HumanEntrevista sobre como falar de assuntos sérios com as crianças!

1- É muito comum no consultório pais questionarem sobre a “capacidade de compreensão” das crianças, sobretudo quando surge a necessidade de abordar assuntos dolorosos, como morte, separação, adoção etc. Existe um momento, modo ou idade mais adequada para tratar desses assuntos?

A criança tem uma capacidade de compreensão e observação muito maior do que supomos, e por isso, enquanto sofremos para falar ou abordar determinados assuntos, elas já sabem que existe algo no ar. A melhor maneira de abordar um assunto familiar sério é com honestidade, e para isso, o melhor momento é quando os pais/responsáveis estão inteiros e sentem-se seguros para falar daquilo, naquele momento. O importante é não deixar passar muito tempo do episódio para abordar, pois enquanto a lacuna fica aberta, a criança irá preencher com conteúdos que ela possui, principalmente com a fantasia, para dar conta da realidade, e nem sempre a fantasia consegue explicar de uma maneira saudável. Honestidade é o principal, e ser objetivo, sem florear muito, pois a criança acaba se perdendo em explicações longas, que muitas vezes não chegam ao ponto principal… As bordas da história ela já conhece, não é necessário passear muito por elas, para chegar ao ponto.

2- É possível valorar a medida do silêncio? Ao tratar desse assunto, podemos também falar da importância dos “não ditos”?

O silêncio é importante não só para a criança, mas para todos nós, pois é um momento de reflexão, e cada um tem um tempo para trabalhar seu luto (pois situações de perdas, seja de um ideal que fracassou, seja da relação familiar que muda de estrutura, etc., precisam de um luto para serem superadas). Agora, quando junto ao silêncio vem algumas atitudes de isolamento, tristeza profunda, desânimo em relação à vida, e às atividades por um tempo considerável, é importante buscar orientação. Não há como medir o silêncio, deve-se ter em mente sua importância, quando a criança está ciente da realidade que a cerca. Os não ditos tem sua importância no sintoma que a criança pode apresentar, ou na fantasia que a criança constrói, pois se não há explicação, e ela precisa de uma, ela vai encontrar a sua própria teoria acerca do assunto que não foi conversado.

3- Além da importância dos “não ditos, observamos na prática clínica com crianças o excesso de silêncio ou os “maus ditos”. As crianças, sobretudo as muito pequenas, não respondem com palavras. Quais sintomas mais comuns decorrente desses “excessos”?

Os sintomas são variados e vão depender da história de cada criança e de como ela lida com as situações, então pode vir como uma alteração brusca de humor ou comportamento, ou como uma doença psicossomática.

4- Sabemos da importância dos pais no processo terapêutico da criança, mas infelizmente é muito comum os pais interromperem o processo terapêutico da criança quando ela apresenta a “diminuição” de alguns sintomas, alguma “melhora”. Pode falar mais sobre isso?

Alguns momentos essa interrupção diz mais sobre o sintoma dos pais, do que sobre a própria criança. No sentindo em que a “melhora”da criança pode alterar algumas questões nas relações familiares, no lugar e nos papéis ocupados pelos pais/responsáveis, pois uma criança adoecida também interfere nas relações familiares, como também é reflexo dessas mesmas relações. O importante é que os pais participem, e, quando solicitados, compareçam, para que haja continuidade no tratamento, e que caso eles tenham alguma questão relacionada ao tratamento da criança, ou percebam que isso afeta a família de alguma maneira eles podem colocar isso para o psicólogo da criança, que irá fazer alguma orientação, mesmo que seja indicar aos pais busca por tratamento.

5- Hoje tem se falado muito em Déficit de Atenção e Hiperatividade em crianças. Há um excesso desses diagnósticos? O que os pais precisam saber?

O excesso de diagnósticos existem em todos os âmbitos e com todas as classificações e nomeclaturas, e os pais com uma ânsia de serem os melhores pais ou que seus filhos sejam os melhores filhos, acabam tomados por esse fantasma do diagnóstico para acalentar alguma caracteristica da criança, que nem sempre eles dão conta. É muito mais importante que os pais saibam o que cada fase da vida da criança exige, principalmente que criança é criança e é primordial que ela tenha tempo livre para brincar, e brincar não é sinônimo de ter brinquedos, mas de criar, inventar, explorar, do que se preocupem com outras coisas agora. Muitas vezes esses diagnósticos surgem porque a criança não tem oportunidade de viver sua criatividade (que é inata do ser humano!!!), e apresenta dificuldade de se encaixar em um modelo adultocêntrico, onde esperam que a criança responda como um adulto à determinadas normas, o que é impossível para ela, pois seu corpo e sua mente precisam de expansão! Claro que existem o casos reais de hiperatividade, mas esses casos não são a maioria, e o diagnóstico é feito através de um acompanhamento multidisciplinar!

6- Existe uma máxima do senso comum de que toda criança deve “frequentar” o psicólogo. O que você diria disso?

Eu acho que a psicologia ajuda em muitas coisas, e não existe uma contra indicação, mas nem todos os casos a criança precisa ir ao psicólogo, algumas vezes os pais precisam muito mais do que ela. O psicólogo com a criança pode auxiliar que ela encontre em si mesmas ferramentas para lidar com a sua realidade de forma saudável, mas o psicólogo não vai moldar ou transformar o comportamento da criança, o que muitas vezes é o que os pais procuram no trabalho do psicólogo com crianças. Conversar com o profissional e averiguar a necessidade de acompanha a criança, ou se de fato não seria um dos pais (ou ambos) que precisa de acompanhamento é muito importante. Além de ter em mente que o trabalho do psicólogo não significa que nunca mais você vai ter algum problema na vida, não é um trabalho que finda numa cura, mas um processo que te permite perceber onde aperta, e que auxilia a encontrar dentro de si próprio formas de lidar com a realidade, mas que ela pode se tornar angustiante em outros momentos, por outras razões, e que isso pode levar ao retorno à terapia, pois não damos conta de tudo de uma vez só, e só sabemos o que nos causa angústia quando nos deparamos com isso.