Essa semana fui na escola do Hugo pegar suas atividades e o relatório escolar sobre seu desenvolvimento que é rotina da Educação Infantil, como já falei aqui, sou apaixonada pela escola dele, então, não poderia ficar menos feliz com o relatório e as atividades. Feliz porque um relatório bem escrito, detalhado, que você percebe o cuidado e atenção da professora na escrita, passa segurança, então, mais uma vez, a escola me deu certeza de que foi uma boa escolha; e por outro lado, muito feliz, porque o relatório confirma muita coisa que eu e Rodrigo já conversamos aqui em casa sobre as direções que tomamos em relação à criação e educação do Hugo. Mas eu não vou falar do desempenho escolar do Hugo e nem rasgar mais seda ainda pra escola, eu poderia passar horas falando o quanto eu sou apaixonada pela escola e morro de amores pela professora dele, que pra minha tristeza não vai ser a mesma, e eu sei que se a turma for a mesma, a adaptação na próxima série é mais fácil, e que quem se apega à professor na educação infantil somos nós, os pais. Porque a criança vai continuar vendo a professora todos os dias, a gente é que tem dificuldade de permitir que outra pessoa cuide dos nossos filhos, e esse exercício de compartilhar a responsabilidade de cuidado todo ano com uma pessoa nova não é fácil. E esse foi um dos pontos que aprendi nesse um ano de escola… Com a escola a gente aprende a dividir a responsabilidade, fica muito claro qual o nosso papel, até onde conseguimos alcançar, e que existe uma rede (que deve/ria ser de apoio) para auxiliar naquilo que não alcançamos.

Eu amo escola, sempre amei o ambiente escolar, e por isso sempre gostei de trabalhar na área, e quando Hugo nasceu, minha visão crítica ficou muito mais apurada, até porque minhas experiências já definiram que tipo de escola particular Hugo nunca estudaria, pelo menos enquanto eu pudesse adiar, e, nas poucas que restaram, os detalhes me saltam os olhos. Junto à isso, eu comecei a fazer parte de grupos virtuais e ler muitos outros blogs maternos de mães com ideologias parecidas com as minhas, e eu comecei a ver milhares de questões sobre educação e sobre escolas que parecia que seria impossível encontrar uma escola decente. E na verdade, parece mesmo, porque incoerência é o que impera entre o discurso e a prática pedagógica. E por conta disso, o que a gente vê é uma certa demonização da escola. Principalmente pra quem tem muitos critérios rigorosos sobre educação de qualidade e não aceita qualquer coisa. Eu aceito, por exemplo, uma estrutura que não seja hollywoodiana, como algumas escolas “top’s” daqui possuem, porque minha preocupação é com metodologia e afeto. De nada adianta uma estrutura de cinema, se as crianças ficam dentro de sala a maior parte do tempo, e o tempo fora é cronometrado, e não se trabalha dialogando com outros saberes sobre infância – principalmente sobre desenvolvimento infantil que possibilita a adequação metodológica à forma como a criança aprende. Mas eu não aceito: leite condensado na sala de frutas, eu não aceito refrigerante, suco de caixa, biscoito recheado, doce/chocolate, comida industrializada, criança trancada na sala, criança obrigada a ficar sentada, televisão como educador, galinha pintadinha como auxiliar de sala, alfabetização precoce, desrespeito ao ritmo da criança, cantinho da “reflexão” (novo sinônimo para castigo), incoerência metodológica, e professores sem afeto e/ou paciência.

Então, eu aprendi que a escolha da escola deve ser feita de acordo com o que você de fato deseja para seu filho enquanto estudante, porque sabemos que há diferença gritante em que tipo de aluno as metodologias formam, e como esses alunos vão se posicionar diante dos problemas: de forma crítica ou passiva. E gente, aprender a resolver logicamente uma questão da tarefa de sala/casa não está ensinando a resolver só aquele tema, mas exercitando o pensamento, para que a criança adquira habilidade de resolver problemas na vida. O raciocínio só existe quando estimulado, uma transmissão de conteúdo autoritária, com crianças absorvendo de forma passiva, não exercita conteúdo, forma papagaio de pirata. As teorias de aprendizagem convergem para esse lugar comum: se aprende através da ação, do erro, da construção e da experiência. Isso eu já sabia teoricamente, mas conviver com muitas mães, e passar pela experiência, é uma maneira de validar ou não aquele saber, ou de pelo menos questioná-lo.

Aprendi também que quando você encontra “a” escola, ela funciona como uma rede apoio muito forte, principalmente quando as funções de cada um (familia-escola) na vida da criança, qual a responsabilidade que cabe à cada um e qual o papel que cada um exerce são claros. E que uma escola que seja parceira da família abre espaço para sugestões, e se permite transformar e atualizar a metodologia e atuação.

Eu compreendo que não são todas as escolas dispostas a fazer uma educação questionadora, eu sei que não são todas as escolas que de fato querem pais participativos, ou que estão abertas às mudanças, ou que trabalham na perspectiva de como a criança aprende, e não na perspectiva de poder autoritário do professor. E que nem todas as escolas estão interessadas a explicar aos pais como as crianças aprendem, como a escola funciona de verdade, a metodologia aplicada, como ela funciona, para que serve, e que tipo de aluno – de verdade- a escola que formar e precisa para que ela funcione, mas eu penso que se as famílias não se unirem, não reivindicarem essa transparência, não exigirem que a escola dê o que promete, não cobrarem, não ficarem no pé, a escola nunca vai mudar.

Precisamos entender que a escola, enquanto instituição, é conservadora, no sentido em que seu papel é o de transmitir a cultura, transmitir informações sociais, conteúdos que regem uma determinada cultura/sociedade, ela, por si só, não transforma, não muda. O que mudam são os valores culturais que serão repassados através dela, porque a educação é isso, transmitir símbolos, signos culturais. A maneira de transmitir o conteúdo é o que marca a possibilidade de transformação social, a partir da formação/orientação do aluno como sujeito ativo e consciente do seu papel histórico-cultural.

E sim, na educação infantil, na mediação, inclusive, de como as crianças brincam e resolvem seus problemas faz toda diferença nessa orientação ao aluno que está se construindo. A educação infantil é base, é o que vai dar o tom para todos os anos seguintes, como é exatamente a mesma fase de desenvolvimento psíquico em que a pessoa constrói sua imagem e identidade, que dará o tom de sua relação consigo e com o mundo.