A ideia do blog é de trazer reflexões, de trazer informações, de questionar, de aproximar a psicologia do dia a dia, porque depois que você passa cinco/seis anos estudando sobre isso é impossível não ser atravessado por esse saber, não dá pra você direcionar o olhar, não dá pra ouvir sem escutar, olhar sem enxergar. Não de estar o tempo inteiro psicologizando a vida, não de estar o tempo analisando as pessoas, é além, muito além, é sobre o encanto e a poesia que existe na vida, na alegria e na miséria dos nossos dias. Nem toda poesia é de amor, e nem todo encanto é de alegria.

Todos os dias eu acordo, levo Hugo para escola, e algumas manhãs atendo, e em outras estudo, e sempre que volto de cada atendimento, é o exercício da escrita, de encantamento por cada história, do fato, da narração que passei cinquenta uma hora, uma hora e dez minutos, trinta minutos minutos ouvindo. O tempo é da vida, da história, da emoção.

O consultório é um não se deixar desencantar pela história do outro. É vida de quem um dia foi viciada em literatura sempre quis. E vai além, vai além de uma escuta, vai no toque das palavras. E vai além da escrita, mas no arranjo de uma sinfonia engasgada, vai no ponto arranhado do disco que repete e precisa saltar a poeira, ou o arranhão… no desalinhar o emaranhado sem sentido de palavras e que em algum momento aqueles retalhos de memórias fechem um quadro, harmonizem a sinfonia.

É um não se deixar ensurdecer à vida, na troca entre as palavras ditas sob o divã e o analista. A escuta de um enriquece e aprofunda, a escuta de outro se desperta em si.

Não é uma questão de apenas escutar, mas saber o que se escuta, que se aprimora com a disponibilidade de ouvir, de ouvir o que não é dito, e escavar, escavar, até que o não-dito obscuro, escondido, coberto, se clareie.

Um descortinar a própria janela, e reconhecer a si mesmo. Enxergar a infinitude do próprio jardim. Talvez seja esse o “sem-fim” da análise…