Atualmente os pais vivem uma pressão muito grande de que os filhos sejam felizes e bem sucedidos. E quem não deseja um futuro bom para os filhos? A grande questão está na concepção familiar do que é uma educação de sucesso. Não existe uma regra, cada família e cada criança tem uma história, mas hoje em dia existem inúmeras pesquisas que podem nos auxiliar nessa difícil empreitada de educar com limites sem perder o amor.

A falta ou o excesso, de atenção ou de limites, podem contribuir para ansiedade, egocentrismo, dificuldade de lidar com a frustração, dentre outros. Encontrar um caminho de equilíbrio parte também de uma investigação interna dos pais, pois tendemos a reproduzir na nossa vida adulta os modelos experimentados na infância, tanto do que foi bom, como do que não foi.

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Numa pesquisa apresentada na revista Mente e Cérebro (2016), aponta que filhos de pais muito rígidos tem maior tendência a desenvolver ansiedade, e que isso pode perdurar até a vida adulta.

O autoritarismo dificulta a criança a desenvolver capacidade de lidar com a frustração e encontrar saídas para os problemas, ou seja elas têm dificuldade de lidar com adversidades no futuro. É isso tem uma explicação científica e neurológica:

Do ponto de vista neurológico, uma criação punitiva pode provocar efeitos poderosos e persistentes, porque treina o cérebro a enfatizar excessivamente os erros. (Greg Hajcak Proudfit, Universidade Stony Brook, Nova York).

De acordo com a pesquisa de Proudfit além de uma questão genética que interfere na intensidade de responder ao erro, a exposição à duras críticas também tem um papel importante. Quando comentemos deslizes, o córtex pre-frontal medial (logo atrás do centro da testa) produz um padrão que é chamado de Negatividade Relacionada ao Erro, esse padrão é o que nos faz não cometer erros maiores, crianças expostas à desaprovação constante, punições, e críticas agressivas e fortes, desenvolvem a Negatividade Relacionada ao Erro maior. Desta forma, o NRE que deveria ser uma função neurológica de cuidado, se torna um “gatilho para o estresse”. E o excesso de cobrança, a falta de tolerância aos erros, e a criticidade exagerada pode ser o caminho para desenvolver um transtorno de ansiedade.

PHOTO CREDIT: Markus Spiske / raumrot.com
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E diante disso, como agir sem chegar na permissividade?

Bom, não é que os pais devam elogiar, ou ignorar os erros, mas encontrar equilíbrio entre dar elogios e pontuar os erros.

Pensar num erro como uma possibilidade de acertar, pois para que se encontre a resposta correta, às vezes, se faz necessário testar algumas respostas. O erro pode ser visto e vivido como uma tentativa de acerto, como uma possibilidade de encontrar o caminho certo. Usar o erro como um caminho para orientação correta, precisamos ter ciência que errar faz parte do desenvolvimento humano. Outro aspecto importante é de acreditar que o erro é a experimentação e que através das tentativas podemos construir diversos caminhos.

Diante disso, podemos orientar sem tolher, sem debochar, e sem exigir além do que – naquele momento – pode ser dado. Quando respeitamos o limite de uma criança automaticamente ensinamos a criança a respeitar o espaço do outro. Quando ultrapassamos o limite e exigimos além da capacidade da criança, estamos lutando contra o natural da criança naquele momento. Imagina você precisar correr mais rápido do que você consegue, e quando não conseguir apontarem como incapacidade ou preguiça? Não seria melhor se dissessem que se você treinar mais, encontrar outra forma de se alimentar, tentar mais vezes, ou, talvez, descobrir outra habilidade, que não a de correr, mas talvez encontrar um esporte, ou arte, explorar novas possibilidades. E mesmo assim, ter um abraço para chorar, um colo pra acolher, e recuperar forças pra recomeçar. Não é diferente?

Acolher e apontar o caminho certo ou um novo caminho são formas de desenvolver a autoestima e segurança das crianças. A autoestima não se desenvolve apenas através de elogios, mas a partir da confiança em si mesmo, da certeza da própria capacidade, da auto tolerância. E tudo isso é ensinado e aprendido no dia a dia, no decorrer do desenvolvimento.

Quando a criança é orientada de forma acolhedora, seu cérebro recebe a informação de maneira positiva e mais rápido a criança aprende.

Outra coisa que deve ser repensada é a estratégia de elogios. Os elogios devem condizer com a realidade, para não gerar distorção da autoimagem. Ou seja, a criança é inteligente, mas a inteligência não pode ser associada por algo que é obrigação ou por algo natural da infância, associar os elogios ao que é natural, o que já iria acontecer normalmente, faz o mesmo efeito de dizer não sem orientar. A criança não desenvolve o raciocínio sobre o conceito, sobre a importância da sua ação. Por exemplo, a criança deve ajudar a arrumar a casa por uma questão de organização, de saúde, de higiene, e não porque ela é tão boa que ajuda casa. Uma criança elogiada exageradamente, sem critérios, sente-se pressionada e insegura, pois acredita que deve estar sempre além da imagem que os adultos têm dela, e para isso, muitas vezes ela pode buscar alternativas para se livrar da frustração do erro, e a possível decepção daqueles que ela ama.

Uma criança orientada e acolhida, que compreende o funcionamento das regras e exigências sociais, encontra a disciplina, aprende a agir com autonomia, sabe pedir ajuda e ajudar os outros.

 

Raisa Pinheiro Arruda

Psicóloga (CRP 11/07646)

Fortaleza/Ce

(85) 9 9231 1452

contato@raisaarruda.com.br

 

 

Referências

Pais exigentes demais, filhos ansiosos. Peck, Morgan. Mente e Cérebro, no.278, págs. 32-35. Março, 2016.

O problema do elogio. Gil, Marisa. Super Interessante, no. 277, Abril 2010.

Raising a moral child. Grant, Adam. New York Times. 11 de Abril de 2014.

 

 

* Texto originalmente escrito para comunicado escolar, no Colégio Paulo Freire (Fortaleza/Ce), em 09/05/16