Eu não sei se pelo tempo que vivemos, a falta de autoconhecimento e a insegurança, além da cobrança de ter que dar conta de tudo, nos fragiliza ainda mais enquanto mães, e talvez por isso, sejamos um campo maravilhoso para a venda de teorias e técnicas das mais legais à mais absurdas… Além disso tudo, existe uma família inteira, algumas amigas sem filhos, outras com filhos, umas bem informadas, outras que preferem a desinformação, mas todas bem intencionadas e querendo ajudar, mesmo sem saber nem por onde começar.

E aí surgem vinte milhões de fórmulas sobre como educar uma criança, e vinte milhões de mulheres inseguras e desesperadas em fazer o certo.

Estamos todas no mesmo barco.

Transportation
The Penang International Dragon Boat Racing Festival, History, Where to Stay – Asia Places to See

Só que precisamos entrar num consenso sobre a direção que o barco vai tomar, porque se umas remarem pra uma direção e outras para a outra direção, não chegaremos a lugar nenhum, certo?

Então,

Como lidar com os conselhos: #01 é necessário decidir a direção! Depois que esta decisão for tomada, tudo começa a fluir, e fica mais fácil de pensar em como remar (continuando com a metáfora do barco…). #02 então chega o momento em que as teorias se chocam, e boa parte delas começam a ser descartadas, porque não vão levar ninguém ao lugar que se deseja chegar. O lugar não significa um objetivo palpável, pode ser algo como mais respeito na criação, ou algo como uma maternidade com mais leveza, menos culpa, mas com responsabilidade, pode ser uma maternidade ativista, enfim, o lugar pode ser, na verdade, vários lugares. #03 Estar de olho na direção, não se perde a coerência, o fio lógico da criação. E para isso, algo é imprescindível, que é a dica #04, AUTOCONHECIMENTO, porque as teorias vão se chocar diversas vezes, mas tem outra coisa que vai se chocar mais do que isso: nossa própria criação, nossos pais, nossas memórias, ou seja, um confronto interno permanente, não que isso seja ruim, porque esse confronto é uma alavanca para seguir em frente, com mais maturidade, segurança e saber sobre si mesma. Só assim, para manter a serenidade, no meio de todos os palpites que iremos receber pro resto da nossa vida.

Esses dias eu vi um vídeo circulando bastante duro com essa coisa do palpite e conselho, de que as pessoas se metem onde não são chamadas e tudo mais,mas se pensarmos um pouco além de nós mesmos, se pensarmos para fora do nosso individualismo, enxergamos que filhos não são criados isolados, existe influência direta ou não de todos os outros que convivem com eles, e conosco. Vivemos em sociedade. Reclamamos da falta de comunidade, e fazemos da maternidade o exagero da atividade individual e solitária, em conseqüência temos uma legião de mães sozinhas, adoecidas, tristes, que muitas vezes fogem da maternidade pelo peso que é carregar tudo sozinha, e outras se afogam na maternidade, e se perdem, inclusive de si mesmas.

A gente não precisa acatar tudo o que é dito, toda orientação, todo conselho. Recebemos conselhos a todo instante, mesmo quando não temos filhos, alguns bons que geram inúmeros arrependimentos porque não foram ouvidos, outros péssimos, e alguns nem tão bons, nem tão ruins… e a vida segue.

O problema quando se trata do universo materno é que as mães tem a sina da perfeição, e qualquer dedo que sem querer aponte para a falha é um grande problema, mas a grande verdade é que iremos falhar, em algum momento, iremos falhar, e isso não é um problema, na verdade isso é necessário para que nossos filhos cresçam. Não estou falando de errar deliberadamente naquilo que deve ser cuidado, mas que errar é inevitável, e isso vai acontecer seja pelo excesso ou pela falta, e só saberemos disso a posteriori, pois serão nossos filhos que nos dirão, até lá, paciência.

Alguns conselhos vem de quem quer ajudar, e não sabe como, mas acha que precisa. E aí é um exercício para desconstruir o que é ajuda, porque muitas vezes a ajuda não precisa ser acompanhada de conselho, mas só de outra mão na massa. E muitas vezes, também, um conselho dá outra perspectiva para a mesma situação.

O importante é que quando se sabe o que quer, onde quer chegar, e quem se é, os conselhos sem noção passam com uma boa gargalhada depois. 

Muitas vezes alguns palpites chegam pela desinformação, e eu sei que esse é pior para as mães antenadas, mas nesse momento precisamos voltar ao início de tudo. Por exemplo: a mãe com um bebê no sling na fila do supermercado (esse é clássico!), e várias pessoas comentam que o bebê está sufocado, e outras coisas que tá explicito a falta de informação sobre slings e outros carregadores de bebês. Uma pessoa que comenta uma coisa dessas, de verdade, pela falta de conhecimento, está preocupada com o bebê. Até porque todo mundo sabe que tem mãe sem noção em todo lugar, que expõe crianças à riscos desnecessários e tal, e como que uma pessoa desconhecida vai saber que você não é uma dessas? Agora, qual o fio lógico de toda a situação? Por que você usa o sling? Bem provável porque você está alinhada com as teorias de educação com respeito, que quer que a criança seja cuidada com afeto, que sabe da importância do colo, e que entende que o sling é um carregador orgonômetro, certo? O que isso quer dizer? Para termos filhos mais tolerantes, precisamos sê-lo em primeiro lugar. É necessário aprender com o desconhecimento dos outros, porque muitas vezes esse desconhecimento também é nosso. E, bom, sempre é possível fazer cara de paisagem ou, você pode simplesmente explicar o que é e porque é assim que é feito, e desta forma disseminar informação e conhecimento.

Se algo irrita ou incomoda no olhar e no dizer do outro, porque provavelmente isso diz muito sobre nós mesmos. A grande questão é por quê nos irritamos com isso ou aquilo? O que esse incômodo quer dizer na nossa história, na nossa vida, na nossa maternagem?

Fica a reflexão.