Esses dias uma pessoa compartilhou uma postagem no facebook da psicóloga maravilhosa, Flávia Melissa, flavia melissa alimentaãoque também é mãe de primeira viagem, sobre alimentação do bebê. (na imagem ao lado)

Esse pequeno post me tocou bastante, porque tenho ouvido constantemente, entre um assunto e outro, entre um drama, e uma alegria, entre uma conquista e uma dificuldade, algo sobre alimentação. A alimentação chega junto da ansiedade, da dificuldade de dizer não, chega junto da dificuldade de escolher, de uma tendência de escolher aquilo que não é tão bom, a alimentação chega junto da inabilidade de escolher não aceitar algo, junto de milhares de outros assuntos, de episódios corriqueiros do dia a dia, de detalhes. Eu vinha pensando sobre isso, mas como oscilo bastante na minha escrita espontânea, acabo perdendo muita coisa que penso e não escrevo (meta 2016 atualizada, hein? Escrever sobre esses pensamentos para não perdê-los mais!), deixei pra lá. Mas ao encontrar essa imagem, eu voltei a pensar em tudo o que vinha pensando sobre isso…

A introdução alimentar não é um ato isolado, nada na nossa vida é isolado, nenhum comportamento brota do nada, é construído durante nosso caminhar, com a nossa história.

Alimentação é vida, porque é peça fundamental para nos mantermos saudáveis, e mais do que isso, vivos. Não nos alimentamos apenas de comida, a alimentação é muito mais ampla, pois nos alimentamos de amor, de afeto, de histórias, de curiosidade, é o que nos faz crescer. A relação com a comida é muito mais complexa, está embricada com nossa relação com a vida.Captura de Tela (1)

Observar uma criança na sua descoberta dos alimentos, diz muito sobre ela, diz muito sobre a infância, ela vai não vai apenas mastigar e engolir o alimento, ela vai manusear, ela observar, ela vai sentir textura, cheiro, sabor, e vai decidir de agrada ou não, se quer provar ou não. E dependendo de como for apresentado, sua decisão vai ser influenciada por aqueles que ela confia, e observa atentamente a reação diante da comida, e do alimentar-se.

A alimentação diz respeito ao que engolimos, ao que aceitamos colocar para dentro do nosso corpo, assim como os alimentos podem nos fazer bem e crescer, podem nos fazer mal e adoecer, também são as emoções, as informações, o que aceitamos e engolimos da vida. E podemos viver engolindo tudo sem saborear, sem mastigar, sem opção de escolher, ou podemos engolir aquilo que nos agrada, que nos faz bem (mesmo que não agrade tanto, como um remédio ou um chá, né?), podemos aguardar antes de colocar na boca, podemos saborear, podemos sentir.

Ensinar uma criança a escolher seus alimentos, respeitar o tempo da criança em aceitar ou não, respeitar o não de uma criança, permitir que a criança analise, observe, brinque, e conheça aquilo que ela vai mastigar e engolir, permitir que ela tenha seu tempo de mastigar, saborear e sentir, ensina muito mais do que comer bem.

Viemos de uma educação tradicional, que parte do princípio que a criança não tem dignidade, e por isso não precisa ser respeitada. Uma pessoa sem dignidade não tem autonomia, não tem independência e não aprende a escolher o que gosta, pois não tem direito de gostar ou desgostar de nada. Ela é obrigada a romper seus limites de proteção, e obrigada a engolir, goela abaixo, o que impuserem a ela. Cresce acreditando que tem que aceitar tudo o que dão, mesmo que não seja bom. Acredita que precisa daquilo, que precisa aceitar, que não pode deixar de lado, não pode desistir no meio do caminho e mudar de direção. E a imposição violenta, porque é uma violência obrigar alguém à algo, é o que existe, é um modelo. E quando se cresce num modelo de violência, obrigação e desrespeito?

No encontro Alimenta e Amamenta, foi debatido sobre a participação da família nessa introdução alimentar, como é difícil levar para a família a ideia de alimentação participativa da criança, onde ela tem uma liberdade dentro dos devidos limites para descobrir e desbravar. Comentaram que a família não aceita que a criança decida como comer e o que comer, muitas vezes a família se acha inútil diante desse momento. Conversamos também sobre as questões culturais que cercam esse comportamento de educação disciplinadora e normativa, e que é preciso ter paciência para desconstruir um padrão de imposição e autoritarismo, para uma figura com autoridade, baseada no respeito, admiração e amor. Muitas vezes a dificuldade de viver uma educação horizontalizada é o medo de perder autoridade, mas precisa-se ter em mente que autoridade e autoritarismo não são sinônimos, e obediência às regas pode ser resultado do medo ou de uma reflexão orientada sobre elas.