que falamos, mas de que lugar falamos, sempre irá nos auxiliar quando formos tratar de temas delicados com as crianças.

Não há regra, mas em minha experiência percebo que uma das melhores formas de falar sobre morte com elas é atrelando seu conceito à ideia de mudança e transformação, como nos propõe Gebrim. Isto é possível abordando a noção de tempo e do processo mutável e cíclico da vida, a exemplo da vida das plantinhas, do nosso próprio desenvolvimento ao longo dos anos, das estações do ano, dos nossos projetos, dos relacionamentos, etc. Com isto, transmitimos a mensagem de que para tudo há um início, um meio e um fim. Após o fim, teremos as nossas lembranças que nos permitirão acessar e sentir tudo o que passou sempre que quisermos.

Tratar deste assunto já desde o início irá trazer maior naturalidade e familiaridade com vivências de perdas no futuro e processo de enlutamento pela morte de alguém.

Aqui vale lembrar que até os 7 anos as crianças ainda não construíram a noção de irreversibilidade da morte totalmente, ou seja, a ideia de que quem morre não volta mais. Por este motivo é de fundamental importância mantermos um diálogo franco e falarmos a verdade, evitando frases vagas como “virou estrela” ou foi fazer uma viagem”. Sugere-se dizer que a pessoa morreu, que não está mais aqui, mas que estará em nossos corações e lembranças e que é assim que nos manteremos ligadas a ela para sempre.

O mais importante é não retirar a criança dessa experiência e lembrarmos que o enlutamento é um processo e não um evento. Deste modo, devemos oportunizar a vivência das etapas do luto, assim como nós adultos a vivenciamos. Esta será particular para cada criança e é importante manter-se disponível para acolher todo e qualquer sentimento e dúvida que possam surgir ao longo deste processo.

Sugere-se também não esconder seus próprios sentimentos da criança.
Diante da perda um ente querido, há uma criança que sofre e precisa de cuidados, mas também há um adulto enlutado e com as mesmas necessidades. Não há mal nenhum chorar na frente dela ou dizer que também está triste. A perda de alguém é uma vivencia dolorosa para todos e não há nada de errado na expressão da dor.

Quanto aos rituais funerários, muitas famílias têm dúvidas quanto a levar ou não as crianças. Primeiramente devemos lembrar que estes rituais não são destinados às crianças, mas a nós adultos. Por outro lado, as crianças também necessitam de momentos e espaços com este e aí fica a pergunta: O que fazer? Devo ou não levar a criança?

Esta escolha deve ser sempre da criança e não dos adultos e, para tanto, devemos explicar com clareza do que se tratam os rituais funerários. É importante conversar anteriormente com a criança sobre o que acontecem neles e o que ela irá encontrar (um caixão, um corpo diferente, pessoas chorando, etc) para diminuir as fantasias e ansiedade e deixar que escolha se quer ou não estar presente neste momento. De todo modo, esta criança deverá estar sempre acompanhada de um adulto de confiança em todo o processo.

Indo ou não aos rituais funerários, sempre sugiro a realização de um “ritual infantil”, de modo que a criança possa se apropriar melhor da ideia da despedida e da morte como uma passagem.

Escrever uma cartinha, fazer uma pintura, desenho, plantar uma muda, soltar um balão, podem ser boas estratégias para lidar com o turbilhão de sentimentos despertados neste momento e auxiliar na elaboração da dor e da saudade.

Somos feitos de amor, dor e saudade. A dor que um dia vira saudade e a saudade como o amor que fica.

Finalizo convidando-os para a seguinte reflexão:

Quando falamos em morte, não falamos só da morte de alguém, mas das fantasias que temos com nossa própria morte, com nossa finitude e de como, ao longo da vida, precisamos simbolicamente matar e morrer em muitos sentidos e em muitos aspectos para continuarmos existindo como seres mutáveis e de luz. Falar de morte é falar de transformação e falar de transformação é falar de vida!

 

 

P.S.: Este artigo terá uma continuação e em sua “Parte 2” abordarei um tema que se configura ainda mais delicado para algumas famílias por tratar do enlutamento infantil por suicídio.

Abraços e até lá!

Patrícia Bessa (11/05945)