Acompanhamento psicológico durante a gestação pode ser um encontro rico da gestante com si mesma, com a própria história e possibilita a ampliação da percepção da gestante de seu atual momento, sendo também uma maneira de preparar a gestante para o parto, pós-parto e os cuidados demandados pelo bebê após o nascimento, assim como preparar a mulher para lidar com as transformações que virão por toda a vida.

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A gestação é uma fase importante na vida da mulher, e de toda a família. É um momento de transformações intensas, físicas e emocionais. Desta forma, a mulher pode ficar mais vulnerável emocionalmente, confusa e desorganizada, como também pode emergir fortalecida e amadurecida. Por isso, o acompanhamento e apoio psicológico durante a gravidez é de fundamental importância, pois as mudanças acontecem num espaço de tempo relativamente curto, e não ocorrem de maneira linear.

O programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento instituído pelo Ministério da Saúde com a Portaria/GM n. 569, de 01 de junho de 2000  surge partir dessa preocupação crescente na atenção à gestante e à primeira infância. A portaria é baseada nas análises das necessidades das gestantes, atenção ao recém-nascido e puérperas. É uma forma de trabalhar na diminuição das altas taxas morbimortalidade materna e perinatal; também é uma medida que assegure a melhoria “do acesso, da cobertura e da qualidade do acompanhamento pré-natal, da assistência ao parto, puerpério e neonatal; e ampliar as ações já adotadas pelo Ministério da Saúde na área de atenção à gestante” (TORREZAN, 2013).

A maternidade é um novo caminho na vida da mulher, e de toda família, após a descoberta da gestação, a vida da família passará por constantes transformações. Estar consciente sobre as transformações que irão acontecer após a descoberta da gestação, facilita percorrer o caminho com mais leveza, não sem conflitos, pois estes são necessários para amadurecimento, mas os conflitos passam a ser vividos de outra maneira, com mais consciência.

Durante a gestação a mãe (e o pai também!) regressa a sentimentos da sua vida intra-uterina; pode deparar-se com um momento de crise de identidade que a deixa mais sensível; seu corpo como um todo se modifica (SOIFER,1980 apud FREITAS, 2004). O corpo da mulher se transforma, peso, volume, eixo gravitacional (a postura da mulher muda para conseguir adaptar o peso, o tamanho da barriga, e seu próprio corpo em equilíbrio). Somado à isso, a gestação é um momento que se inicia a formação da personalidade do bebê, e a criação do vínculo mãe-bebê (que deveria ser extenso ao vínculo bebê-família).

” No período pré-natal, existe, por um lado, vida mental no feto e, por outro, registros ou inscrições de suas experiências pré-natais, tanto traumáticas como não traumáticas. A presença dessas inscrições é uma prova da existência de uma vida psíquica pré-natal. Sabe-se que as capacidades do bebê começam a se desenvolver muito antes de nascer. Pesquisadores concordam que o feto é um ser inteligente, sensível, apresenta traços de personalidade, tem vida afetiva e emocional com sua mãe no pré-natal. O feto percebe luz e som, é capaz de engolir, ter paladar, escolher uma posição confortável, registrar sensações e mensagens sensoriais. O feto apresenta reações a determinadas situações, com respostas de medo, pânico e choque. Por exemplo, quando a grávida encontra-se em estado de estresse crônico, há aceleração dos batimentos cardíacos e verifica-se, por meio do exame amniocentese, que o feto altera sua atividade respiratória. Portanto, observa-se uma relação mãe-feto muito intensa, em que alterações nas atividades mentais, físicas e químicas da mulher grávida provocam mudanças na vida intrauterina.” (TORREZAN, 2013)

Por todas estas mudanças é importante que a mulher esteja consciente e ativa diante de todas as transformações, e possa perceber as transformações que ocorrem no seu íntimo para que elas não sejam desdobradas em medo, ansiedade, angústia ou frustração.

“É necessário que ela deixe de ser apenas passiva na gravidez – como quando vai ao médico e recebe orientações sem questionar – tornando-se mais ativa, ou seja, apta a modificar suas posturas, atitudes e o ambiente em que vive em virtude de uma melhor qualidade de vida do seu bebê, dela própria e de sua família.” (FREITAS, 2004).

Quanto mais informada, mais empoderada a mulher estará para ser agente ativa durante a gestação, e para o exercício da maternidade com segurança e equilíbrio emocional.A gestante bem acompanhada, e informada, pode evitar intercorrências desnecessárias e desagradáveis durante a gestação e o parto, que muitas vezes causam sofrimento posterior, como por exemplo ser exposta à violência obstétrica.

