A gente pensa que é fácil manter um blog, ter um blog e escrever com constância. Eu até me obrigo a escrever, já fiz diversos calendários de temas, já fiz pesquisa de opinião, e tenho milhares de frases anotadas que virariam posts maravilhosos, se eu conseguisse desenvolvê-las, mas não tem dado certo. Meu calendário “editorial” não tem rolado, e eu tenho deixado a desejar muitas vezes por aqui, o que é bem estranho, porque não tem coisa que me alivie mais na vida do que escrever.

Antes eu tinha a impressão que só escrevia quando estava incomodada e na hora que a coisa andava, eu já não conseguia mais escrever nada. Quando pensei em qual profissão fazer, e fiquei entre jornalismo e psicologia, porque na minha cabeça eu iria viver para escrever no jornalismo, e na psicologia eu iria viver de ouvir histórias de vida – duas coisas que eu amo, e por isso sempre sonhei em ser escritora – só que eu sempre me perguntava como que um jornalista consegue manter a qualidade da escrita diariamente, como manter a mente criativa e criadora, como estar sempre inspirado para escrever, como não perder as palavras que brotam durante o dia e se perdem pela falta de atenção e de cuidado?

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Escrever é ter atenção e cuidado com a vida. E a sensação que tenho quando leio um pouco do que escrevi acima é como se eu só tivesse atenção e cuidado se algo não for bem, e depois a vida volta ao curso automático.

Fiquei pensando sobre isso: o quanto nós paramos para nos ouvir, e cuidar, apenas quando alguma coisa dá errada. Poucas pessoas que conheço fazem exames de rotina, exercícios físicos regulares, reeducação alimentar por livre e espontânea vontade, sem que antes da decisão uma possibilidade de doença tenha aparecido… E como automatizar a vida depois de ter filhos? Todos os dias eu me surpreendo, todo dia eu aprendo, todo dia estou atenta aos detalhes, aos “soíns” (sagüis) que passam velozes de árvore em árvore no prédio ao lado, atenta ao desenho das rosas da calçada, ou o formato da casca da árvore de frente ao prédio, ou ao movimento da água que sai de um copo para o outro, da forma que a tapioca toma depois de ser mergulhada no leite… E são todas descobertas que meu pequeno faz no dia a dia e me mostra. Por que tendemos a nos distanciar da vida? Só ouvir quando algo não está bom ou não vai bem? E esquecemos de nos alimentar daquilo que é necessário: alegria e amor todos os dias?

Alguns vão dizer que esse papo otimista só funciona pra quem não tem problema. Ou quando a gente comenta de olhar por outro lado, por outro prisma, vão colocar situações limites, nas quais é preciso muito resiliência pra conseguir enxergar outro lado, e muitas vezes necessário muito apoio para tal feito. E aí, é uma questão que não é minha, que neste momento escrevo esse post. Enxergar apenas a falta de saída é uma questão de cada um de nós, que se fixa na dor, por alguma razão, e a repete. Repetição necessária para manter a sanidade, quando não encontra uma saída, mas o exercício da criatividade se faz urgente na vida. Não para fugir da realidade, mas para poder transformá-la.

E automatizamos a vida, a nossa, de adultos, e insistimos que as crianças também adoeçam nessa automatização. E o que estamos fazendo, quando ensinamos às crianças que ouçam apenas quando algo não vai bem, quando algo está errado? Permitimos que elas deixem de se alimentar daquilo que é vital, o amor, a alegria, a criatividade. Não é de ensinar a negar os problemas, mas de ensinar a experimentá-los de outra forma, que se consiga um escape no meio de uma situação que circula e não sai do lugar.

Eu lembro quando eu era mais nova e queria ser escritora, eu anotava tudo, anotava num caderno de impressões da vida, anotava o que eu sentia, o que eu via. Quando eu estagiava no Centro da cidade, às vezes eu chegava muito cedo, e ficava numa calçada, em frente ao Mercado Central, assistindo a vida acontecer. As pessoas descarregando caminhões, as músicas que assobiavam, cantarolavam, o café do tio da bicicleta, ouvia as conversas. Às vezes tomava café da manhã de novo, só pra poder ficar ali, e ouvir, assistir, me encantar com as histórias, com as pessoas. E escrevia, tudo, cada detalhe, escrevia sobre o dia, sobre a vida, sobre encanto pela vida e pelos detalhes. E quanto mais atento aos detalhes ficamos, quanto mais nosso olhar enxerga aquilo que outrora não se via, mais conseguimos compreender as inúmeras possibilidades, e de que sempre haverá uma saída. E nem sempre significa que devemos encontrar as saídas sozinhas, ou que devemos construir as possibilidades sozinhas.

O que penso hoje enquanto termino esse post que começou a ser escrito faz 3 dias  é que é necessário desbloquearmos nossas saídas criativas, e precisamos diariamente cultivar nosso olhar, nossas cores, nossas palavras, e não deixar que isso se perca, ninguém precisa ser escritor, blogueiro, ator/atriz, artista, para necessitar exercitar a criatividade, basta ser pessoa, basta ser humano, basta ter sentimentos e uma vida que convoca decisões diariamente, da menor que seja à mais urgente e importante. A criatividade é urgente e necessária para sairmos do automático, para vivermos o dia, para vivermos nossa própria vida.

E aí eu penso, quando venho diversas vezes nessa página de adicionar um novo post e não consigo escrever nada, se estou me deixando cegar aos dias ou ser engolida pelas atividades diárias que não me permitem me ater aos detalhes, que antes me eram tão preciosos. Hoje resolvi me propor um desafio, desafio de desbloqueio criativo, por um mês, e ao final do mês, continuar por mais outro, para que seja contínuo. E hoje foi o primeiro desafio, esse post. Amanhã, não sei. Depende do que acordar automático. De qualquer forma, resgatei meu caderno de impressões, e hei de anotar meus detalhes.