• BUDAPEST • (1)

Olha, se uma coisa mãe tem vantagem é que mãe não precisa de faculdade pra ser mãe, o fato é que se é mãe, simplesmente, porque se teve um filho, e pronto. Mas depois que a gente tem filho, parece também que isso é uma porta aberta pra quem quiser entrar na nossa vida, mas não é. Orientação é legal, porque a gente não sabe de tudo, porque a gente vive num mundo atropelado, com um tempo inexistente, e aí, a gente acaba se ocupando das teorias, porque se distancia da pele, dos sentidos, do sentimento. O problema é que toda teoria converge mais ou menos pro mesmo ponto: ouça e observe, viva sua relação, e esteja sempre atenta ao afeto, o quanto se demonstra amor, o quanto se confia, o quanto se está presente, mas é presente mesmo, e não sentado no sofá no whatsapp e a criança feito barata tonta pela casa. Espere antes de brigar, observe, entenda o percurso e raciocínio da criança, ela precisa errar para aprender, assim como nós erramos todos os dias e nem sempre aprendemos, e muito mais do que isso, aprenda com seu filho, ele vai ser o maior professor sobre parentalidade, só com um filho é possível aprender a ser pais, então, quem melhor do que ele pra ensinar… Pois é, é um resumão, mas é bem isso, a gente aponta pro amor, pro afeto, pro investimento afetivo, para as expectativas positivas.

E deveria ser simples, mas não é. Porque a gente vive num mundo que diz que é besteira a gestante precisar dormir mais, precisar de mais tempo para descansar, diminuir o ritmo, diz que gravidez não é doença. Gerar uma vida, dentro de outra, não é doença, mas cansa pra caralho. Dar conta da vida, estando grávida, não nos dá mérito, só mostra como somos alvos de um sistema injusto e que não tem muita preocupação com os bebês, nem com o futuro. Esse tempo que a gente sente que precisa, e se culpa por precisar, é imprescindível, porque é um tempo de aprender o ritmo, aprender a dança. Não que a gente precise parar de trabalhar ou fazer o que gosta ou é necessário, mas há de se ter um tempo de qualidade para si, aquele tempo que a gente reivindica nas relações, sabe? Aquele tempo que a gente cobra da melhor amiga pra um café, do namorado, noivo, esposo para um jantar, uma conversa, um cinema, sabe aquele tempo que a gente precisa para estreitar os laços, e se sentir amada? Pois é, o bebê precisa dele, nós precisamos dele. Precisamos para nos reconhecer num novo corpo, para sentir a dança suave (ou não) de um bebê que é estimulado pela nossa vida frenética aqui fora. Precisamos para nos conectar, nos reconectar. É nesse tempo que a gente aprende, que a gente constrói. Não vai ser depois. Ser mãe não é de imediato, e não viver essa construção, a cada semana, a cada mês, quando a gente tá ali com um bebê no colo, e ele começa a chorar, desesperado, a gente esquece que tem todas as ferramentas (salvo se não for caso de doença, viu?) para acalmar um bebê: a gente tem pele, tem corpo, tem voz, tem embalo, tem ritmo, tem história, cheiro, tem afeto, tem leite. Mas como a gente vai aprender tudo isso, se não teve tempo de experimentar, de perceber o que agita ou o que acalma?

Eu cresci ouvindo que só tem futuro quem tem presente, e ao mesmo tempo, de outros lugares, ouvi muito “eu vejo a vida melhor no futuro…”, e que “amanhã vai ser outro dia…”, e que “dias melhores virão…”, e outras músicas ou jargões populares que depositam no amanhã a resposta para um desconhecimento, uma dor, um sofrimento de agora. O futuro não existe, não existe porque é sempre uma possibilidade, e uma possibilidade de algo que aconteceu hoje e terá um resultado depois. Logo, precisamos cuidar de agora, para que o logo depois, o depois, o amanhã sejam melhores. E acho que a gente leva essa fantasia de que amanhã vai ser melhor pra tudo na vida, que a gente resolve depois, que no futuro se dá um jeito. E parece que se tem feito a mesma coisa com os filhos, com o cuidado, com o afeto. Amanhã eu aprendo. Amanhã eu vivo. Amanhã eu amo. Amanhã eu agradeço. Hoje não. Hoje não tenho tempo. Hoje não dá.

A infância, principalmente nos primeiros anos de vida, é da ordem da urgência, do agora. A criança não tem passado. E o futuro não existe, ela é agora. Ela precisa agora. Tudo da ordem da necessidade, porque pra ela não tem amanhã, não tem depois. Ela vai aprender. Com o tempo. Quando construir memória. Ela vai entender que existe um antes e um depois. Que existe uma causa e uma conseqüência. Quando ela entender a causa e a conseqüência, ela vai entender o tempo, quando ela lembrar de ontem, ela entende que tem um amanhã, que é o dia depois de hoje, porque o hoje vai ser ontem, e o amanhã vai ser um hoje… Mas isso demanda tempo, até lá, ela só existe no agora. Ela vive a cada hora, cada momento. Isso é lindo. E a gente perde essa capacidade de ser feliz agora, a gente perde a capacidade de precisar fazer o melhor agora, porque é só agora que se tem, com a ilusão de que amanhã vai dar tempo de consertar ou de viver. 

É preciso parar e ouvir as crianças, parar e observar as crianças, não para estudá-las, não para compreendê-las e explicá-las, mas para aprender. Aprendê-las.

Aprender com as crianças é aprender sobre nós mesmos. O tempo inteiro

Para aprender sobre maternar é preciso ouvir as crianças, enxergá-las, estar presente. E nesse movimento encontrar a si mesma, enquanto mãe. Porque olhar para uma criança é um espelho para a própria alma, para a criança escondida dentro da gente. E quando a criança escondida, se vê na criança de fora, elas encontram um ritmo. Não sem conflito, não sem tropeço, não sem medo, mas honesto, com clareza, com compreensão, com identificação, com empatia. Não existe relação quando não nos identificamos com o outro, seja pelo o que falta, seja pelo o que temos em comum – inclusive a falta.

É necessário tempo. Tempo presente, não amanhã. Não no futuro. As coisas só serão sempre melhores no futuro, se forem cuidadas com atenção agora, senão, não brota, não vinga, não vive.