Um presente de

Ontem à noite, voltamos cedo pra casa, e na volta, passamos pelas ruas que fazem parte dos meus caminhos desde meus 10 anos. E ontem, eu vi cenas que há muito não via, vi pessoas nas calçadas e casas de portas abertas. Ontem, meu pai contou que na infância dele as casas do centro começavam na porta e que elas estavam sempre abertas, que a casa da minha mãe era um entra e sai de gente, maior folia, e que todo mundo vivia na rua. Quando eu era pequena, de alguma forma vivi um pouco disso na casa das minhas avós. Uma no centro, outra na Messejana. A gente vivia a rua. Eu e minha prima saíamos da Floriano Peixoto e íamos explorar as ruas vizinhas, eu e meus primos pegávamos as bicicletas e andávamos até um ferro velho, eu tinha medo, claro, mas a gente ia. E ontem à noite, aquelas pessoas nas calçadas de portas abertas, me trouxe uma memória viva de como a cidade era feliz quando as pessoas viviam as ruas. E aí fiquei pensando, que inauguraram agora uma praça perto lá de casa, com um parquinho, e o tempo que ficamos lá, brotava criança de todo lado, e a gente não via de onde elas vinham, mas 16h as crianças surgiam, corriam, pedalavam, escorregavam, balançavam. A vida tem mais vida na rua. E estamos todos presos nos nossos apartamentos. Uma mãe na pracinha me disse que no prédio tem tudo, mas que a praça é sempre a praça…. Imagina que doideira, se a cidade tivesse mais e mais praças amigas da criança, tivesse mais casas de portas abertas, mais quadras, mais banquinhos,mangueiras e cajueiros! Aí gente, vou nem comentar das mangueiras que a praça nova tem! Minha vontade de pegar muda de tudo que é jeito é entupir a praça de árvore de fruta… A cidade. A vida. Meu desejo de ano novo, é o mesmo há muito tempo: calçadas planas e acessíveis, praças, árvores, portas abertas e pessoas nas calçadas. Sem criança pedindo nada, mas cheio de criança brincando. Depois da escola, no final da tarde, no começo da noite. De todo canto, com pipoca e gargalhada. Porque nas praças, a gente vive um pouco no Natal, sabe? Criança não vê diferença, criança faz amizade, criança divide, criança de abraça, criança cuida e ensina, se nenhum adulto atrapalhar, é claro, porque já vi adulto pegar o filho pelo braço quando vê outra criança com intenção de brincar e conhecer… Um feliz natal pra vocês, e eu fico com meu natal de esperança renovada, ontem não tivemos presente, mas tivemos as duas famílias reunidas, tivemos a bisavó que há anos não víamos no Natal, nem data nenhuma, tivemos gargalhadas e um pequeno feliz. Tivemos jantar feito pelo marido, mãe e sogra. Tivemos amor e muita alegria. Nem a irmã mais nova que se esconde na caverna do quarto ficou fora, tivemos brownie com muito chocolate.  Ontem nós fizemos o presente: uma boa memória.