Quarta-feira passada passamos por uma situação bem inusitada por aqui.
Foi 1h de choro sem parar do Hugo, e eu já morrendo de dor de cabeça, e estávamos sozinhos, porque meu marido, como já disse algumas vezes, de manhã/tarde/noite é professor e de noite/madrugada é dono de bar.
A nossa sorte é que no primeiro chamado ele corre pra nos acudir, seja urgente, seja cansaço, seja medo ou estresse, e dessa vez, pelo visto eram apenas gases! Mas situação estava assim: Hugo sem parar de chorar, eu morrendo de dor de cabeça, quando ele dava um intervalo no choro e eu fazia menção de colocar no colchão, ele se agarrava e não soltava por nada, e o choro voltava mais intenso, tentei umas três vezes fazer isso para preparar um chá de erva doce e camomila, e procurar o luftal.
Eu podia ter me desdobrado e feito sozinha, talvez, se meu quadril não tivesse quase inútil, colocava o sling e ia tentar de todo jeito fazer ele tomar o luftal (quem conhece Hugo ou já me viu tentar dar remédio pra ele, sabe que a luta é pesada…) E ia eu podia tentar fazer o chá com ele agarrado em mim, enquanto tivesse chorando sem fim. Eu ia morrer ainda mais de dor, porque meu quadril dói muito, para conseguir ficar com ele no colo eu preciso me equilibrar de um jeito que faça força de um lado pra não pesar do outro, e eu não cair e nem sofrer mais ainda com a dor.
Claro que eu podia fazer tudo sozinha, assumir esse papel de mãe faz tudo, a farsa super poderosa, que não precisa de ninguém pra coisas simples, e muito menos para as mais difíceis. Até porque ele podia estar com outra coisa, e subir uma febre do nada, como já aconteceu. Podia sim, não ter ligado pro Rodrigo no auge do meu desespero de ouvir uma hora de choro e não saber o que fazer e ainda morrendo de dor de cabeça. Mas uma coisa a gente precisa aprender: delegar, dividir e compartilhar.
Uma coisa muito importante que a vida me ensinou depois do Hugo: eu não dou conta de tudo, eu não tenho que dar conta de tudo, eu não preciso enlouquecer para dar conta de tudo. E muito mais do que isso, se eu prezo por companheirismo, se falamos tanto de participação e paternidade ativa, se queremos ajudar a desconstruir esse lugar do pai autoritário e distante, e da mãe que sempre lascada de cansada e solitária na luta, precisamos desapegar da ideia de ser heroína de só Deus sabe o quê. Precisamos aprender a pedir ajuda, e quando for necessário exigir ajuda. Precisamos aprender a desembarcar na hora que não vemos saída, e precisamos aprender a construir novas possibilidades e estradas. Eu bem sei que a realidade é limitada e que muita gente morre tentando, e também tem quem morre porque há perseguição, violações de direitos e da vida, desapropriação do corpo e da identidade, e mais um monte de coisa que precisa ser mudada. Mas pensando em situações em que podemos mudar nossa postura, desapegar do controle, e construir uma relação pautada na equidade, permitir a aproximação do pai do maternar e cuidar, permitir que o homem que culturalmente não é educado e nem próximo à maternagem, possa viver essa experiência transformadora de cuidar e de criar, abrimos caminhos! 
Eu sei que é difícil achar um não-esquedomacho por aí, mas o machismo não oprime apenas as mulheres, os homens para chegar à esse lugar viveram uma infância de opressão, nenhum menino nasce machista, opressor, autoritário e sem afeto, eles se vêem obrigados a seguirem por imposições para sobreviverem, alguns saem à tangente, e alcançam outros lugares na vida que não o do não-sentido da opressão, mas da mesma forma que nem toda mulher consegue se desvencilhar sozinha das suas amarras, alguns homens estão dispostos e abertos, mas não sabem qual caminho podem seguir ou como encontrar esse outro lugar. Não posso dizer que são todos, não posso dizer como fazer, mas a desconstrução é urgente, e ela vai acontecer com o empoderamento de cada uma de nós, quando pararmos de acreditar que nossa missão é cuidar de tudo sozinha para que haja algum tipo de reconhecimento da nossa força, porque ela é muito maior que tudo isso, não pode se resumir à solidão.
Eu acho que se tivesse abraçado a ideia de que maternar é função única e exclusiva da mulher, deteria o controle de tudo que diz respeito ao Hugo, e estaria privando o Rodrigo de se descobrir como um pai (como eu tenho me descoberto como mãe), de conhecer as suas possibilidades e limites com os ensinamentos que Hugo nos dá.
Agora Hugo dorme, minha dor de cabeça continua, mas eu precisava contar um causo.