A gente se prepara pro parto, pra amamentação, organiza a chegada com enxoval e quarto, se prepara até pra volta ao trabalho, mas quão preparadas estamos para o segundo imediatamente após o bebê chegar à primeira vez no nosso colo?

Não existe preparação concreta para o pós parto, muito menos para o puerpério, mas existe uma espera mais tranquila, o conhecimento que possibilita o reconhecimento da intensidade desse momento.

O puerperio acontece nesse período dos 45 dias de ‘resguardo’, mas esse tempo cronometrado e fechado é baseado na questão física, do corpo encontrar um novo eixo, com utero no lugar e seu corpo retornar ao ciclo reprodutivo, mas emocionalmente falando não temos como medir e fechar uma data, o ritmo vai ser dado na relação da mãe e bebê, no quanto a mulher pode e tem apoio para se permitir viver esse momento psiquicamente intenso.

plasticrevolver via Visual Hunt / CC BY-SA

É um momento de reconstrução fisica após nascimento do bebê, mas também de reconstrução emocional e isso significa reviver emoções e medos escondidos no nosso intimo, alguns até esquecidos. O nome resguardo não é à toa. Nos resguardamos do mundo, para proteger a fragilidade do bebê, que nesse momento também é nossa (e necessária).

No puerpério se vive a alegria e a tristeza, o medo e a coragem, é uma passagem, o renascimento de uma nova mulher que agora é mãe. É o caos emocional, porque é a entrada no desconhecido. Há quem passe por ele sem se permitir vivê-lo com toda sua intensidade e poder de transformação, até negando, inclusive, mas não existe possibilidade de passar incólume. O puerpério é a renovação. Um mergulho no desconhecido de si mesma, de emoções e sentidos que foram negados, escondidos, e encontram nessa relação com o bebê uma forma de serem reeditados, uma abertura para reviver dores e amores, confrontar a maternagem que foi vivida com a maternagem que será construída. Adentrar no misterioso mundo dos bebês, que diz tanto sobre o interior de quem o cuida.

Ter um filho é a possibilidade de se reconstruir através do encontro consigo mesma. O puerpério é esse momento de reencontro, que acontece no encontro com o bebê, que apesar de o bebê ser uma outra pessoa, não deixa de ser parte de quem o gerou, e assim, o seu espelho.

É importante reconhecer o limite do nosso controle sobre os eventos da vida, e o puerpério nos ensina sobre isso, sobre o nosso não controle, sobre o desconhecido. Como a nova mãe irá passar por esse momento foi construído na sua história de vida, durante sua caminhada e desenvolvimento pessoal, é parte de sua personalidade, se houve ou não o desenvolvimento da habilidade e capacidade de lidar com novo, de se adaptar, de readequar, de se reconstruir diante do desconhecido, diante daquilo que não se pode prever.

Ajuda e apoio emocional para passar por essa fase é FUNDAMENTAL, pois é um momento de muita exigência física e emocional. Sem apoio e compreensão esse momento que deveria ser de autoconhecimento, de fortalecimento de laços afetivos, de resguardo, se torna um momento de muita ansiedade e angústia, e dificulta que a nova mulher, agora mãe, encontre seu novo ritmo. É preciso aprender a abrir mão e deixar fluir, abrir mão do controle do tempo, abrir mão do controle da vida. Se entregar a esse ritmo, que aos olhos de quem vive no tempo social do trabalho parece descompassado, mas é o tempo da necessidade da vida, o ritmo e o tempo do bebê. É um momento de uma entrega diferente, na qual é a mãe que se adapta ao bebê. De se despir do próprio egoísmo e individualismo, para entrar numa relação de doação onde o retorno não é palpável. É se deparar e confrontar os próprios limites e dificuldades emocionais.

É importante que toda a família esteja presente nesse momento, de estar ali para ajudar, amparar, sustentar, apoiar. A mulher nesse momento precisa estar livre de outras preocupações e demandas, pois este é um tempo necessário para que ela se ajuste às demandas do bebê, reconheça seu novo corpo, reconstrua seu novo eu.

Em qualquer momento, a mulher também pode solicitar acompanhamento psicológico, em grupo ou em psicoterapia individual. A psicoterapia não precisa ser a última opção, num momento de crise emocional ou sensibilidade exagerada, ela também funciona como prevenção em saúde, e pode auxiliar a mulher a passar por esse momento com mais segurança.

Espero que tenham gostado!

Raisa Pinheiro Arruda

Psicóloga & Psicoterapeuta (CRP 11/07646)