Por esses dias vivenciei uma das experiências mais fortes da minha existência: a morte de uma criança. Até então eu nunca havia me aproximado dessa realidade, nunca havia visto uma criança sem vida, inerte num caixão. Um pequeno caixão com anjinhos desenhados por todo lado.

Uma cena impactante.

Ao lado, uma mãe sofrida, porém firme. Ela contava a todos que se aproximavam, meio sem saber o que falar diante daquele enredo tão comovente, a mesma história: minha filha vai acordar, ela está dormindo. Foi assim que ela tentou, naquele momento de profundo sofrimento, trazer um sentido para o inenarrável que é a morte. Essa que nos acompanha silenciosa e sorrateira, pronta para nos surpreender.

A morte é sempre uma surpresa… Por mais que ela seja esperada, é um susto. 

A morte do outro aponta para a possibilidade da nossa própria morte. Daí porque se faz tão aterrorizante, daí porque nos paralisa. Somos finitos! Na sociedade em que vivemos, hedonista em sua essência, a morte é um absurdo. É um erro. Apresenta-se como assunto tabu, daqueles que se quer distância para não atrair. Essa distância, no entanto, é perigosa. Ela nos distancia também do Real que é o morrer e ao nos depararmos com a finitude da vida entramos em colapso. A morte de uma criança então é uma incoerência. Ela vai contra a ordem natural da vida…

Como elaborar?

Diante desse cenário desolador, vi a irmã da criança falecida. Imediatamente me questionei sobre que se passaria naquela cabecinha de uns 8 anos de idade. Como ela estava percebendo todo esse acontecimento? Como a perda da irmã estava chegando até ela, também criança?

É comum imaginar que crianças não compreendem a morte. Por isso, muitas vezes, tem-se a ideia de que tudo que é relacionado a este conceito será prejudicial a ela, traumático, fazendo do silêncio sobre o assunto o principal aliado dos adultos. A criança, no entanto é capaz de vivenciar o luto, contudo o elabora de uma forma diferente, de um modo muito particular, com características individuais, bem próprias da sua experiência de vida infantil.

A criança constrói o conceito de morte juntamente com o seu desenvolvimento cognitivo.

O significado dado à morte pela criança varia de acordo com alguns fatores, entre os quais o primeiro a ser considerado é a idade, ou melhor, o momento de seu desenvolvimento psicológico. (Bromberg, 2000)
Os outros fatores são a forma com que os adultos lidam com a perda e o binômio quantidade/qualidade de relação tida pela criança com a pessoa falecida.

Crianças e adultos têm reações emocionais e comportamentais diferentes perante a morte. Cabe então ao adulto tentar reconhecer a inabilidade da criança em lidar com esse assunto para que ele funcione como mediador nessa aproximação da criança com a temática, de modo seguro ao seu psiquismo.

Para que a criança compreenda a morte, com os recursos que sua idade permite. ela não deve ser excluída da experiência da perda. Naturalmente, essa realidade será a que a criança puder apreender e suportar. É fundamental nesse contexto ouvir a criança enlutada, falar a verdade e ser claro com ela.

→ Ao se comunicar com uma criança sobre a morte de alguém, o uso de certas expressões pode confundi-la e, portanto, devem ser evitadas. Por exemplo, expressões como “finalmente descansou” pode levar a criança a pensar que, se a pessoa dormir e descansar poderá voltar.

→ Deixá-la falar das suas fantasias e medos, de suas impressões e expectativas, lançar mão de material lúdico, como livros infantis que abordem o tema e desenhos livres, ou seja, acolhê-la em suas dúvidas nesse terreno instável onde nós, adultos, também nos sentimos perdidos facilita o diálogo e a compreensão da criança.

A perda que desencadeia o luto significa deixar de ter concretamente o ente querido, o amigo do peito, o irmão caçula, aquele que é insubstituível, implicando na maioria das vezes, o rompimento de um laço afetivo. Essa perda pressupõe uma mudança drástica e estressante no contexto ambiental e quanto mais forte é o vínculo, mais a perda e a morte são emocionalmente sentidas e mais dificilmente transpostas.

Contudo, é unânime para qualquer faixa etária:

  • Um ambiente favorável à livre expressão dos sentimentos;
  • O respeito ao tempo necessário para que se passe por todas as fases do luto;
  • O apoio emocional oferecido pela família;
  • O suporte de um profissional da área da saúde.

Um psicólogo é fundamental para que a travessia pelo mar revolto da saudade seja mais serena e conduza para um lugar inédito, o da ressignificação da perda onde o barco da vida pode ancorar seguro e descansar até estar pronto para uma nova viagem.

Até a próxima!

Ana Maria Soares Maia
CRP: 11/07587
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