Podemos pensar a gestação como um momento de expansão da mulher, todo o seu organismo está em expansão. E todas as mudanças favorecem o contato com várias emocionais distintas, desde o medo à alegria, existe também uma regressão psíquica neste momento, pois para que a mulher encontre em si habilidade de maternar, ela irá se identificar com o bebê, se identificando com toda sua fragilidade e necessidade de cuidado; a regressão se dá por essa identificação que irá movimentar memórias de sua própria infância, dos cuidados maternos dados à ela, da relação com seus pais e cuidadores.

A psicoterapia possibilita à mulher grávida maior consciência das transformações internas pelas quais ela passa durante esse momento, auxiliando na percepção das alterações emocionais, e, inclusive corporais, que aconteçam,  e desta forma, ela pode agir diante das situações que se apresentarem, controlando a ansiedade, gerenciando tensões, lidando com as oscilações emocionais com maior consciência e compreensão.

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Intervir com apoio e acompanhamento psicológico à família, através do trabalho com a gestante, interfere-se na sociedade como um todo, pois possibilita que o ser em formação tenha um desenvolvimento saudável, e isso irá refletir nas suas relações e ligações sociais. Atualmente já se sabe que o estresse durante a gestação, amamentação e puerpério incide diretamente no surgimento de características psicopatológicas, como boderline, por exemplo. O trabalho de atenção à gestante e à família é também um trabalho de promoção e prevenção em saúde.

O trabalho com a gestante atua na promoção de equilíbrio, buscando o bem-estar emocional, para que ela encontre no meio de toda a turbulência provocada pelas transformações um novo eixo.  As alterações sofridas pela gestante provocam boa parte das reações negativas da gestante, pois mesmo quando a gestação é bastante desejada, existe um conflito gerado pelo medo das mudanças.

A psicoterapia é um processo gradual, que viabiliza saúde emocional, o trabalho com a gestante tem o enfoque na passagem para a maternidade, possibilitando que a mãe encontre dentro de si mesma e de sua própria história novas maneiras de lidar com todas as mudanças, assimilando as novas características, fazendo as pazes com a própria infância, para que a gestação não seja apenas um momento cheio de conflitos, mas que os conflitos sejam aberturas para transformação, para o encontro de um caminho saudável, equilibrado e amadurecedor. E não é só um espaço para a mãe, mas é importante que o pai também busque esse apoio, para autoconhecimento, para que sua passagem para paternidade também seja para encontrar equilibrio e bem-estar, e que as mudanças sejam para amadurecimento e reconhecimento do seu novo lugar diante da vida.

O espaço terapêutico é onde a gestante poderá falar de suas angústias e medos, certezas, ambivalências, duvidas e angústias, que diante da escuta especializada do psicólogo serão realizados apontamentos, questionamentos, e reflexões será geradas para que o conteúdo psíquico seja vivenciado e elaborado, desta forma, os sintomas, a angústias, as rejeições aparecem para que sejam compreendidos, desvelados e ressignificados, a partir do contar e recontar da própria historia.

E quando é necessário buscar psicoterapia? Não existe o momento certo ou exato para buscar psicoterapia, o comum é buscar quando surgem os sintomas! Ou seja, incômodos prolongados, pertinentes, repetitivos, que se repetem e dificultam as relações sociais, e a percepção de si mesma, ou dificultam encontrar bem-estar. Muitas vezes são sintomas que são caracterizados como próprios deste momento, pois existe ainda uma cultura na nossa sociedade de não levar à sério determinados aspectos da vida emocional, principalmente na gestação, quando a mulher está mais sensível e fragilizada.

Mas é possível buscar psicoterapia quando esses incômodos ainda não são repetitivos e intensos. Não é necessário esperar o próprio limite para buscar psicoterapia, pois o acompanhamento em psicoterapia possibilita maior autoconhecimento, que se desdobra em autoestima, segurança, autenticidade, e bem estar consigo mesma.

 

Referências

Torrezan E. A., Gestação e Preparo para o Parto. Mundo da Saúde, São Paulo, 2013, 7(2):208-215

FREITAS, F. T. Psicoterapia focal para gestantes – uma abordagem na perspectiva da vegetoterapia caracteroanalítica. In: CONVENÇÃO BRASIL LATINO AMÉRICA, CONGRESSO BRASILEIRO E ENCONTRO PARANAENSE DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS. 1., 4., 9., Foz do Iguaçu. Anais… Centro Reichiano, 2004. CD-ROM. [ISBN – 85- 87691-12-0]

OLIVEIRA, N. R, CHABRAWI, Arij M.R. O., BERTOLDI, Lilian, CAZETTA, S. C., SHEINKMAN, Daniela. Pré-natal: Uma reflexão necessária à experiência. In: http://www.fundamentalpsychopathology.org/uploads/files/ii_congresso_internacional/posters/ii_con._pre_natal_pst.pdf