Vivo intensamente meus dias desde que Hugo nasceu, chegando ao limite várias vezes, e percebendo que existe mais em mim do que eu imaginava, e vez por outra entro em momentos de bloqueios, e me sinto travada, e acredito que seja resultado do limite do cansaço, de chegar num determinado ponto em que não dá pra produzir, nem dá pra fazer, nem dá pra pensar. E a vida é assim, a gente precisa de uma pausa para respirar. Sendo mãe, bom, que pausa? Você dá pausa em tudo, menos em ser mãe, porque ser mãe é o que você é. Por isso é tão delicado, porque está para alem de ter um filho, ser mãe aponta ao desejo de cuidar e ir além, e cuidar tem que ser um desejo que move, e você pode cuidar de diversas pessoas e diversas formas, isso não te faz precisar ser mãe. Ninguém precisa se sentir obrigado à isso, e nem deveria, porque ser mãe vai além. E não é só uma questão de identidade, é além. Não é um papel, é além. Ultrapassa e é eterno.

Agora como o ser mãe é tido pela cultura, com toda a supremacia materna, o poder materno, a onipotência materna, a santidade materna, são outros quinhentos. Não é disso que estou falando. Até porque você pode experimentar o limite de diversas formas, você vai viver o amor de diversas formas, você pode mergulhar em si mesma de tantas maneiras, que a maternidade não precisa ser uma experiência obrigatória, só para sentir esse amor inexplicável, é inexplicável porque é o amor próprio refletido, é amar a si mesma em outro corpo, em outra vida. Então, se eu falo da minha experiência materna e de quão intensa foi a mudança em mim, porque era meu desejo, porque vem da minha história, porque vem da minha constituição, da minha fantasia, dos meus fantasmas. A gente é mãe mesmo antes de ser, apesar de só aprender a sê-lo depois, num aprendizado contínuo.

Diante de tantos aprendizados, de revisitações, de revisões, de transformação, claro que eu só podia ser outra. Há tempos ando descontente com o blog, no sentido de não me identificar mais com o caminho que tinha traçado para ele. A maternidade me tomou em cheio, no meio, me partiu em duas, uma anterior e uma agora. Revirou minha história, e me desarcortinou. Me despi de mim mesma para me reencontrar. E nisso, minha vontade de escrever, que é sonho antigo e nunca escondi, se tornou muito maior. E escrever não necessariamente sobre a maternidade, mas sobre a forma como vejo as coisas após esse nosso prisma no meu olhar. Um prisma que intensifica, que me faz querer mudar, que me move ao debate, que me indigna, que me inquieta. Não apenas a infância, mas a vida. Não apenas a infância, mas as mulheres. Não apenas a infância e as mulheres, mas as mulheres que são mães. E quem mais estiver ao lado.

Tenho trazido muitas coisas na fanpage, e pouco por aqui, porque sei que a expectativa de quem segue o blog é encontrar maternidade, infância e comportamento infantil, e isso nunca vai deixar de haver, porque é disso que sei falar, porque é sobre isso que estudo, mas não necessariamente isso é uma coisa só, isolada, muito pelo contrário. Isso está no mundo conectado à tudo que pulsa na vida. A infância nos funda enquanto adultos, não tem como fugir disso, e se eu me preocupo com a vida, a infância é minha preocupação vital. Mas para cuidar da infância precisamos de adultos preparados, de adultos disponíveis afetivamente, emocionalmente.

Aos poucos o blog vai mudar, porque mudar é necessário. A vida segue adiante e não somos sempre os mesmos.

Escrevi mais cedo sobre minha necessidade de encontrar com o que empreender, e vai ser aqui, com vocês, com o blog, com a vida.

Mudei o título do blog para “Reflorescer”. Aos poucos mudarei o restante, por mera formalidade.

Beautiful Spring Day

Acho que é isso, reflorescemos a cada fase. A vida refloresce após o outono. Precisamos de um tempo para deixar que nossas folhas velhas caiam, e se transformem, precisamos de um tempo de resguardo, para que possamos renascer em flor. E mesmo que passemos por momentos de puro inverno, que no nosso coração a primavera esteja sempre viva. E é isso que eu quero, cultivar a primavera no coração de quem me lê, consciente de que a primavera é um momento, que vem de outro, e vai para outro, mas que de alguma forma permanece, no sentido que se sabe que se retornará a ela.

E tem sido esse meu propósito. Meu trabalho de psicóloga-jardineira-de-almas, que pode se tornar em escritora-jardineira-de-almas. Sigamos. E espero que você que me lê continue comigo se achar que ainda terei algo a dizer para você, mas se não para você, mas para uma amiga, conhecida, colega, convida pra vir aqui, conhecer um pouco desse blog, quem sabe ela encontre uma palavra que precise, um lugar, um estalo.

Beijo.

Raisa Arruda