Eu nem sei dizer quando começou, acho que foi na escola, quando algum menino me batia e diziam que ele fazia isso porque gostava de mim. Mas eu sempre fui de revidar. E não foi só um menino, perdi as contas de quantos meninos passaram na vida escolar e me bateram ou de alguma forma sacanearam, ou me envergonhavam na frente de todo mundo com apelidos horríveis.

Nessa eu não lembro o que aconteceu primeiro, mas a primeira matinê que levei minha irmã, eu fui com um vestido preto curtinho, lindo, que minha mãe me deu. Eu me sentia linda naquele vestido. E usei. Um menino passou a mão dentro do meu vestido, eu voltei com meu sapato na cabeça dele. Ele voltou pra cima de mim perguntando se eu era louca. Eu xinguei, ele ia me bater. Eu fiquei apavorada, e xinguei. O segurança tirou ele de perto. Os amigos seguravam. E eu era a louca. Minha irmã? A bichinha, ficou apavorada. Por um tempo, eu acho que ela queria que eu não tivesse revidado, pela situação que se criou. Eu fiquei me sentindo péssima. Porque aquele menino se achou no direito de pegar na minha bunda? Passou. Não, não passou. Continuei ouvindo piadinha. Uma vez, no colégio, eu lembro que os meninos estavam combinando de colocar vodca no refrigerante de uma festa, para embebedar as meninas. E ouvi eles combinando o carnaval, ele queriam saber como conseguir o pozinho mágico, aquele pra endoidar as meninas. Fiquei puta. E perguntei qual o problema deles, na época, eu não tinha tanto argumento, só sabia que aquilo não era certo e não fazia sentido. Eles disseram que era brincadeira. Hoje eu sei que não era. Outra vez, num carnaval, um homem bem mais velho que eu me segurou pelo braço. Com muita força. Tanta força que eu fiquei com medo. Pedi pra ele me soltar. Ele disse que não. Eu gritei. Ele apertou. Eu mordi o braço dele e sai correndo. Ele me xingou, me xingou de tudo. E eu corri, de medo. Não conto quantas vezes tive que passar por isso. E quantas vezes tive medo. As vezes que viajei, nunca andei de metro. Tenho medo. E tenho medo de viajar sozinha. Não parece. Quem me conhece e já me viu nas festas na época universitária, já me viu fazer o que eu bem queria e entendia, e falar o que queria, não faz ideia desse medo. Algumas vezes – a maioria – eu me obrigava internamente a viver as coisas como se eu precisasse daquilo para minha autoafirmação de liberdade, me lasquei muitas vezes. Chorei várias. Já peguei gente falando de mim no banheiro sem eu ter feito nada, na época de escola. Já soube de história da minha vida que eu nem vivi. Já soube de tanta coisa a meu respeito que eu não sabia. Eu já fui mal vista pelos namorados das minhas amigas. Não era boa influência. Por que? Porque fazia o que eu queria. Falava o que queria. Sempre fui assim. Apesar do medo. E se eu fosse falar e detalhar o ex-namorado abusivo? Que eu achava que era errado eu ser quem eu era, e achava que o certo era aceitar todo tipo de abuso, porque era assim que tinha que ser, e aceitava todo tipo de humilhação, porque eu “merecia”. Graças à um bom tempo na primeira análise, e à intervenção pontual dessa analista eu acabei. Acabei. Mas apesar de muita coisa, de toda a vida depois, de toda a consciência, tem cicatriz na autoestima que fica. Nem preciso dizer também no dia que estava com a Iara numa lanchonete e uns rapazes ficaram de gracinha, e a gente sem dar bola. Fomos ao banheiro. Quando voltamos, falamos com a proprietária, que disse que a culpa era nossa. Pra finalizar a noite, os babacas jogaram uma garrafa de refrigerante na nossa mesa, e gritaram algo tipo sapatao de merda.

