Costumo dizer que são os filhos quem inauguram a família. Por outro lado é a família quem inaugura os laços afetivos da criança, assim como a escola é quem inaugura seu meio social.

Mas sabem o que tem de particular (e único!) nos filhos únicos?

São eles quem inauguram absolutamente todas as vivências e construções que ocorrerão entre pais e filhos.

Pais e filhos serão eternos aprendizes. Serão sempre de “primeira viagem”. Não veio ninguém antes e também não veio ninguém depois.

Lembro quando criança o quanto essa constatação me aterrorizava em pensamento. Afinal, se meus pais morressem eu estaria só e se eu morresse eles não seriam mais pais. Seria a morte deles também.

Os filhos únicos estão sempre transitando entre os benefícios e a leveza dos mimos e regalias, mas também entre o peso das altas expectativas, cobranças e responsabilidades. Os filhos únicos não precisam dividir a atenção dos pais, o quarto, os brinquedos, as roupas. Devido a isto as experiências de compartilhamento, solidariedade, espera e frustrações costumam ser vivenciadas mais tardiamente, e neste aspecto o ambiente escolar assume um papel fundamental na inauguração e exercício de habilidades sociais.

Por outro lado, os filhos únicos também não dividem as expectativas, o patrulhamento, as dívidas (já dizia meu pai rs).

Se é verdade que os pais se realizam nos filhos, os filhos únicos são a única chance e oportunidade disso acontecer. Que lindo! (E cruel!)

Lembro que quando adolescente, certo dia, perguntei a minha Psicóloga:

-“Mas, e a ovelha negra da família, quem vai ser? E se eu quiser ser? E se for tudo o que eu quero ser?”

E então, ela disse:

-“Seja! Seus pais vão continuar te amando e de quebra vão aprender a ser pais de uma ovelha negra.”

Uau! Eu podia ser!

Na verdade, nem sei se fui.  Mas tem coisa melhor do que saber que você pode SER para além das expectativas dos outros e que tudo vai ficar bem? Mesmo que esses outros sejam os seus pais? Digo isso por que é comum receber no consultório “os filhos únicos”. Sejam os pais deles ou eles mesmos. Adultos e crianças.

Como esse lugar às vezes é difícil e confuso, mas também potente de muitos encontros, aprendizados e construções!

Certo dia estava lendo algo a respeito da “Síndrome do filho único”, nomenclatura dada a um conjunto de sinais que caracterizam os relacionamentos entre pais e seus filhos únicos. O termo “síndrome” incute a conotação de algo problemático e que gera sofrimento.

Observamos que em famílias com mais de um filho é comum que os pais se concentrem em atender mais a um do que a outros, por motivos que vão desde adoecimentos ao desenvolvimento de transtornos psicológicos ou questões escolares. Não obstante, quando se é filho único, toda a energia e dedicação dos pais são destinadas a um único ser. E é justamente esse excesso o que se chama de “Síndrome do filho único”.

Os pais de um filho único são cuidadosos e dão carinho mesmo em momentos onde isto não parece ser necessário. A oferta de cuidados em demasia, o que comumente chamamos de “superproteção”, pode mais prejudicar do que auxiliar o filho, e consequentemente os pais.

Neste ponto, gosto do exemplo da laranja. O filho está cortando uma laranja para comer. Aos olhos atentos e cuidadosos da mãe parece meio desajeitado e com alto risco de se machucar. “Cuidado! Deixa que eu corto!”. Ao fazermos este pequeno gesto os privamos da experiência de ensinar , deixando de fazer COM ele para fazer POR ele. É com a simples mudança de atitude gerada por essas três letras que perdemos uma grande oportunidade de aprendizado, de construção de autoconfiança, de autocuidado, de autoestima e da própria experiência de arriscar-se.

(Mas sabem de uma coisa? Aquela máxima que diz “melhor pecar pelo excesso do que pela falta”, talvez ainda continue sendo um bom alento.)

Não há nada de mal em desejar e escolher ter apenas um filho.  Na verdade, esta é uma realidade cada vez mais comum e crescente nas últimas décadas. A sustentação para o desenvolvimento de relações saudáveis ( o que não quer dizer sem conflitos) em uma família com um único filho é a mesma para qualquer outra família: disciplina, afeto, atenção e empatia. Equilibrar os cuidados e permitir que o filho se desenvolva em um ambiente feliz, mas com autoridade (sem autoritarismo) é  fundamental.

Importante, desde cedo, oportunizar ao filho único o convívio com outras crianças, o exercício da tolerância e o reconhecimento de que nem sempre poderá ter tudo o que deseja e que nem sempre será, ou mesmo precisará ser o melhor em tudo o que faz. Afinal, esse é o caminho do crescimento e essa aprendizagem fará parte de uma jornada que só cessará quando morrermos.

Posturas como estas estão a serviço não somente do desenvolvimento da criança, como também a serviço dos pais que, assim como os meus, ainda são aprendizes. Aprendizes de pais de uma filha única que cresceu e hoje é adulta, mas que sempre os lembra o quão especial pode ser a jornada de ter apenas um filho.

Vamos construir juntos?

Algum filho único ou pais de filho único por aqui?

Forte abraço e até mais!

Patrícia Bessa (CRP 11/05945)