Vai uma dose de protagonismo aí?

index1
imagem retirada do blog Natural Birth and Parenting

Um dos pilares da humanização do parto é – além da base em evidências científicas atualizadas e atuação em equipe multiprofissional – o protagonismo da mulher.
Protagonizar é : “Ser o principal agente da sua história”. E para isso é necessário ter acesso à informação com credibilidade para poder fazer escolhas conscientes. Até mesmo para decidir se vai contratar Doula/equipe de apoio , se vai parir com plantonista ou obstetra particular, em casa ou no hospital.  

A reflexão de hoje é sobre um movimento que tenho observado e que me assusta um pouco: ver mulheres tirando o “poder” simbólico sobre o parto e nascimento das instituições/médicos e transferindo para as doulas / equipes, como se , ao contratar , houvesse a garantia do parto idealiZado.

Ninguém pode garantir parto normal para ninguém . A OMS nos diz que 15% das mulheres vai precisar de uma cesárea por motivos fisiológicos. Nessa estatística não estão computadas as chamadas “distócias emocionais” , ou seja, as cesáreas que ocorrerão por algo que vai além do fisiológico, que pode ser: ambiental : transição de casa para o hospital; ambiente barulhento ou desagradável para a mulher. Emocional: medo , angústia , ansiedade (da mulher e/ou de outras pessoas presentes na cena de parto). Ou mesmo da Cultura que nos atravessa a todos em maior ou menor grau. E vivemos no país mais cesarista do mundo! Então somos todos afetados de alguma forma por mitos e medos e, na intensidade de emoções e primitividade, que é o parto, muita coisa que desconhecemos de nós mesmos vem à tona. E só sabemos o que nos espera, quando passamos pela experiência.
As doulas/equipes , são parcerias, apoio , para tornar essa jornada mais confortável, acolhedora, segura, mas não garante o parto ideal – porque ele não existe. Existe o parto real, que , se vivenciado plenamente , é exatamente o que precisamos naquele momento de nossa vida. (Aqui não se encaixam as violências obstétricas – ninguém “precisa” , “deve” ou “merece” passar por isso) .

Algumas mulheres entrarão em trabalho de parto e em algum momento precisarão de uma cesárea, outras planejarão o parto natural , mas optarão pela cesárea antes do trabalho de parto , por algum motivo; haverá quem planejou uma cesárea mas se surpreenderá parindo! Sem dúvida, muitas vão parir muito perto do que sonharam.

O que observo é que, quando o protagonismo é exercido, não importa a via de nascimento , nem a distância entre o ideal é o real: a sensação é de vitória , pois foi feito o que podia ser feito naquele instante , a mulher tomou pra si o seu parto. Mesmo com uma dose de frustração em alguns casos , exercer o protagonismo em sua plenitude, dá força e uma melhor compreensão e aceitação.

Particularmente , não vejo como fracasso, recorrer à cesárea, pedir anestesia, ou qualquer outra coisa que fuja ao parto natural, cada história tem seu enredo e a de um parto só é escrita na hora, não tem rascunho nem script. Mas todas tem sua beleza e desafios. Quando a mulher a protagoniza não tem como dar errado, pois não existirá o “errado”.

Não vamos cair na besteira de apenas trocar quem estará no pedestal, vamos destruir o pedestal e dar as mãos. Namastê 

Krys Rodrigues

psidoula.krys@gmail.com