Oi, pessoas, tudo bem?

Primeiramente gostaria de agradecer o convite feito a mim e as minhas outras colegas da coluna Refloreser e dizer que é um honra e uma responsabilidade enorme poder contribuir com a minha visão de estudante de psicologia sobre um aspecto que atravessa não só minha formação acadêmica, como minha vida de maneira muito abrangente: a maternidade e suas vicissitudes de vivê-la.

Farei aqui uma breve apresentação. Me chamo Sarah, tenho 30 anos, sou mãe de duas criaturinhas que conseguiram fazer de mim um poço arqueológico da vida. Sim, arqueologia da vida, no sentido de resgatar histórias minhas como mulher, de uma formação, de uma família (de mulheres importantes para mim) e de modos de existir. O fato é que desde o nascimento de Joaquim (4 anos) e Nise (1 ano e 8 meses), fui marcada por diversos acontecimentos da vida que resultam nesse meu olhar dentro da graduação, voltando interesse especial para essa temática que tanto me instiga.

Sem mais demora, convido-lhes a conhecer minha história contada de forma meio poética resgatando alguns dos meus passados e que me fazem crer cada vez mais no poder da história contada, no poder que as histórias tem de entrelaçar pessoas e proporcionar que por meio delas se reconheçam, se experimentem e se resgatem.

“Debaixo d´água tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido. Mas tinha que respirar” (Maria Bethânia)

Eu tinha que respirar desde o instante que cheguei ao mundo. Tinha que descobrir, ainda que com a ajuda materna, a vivenciar esse mundo. Fui respirando, experimentando as coisas, as cores, os sabores, as alegrias e também as dores.

Fui crescendo em meio aos quadros e aquarelas de vovó, mexendo com seus pincéis, tintas com o ouvido atento às estórias e à forma mística e esotérica de como ela respirava o mundo. Aprendi com vovó a ser meio cigana, adorar a natureza e suas magias. E nesse respirar, outros ares também me ensinaram a viver… o carinho de mãe, a postura rígida quase militar que meu pai herdara de meu avô, o afastamento relacional com avó materna e as corujices do vovô Quincas.

screenshot_2016-03-20-13-24-16-1Respirando fui… conheci outras atmosferas, respirei/vivi outras pessoas e nessa caminhada, ainda menina aprendi a gotejar. Lagrimando lágrimas no chão como quem se chateia com o brinquedo quebrado… lagrimei algumas perdas, sendo a primeiras delas, o meu avô materno. Cresci, entrei na faculdade, me apaixonei, me casei, tentamos filhos, mas a vida que me fazia respirar, me fez novamente gotejar: os filhos não vingaram. Quando pensei que o gotejamento cessaria, veio o dia da grande enchente, que na vida que tanto respirei, me vi sufocada entre ar e água… perdera a minha mãe. Me afoguei, abandonei tudo, a psicologia. Não queria respirar, mas tinha que respirar e só sabia lagrimar. Até que tudo passou e era só o ar… sem gotas.

Logo depois, veio o retorno à faculdade, ao prazer pela escrita. Estava mais consciente de que meu ar estava mais límpido e as gotinhas dos olhos voltaram! Eram as sementes do amor, os filhos chegando… duas pequeninas pessoas que respirariam comigo e que também por um bom tempo dependeriam do meu ar. Torna-me mãe, foi o meu resgate, um resgate de minhas raízes. Afinal, com o nascimento dos meus filhos, renasceram alguns sonhos, a maturidade para encarar o fim de uma gestalt, essa transição quase infinita da vida acadêmica para o campo de trabalho. Meus filhos atravessam a psicologia, que me atravessa e por aí não sabemos onde quem somos quem, o fato é que a minha experiência vivida dentro de fora da psicologia, dentro e fora da maternidade/maternagem me nutre de expectativas de um fazer ético da minha profissão, buscando sempre uma postura positiva da vida, do outro e das relações entre “respirantes” desse mundo.

E quando tudo era água, azul, escuro e protegido… a imensidão do ar, do risco de viver e respirar é bem melhor. E ser mãe é um misto disso tudo, é a potência da experiência vivida, respirada.

E que possamos trocar nossos ares!

Um abraço,

Sarah