Quando engravidamos a primeira coisa que imaginamos é o rostinho do bebê, com quem ele vai parecer, vamos no ultra tentando desvendar cada traço, nos apaixonamos pelos detalhes, e sonhamos com a beleza em seu estado mais puro: a delicadeza do bebê.

Quando o bebê chuta, se mexe, dança, soluça, comparamos com o pai, com a avó, com o avô, com um tio ou tia, com nós mesmas. Esperamos que o bebê tenha temperamento x, igual ao pai, temperamento y, igual à mãe. Idealizamos que em tal situação, ele vai agir de tal forma, como quando nós éramos crianças. Lembramos das nossas brincadeiras favoritas e sonhamos com nossos bebês rindo, se divertindo, como quando nós éramos crianças.

Nossos bebês nos resgatam. Para não dizer que os bebês tem o poder de nos salvar, digo que eles nos resgatam, mas só é resgatado quem precisa ou quem quer.

E o que nossos filhos resgatam?

Bom, acreditamos que maturidade é sinônimo de seriedade, e seriedade é quase a mesma coisa que “sem-prazer”, como se para que alguma coisa seja séria, ela não possa ser alegre, divertida ou prazerosa. Olhamos com preconceito para quem trabalha com arte, quem trabalha com diversão, quem trabalha com crianças. Quantas vezes não perguntamos (ou não ouvimos) “sim, mas além disso, você trabalha com o quê?” ? Quantas vezes não ouvimos que uma pessoa que trabalha com isso ou aquilo não sabe o que é trabalho, desdenhamos, porque trabalho sério é sofrimento, é penoso, é árduo. Inclusive, Marx, até diz, que o trabalhador foge do trabalho como o diabo foge da cruz, não é por nada não, mas é porque o trabalho é duro, para ser digno, deve ser pesado. As conversas sempre começam com um “o dia foi pesado hoje”, e a resposta sempre começa com um “ah! mas isso não foi nada, o meu foi mais…”, e competimos pelo trabalho mais pesado, porque quanto mais duro, mais sério, mais importante. E nos afogamos num peso nos ombros, nas costas, nos lábios. Nos arrastamos, e não nos permitimos ter prazer. Quem gargalha no trabalho não está trabalhando, quem sorri demais, enrola.

É disso que nossos filhos nos resgatam.

Olhamos para eles com ternura, e com inveja. Eles riem, eles gargalham, eles se divertem, eles brincam. Eles não sabem o que é a vida, vivem o tempo bom, mas olhando bem, analisando bem, talvez eles saibam muito mais do que nós achamos que sabemos.

Quando crescemos, buscamos o tempo todo qualidade de vida no trabalho, leveza, resgate de autoestima, confiança, achamos o máximo empresas como o Google que mais parecem um parque de diversões, mas achamos absurdo que as crianças queiram brincar o tempo todo, e esquecemos que as brincadeiras são estruturantes. A brincadeira não é vazia, nunca (!),  ela é sempre aprendizado.

É isso que nossos filhos resgatam.

Se estivermos dispostos, se não estivermos afogados demais, nervosos e ansiosos demais, conseguimos subir nesse pedacinho de madeira, que vira um barco ou um submarino, que vira um avião, que vira um universo de possibilidades… Se estivermos dispostos, e olharmos bem nos olhos deles quando eles falam, enxergaremos aquilo que tanto imaginávamos enquanto eles estavam dentro: enxergaremos a nós mesmos. E quando conseguimos enxergar, no espelho do olhar de nossas crianças, as crianças que nós fomos, encontramos um universo que se perdeu em nome de uma seriedade que nos mata. Encontramos sonhos, encontramos alegria, encontramos outros caminhos, encontramos o riso, a gargalhada, a leveza. Entendemos que o que é importante, é sério, e que isso não precisa ser penoso, o que é importante nos faz rir, nos faz levitar. E quando nos tira a paciência, podemos começar tudo de novo, de outra maneira.

É isso que as crianças resgatam.

Somos resgatados para ir além. Somos resgatados para sermos inteiros e presentes.

E não, isso não significa que ser guiado pela curiosidade de uma criança é deixar ao léu, não educar, não ensinar, não dar limites… Mas isso é outra coisa, e fica para outro texto!

Um beijo grande.

Raisa