Nem conto também das desculpas esfarrapadas que num estágio um senhor dava pra ir na minha sala quando minha chefe não estava, e várias vezes peguei ele me observando à uma certa distância, ou percebia ele na sala de um susto, quando me virava e ele estava lá. E eu precisei falar pra minha chefe, porque comecei a ficar com medo ficar sozinha. Das outras vezes, eu já tinha aprendido mais ou menos a me sair; como também fingi que não estava vendo, achando que ignorando a pessoa ia se tocar. E quantas vezes tive minha simpatia e educação confundidas com qualquer outra coisa? (Talvez isso explique tanto minha cara de abuso, e falta de interesse em eventos sociais). Deve ser proibido na lei dos homens uma mulher sorrir demais.

E se eu contar que chamaram atenção no setor porque eu ia pro estágio de saia? E eu precisei mudar de roupa pra ir de calça, e isso me perseguiu por um bom tempo, tanto que passei a ter vergonha de ir trabalhar de saia mesmo tempos depois dessa empresa. E quem pediu para os meus chefes mandarem eu mudar minha roupa foi um grupo de mulheres da empresa que eram super legais comigo… (sabia de nada, inocente… na verdade eu tenho chama pra isso, porque cansei de ter esse tipo de “amiga” na minha vida)

Eu nunca me disse não feminista, não tinha como não ser. Nunca aceitei essas injustiças, nunca aceitei abusos ou violências. Nunca aceitei que ninguém me desmerecesse porque eu sou “bonitinha”, ou facilitasse por isso.   Sim, porque já ouvi algumas vezes que eu tinha sorte de ser bonita, e aí não precisaria ser mais nada além disso?! Mas sempre tem o momento que a gente acaba sucumbindo, e eu tive o meu, tem horas que eu agradeço ter sido cedo, e relativamente rápido. E que não se tornou uma repetição fudida de punição de mim mesma. E mesmo quando eu pensei que poderia estar errada, aquilo soava sem sentido. Tentar me encaixar no lugar que querem nos dar, não fazia sentido.

Eu não tenho outra opção que não seja o feminismo, e hoje mais ainda, pois tenho um filho. E eu todos os dias penso que não quero que o machismo tome meu filho, que o sexismo tome meu filho, não quero que ele precise de reprimir de qualquer coisa, de sua doçura, de sua gentileza e sensibilidade, de seu deslumbramento e encanto, por conta de uma educação sexista e machista que ele possa encontrar por aí.

Eu preciso ser feminista, porque não consigo suportar a ideia de que tantas mulheres fiquem em situações de humilhação e desamparo, e se achem merecedoras desse tratamento por uma culpa que não tem, por um crime que não comentaram, a não ser o de serem mulheres.

Sou feminista pelas minhas amigas e pelas desconhecidas que não percebem a violência e os abusos que vivem, nos relacionamentos e na maternidade, ou se percebem acham que deve ser assim mesmo, porque é assim que tem que ser.

E falo exaustivamente sobre isso, porque não podemos nos calar. Porque por menor que seja o abuso e a violência que sofremos, é violência, é abuso. E se nos calamos, legitimamos qualquer tipo de abuso e violência.

Sou feminista porque não aceito a redução da mulher à um mero objeto e que sua autoestima seja diretamente relacionada à sua aparência.

E poderia dar mil motivos a mais, poderia, poderia inclusive detalhar ainda mais sobre minha vida, sobre minhas experiências, mas não preciso, porque eu sei que todas passamos por algum tipo de abuso na vida, seja o assobio do cara na rua, seja a perseguicao, seja a pressão, seja um relacionamento abusivo.

Ninguém precisa passar por isso, ninguém deve passar por isso.

(escrevi esse post diante de tanta mensagem sobre abusos que li esses dias, escrevi e a cada palavra lembrei de coisas que vi e ouvi, e vivi; escrevi porque quando a gente expõe nossa ferida, outras pessoas sabem que não estão sozinhas, e se sentem acolhidas, apesar da distância ou anonimato.)