Em outro post eu falei sobre a importância de observar nossos filhos, e como podemos ser resgatados por eles, de ter um olhar ampliada, sensibilidade renovada, voltar a saborear o lado bom da vida, os detalhes e sutilezas, do encanto. Se você não leu, pode ler bem aqui ó: Nossos filhos nos resgatam de nós mesmos!

Muitas vezes, quando lemos algum texto que fala do lado poético da maternidade, já fechamos logo a cara, e pensamos: “aham! Quero ver na hora da birra, na hora do banho, na hora da comidinha, essa poesia toda!”, já pensamos que quem escreveu esse texto tá pitando uma maternidade irreal, impossível, impondo um modelo de mãe perfeita, já pensamos logo “aham! mãe perfeitona das galáxias!’… E deixamos de escutar nosso próprio eu, gritando, suplicando, por um momento, para vivermos a poesia da vida. Deixamos de dar espaço para refletir sobre nosso dia a dia, e quantas vezes abrimos mão da leveza, para sustentar o peso – que nem sempre nos cabe. Não vou ser também “caxias” e jogar a culpa toda em cada uma das famílias, porque não é bem assim, é uma coisa muito maior, e que ao mesmo tempo que somos nós, está acima, pairando sobre nossas cabeças e regendo nosso comportamento, é uma questão cultural. Mas veja só, a cultura é uma construção social, que pode ser desconstruída, fazemos isso desde sempre, senão os costumes seriam sempre os mesmos, certo? Para tanto, precisamos de uma pausa, todos os dias, para refletir, questionar, olhar para dentro, e transformar.

Porque toda essa introdução pra falar de educação?

Muitas vezes encontro mães e pais no meu caminho que trazem no cerne de suas questões sobre criação a educação: como é difícil educar, como é difícil dizer não, como é difícil ensinar. Depois que a escola passou a ser sinônimo de educação, a educação esvaziou-se em seu sentido maior, e passou a ser vista como escolarização, transmissão de conteúdos, desta forma, quando pensamos em “educar”, associamos aqueles momentos pontuais em que ensinamos algo, explicamos algo, damos uma informação e um conteúdo para uma criança ou adulto. Bom, a coisa não acontece bem desse jeito. Educar não é um instante, mas uma constante. Educamos o TEMPO INTEIRO. Não só quando falamos sobre algo, explicamos uma questão, mas quando não falamos e não explicamos também. O problema é que na maioria das vezes que não falamos e não explicamos, nem nos damos conta do que é transmitido para quem nos observa atentamente. Não se engane, as crianças nos observam atentamente, pois elas são novas nesse mundo, elas ainda estão entendendo como as coisas funcionam (pelo menos minimamente), elas querem fazer parte desse universo que estamos inseridos, e para isso, nada melhor do que imitar aos que já estão nele a mais tempo! É isso que as crianças fazem, observam e imitam.

Ter filho é complicado, porque precisamos estar conscientes de nós mesmos. Não cabe aqui a história do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, as crianças vão ouvir e assistir ao seu comportamento, e vão fazer o que elas assistem, porque faz mais sentido. Como que elas vão fazer aquilo que é dito, se o que é dito é uma mentira? Entende? Nos matamos para ensinar as crianças a não mentir, mas mentimos para elas o tempo todo. Elas não nascem com a mentira, elas nascem com a verdade, porque elas são o que são, elas são o que elas enxergam e vivem. As crianças são esponjas e espelhos, tudo absorvem e tudo refletem.

Precisamos parar com essa mania de acreditar que educação é o momento do não, quando escolhemos não dizer, também estamos educando. É impossível dar conta do alcance que a educação tem na vida de uma criança, porque estamos educando o tempo inteiro. A educação são os costumes, são os modos como nos relacionamos, são os hábitos.

Ao falar que nossos filhos nos resgatam, quis dizer exatamente isso, porque eles refletem nossa própria educação, e isso nos dá uma porta aberta para um reencontro com nós mesmos, para a possibilidade de nos reinventarmos, e nos re-educarmos. A mudança não vai acontecer na criança, ela reproduz. Precisamos mudar nossos hábitos, costumes, maneiras, precisamos nos educar novamente, para que elas se tornem agentes de transformação desta realidade.

Então, se existem alguns comportamentos que você acredita que precisa “consertar” nos seu filho, primeiro é necessário pensar algumas coisas, antes de agir, antes de gritar, de castigar, de punir, que por sinal, são todos os métodos que aprendemos, e que são inúteis. (Ou seu filho deixa de fazer aquele comportamento que você tanto recrimina porque você gritou, castigou, puniu, bateu? Sejamos sincero, ele não mudou, e nenhum dos dois estão felizes!)

  1. Observe a criança. Observe os momentos em que ela se descontrola, que ela grita, morde, quando que ela mais pede coisas e que tipo de coisas ela pede em cada situação (coisas impossíveis, caras, baratas, bobas, que ela já tem, etc.) OBSERVE. E pergunte como ela fica quando você não está presente. Se possível, chegue mais cedo em casa, se ela é cuidada por outra pessoa, para observar esse cuidado e essa relação.
  2. Observe a si mesmo. Quando você se descontrola, o que você faz? Quando você grita? Quando você mente? Quando você chora? Seja honesta nessa observação, não se julgue e se perdoe. Lembre-se disso sempre: não se julgue, e se perdoe. Ao se julgar, automaticamente você repele os pensamentos que virão através da auto-observação, porque pior do que ser julgada pelos outros, é o auto-julgamento. Perceber que não estamos perto daquilo que desejaríamos ser é muito doloroso.
  3. Rememore. Lembre quando você era criança, o que você queria que acontecesse e o que de fato aconteceu? O que você mais desejava quando olhava para sua mãe ou seu pai? Mais uma vez, tente não julgar, e perdoe. Ao pensar sobre isso, você está tendo uma possibilidade que, talvez, eles não tiveram, de refletir sobre si mesmo. Faça esse exercício constantemente. Rememore e pense sobre o que você quer levar adiante.
  4. Exercite a escuta após a observação. Compare situações, o que está por detrás delas? Quando você está com seu filho, você de fato está com ele? Quantas vezes você contou uma história, brincou, almoçou junto? Quantas vezes ouviu sobre o dia dele e contou como foi seu dia? Em algum momento perguntou como seu filho estava se sentido, o que ele queria de verdade, o que eles estava pensando, qual a opinião dele sobre uma situação e ouviu, de verdade, considerando o mundo da criança?
  5. Aja. Mas antes de agir, lembre do que observou na criança, em casa, e em você. Aja com o que faz sentido, com o que trás paz. Não se consegue paz, gerando guerra. Não se consegue alcançar uma criança através do estresse. Não se consegue mudança, sem mudar.
  6. Repita tudo de novo, sempre que necessário.

Lembre-se, SEMPRE, a criança está entrando nesse mundo que os adultos já fazem parte há tempos, o que ela conhece é o que foi apresentado à ela, e muito disso foi apresentado pelos adultos que cuidam dela. Faça parte do mundo de seu filho, e mais do que tudo isso, brinque. Brinque sempre. A brincadeira só tem uma regra simples e primordial: o respeito. Respeitando a vez e a voz do outro, ela é livre, e nessa liberdade ao brincar, a criança vai te levar ao universo dela, e você vai enxergar com clareza como seu filho tem enxergado o mundo, como o mundo tem sido apresentado à ele.

Espero que tenha gostado!

Beijo grande.

Raisa