A Luciana tinha 30 anos quando nasceu o Henrique. Toda sua vida tinha seguido um caminho sem grandes oscilações. Namorou, casou, trabalhou, e, em determinado momento, resolveu engravidar.
Só que com a gravidez muita coisa mudou. Ela se viu mais sensível, ganhou uma platéia que lhe dizia o que deveria e o que não deveria fazer, e, quando nasceu seu filho, nasceu uma grande insegurança. Dizia a si mesma que estava tudo bem, mas com o passar dos dias essa insegurança só crescia. Quando Henrique completou uma semana de vida ela sentou na cama e chorou até se cansar. Ligou para o marido voltar do trabalho e disse “Não sei cuidar do meu filho”.

Com a *Betina aconteceu de um jeito diferente. Tudo corria bem até o dia em que a filha completou 10 meses. As duas ficaram gripadas na mesma época, e quando a menina ficou boa, Betina se sentiu incapaz de cuidar da filha. Mas não tinha coragem de dizer isso em voz alta.

Algumas fazem como Luciana e pedem ajuda. Outras, como Betina, e escondem o sentimento. Mas a grande verdade é que quase toda mulher passa por momentos em que se sente incapaz de cuidar do próprio filho.
Segundo a psicóloga Raíssa Arruda, é importante que nos questionemos porque esse sentimento faz com que agente lide ou entre em contato com essa maternidade perfeita que não existe. “Quando uma mãe saudável em algum momento se sente incapaz de cuidar, ou não consegue lidar com alguma situação ela se sente contato com a falta. E isso é importante para o bebê. Uma mãe total, que seria uma “mãe perfeita”, vai ser um perigo para a estruturação subjetiva dessa criança, porque agente precisa da falta para emergir enquanto sujeito. É necessário que essa mãe também falhe. Não uma falha proposital que vai gerar danos para essa criança… A falha no sentido de não ser uma mãe completa, de conhecer suas limitações, para repensar seu aprendizado e seus conhecimentos“, explica.

Para a fisioterapeuta Aline Oleiro, que sempre achou que só ela tinha essa sensação, foi um alívio saber que outras mães também compartilhavam do mesmo sentimento. “Quando fui num grupo de apoio de pós parto e conversamos, todas nos sentíamos daquele jeito. E isso foi bom para que eu percebesse que a perfeição não existia”, relembra.

Para Raíssa, quando a mãe acha que não está fazendo direito, ela acaba entrando em contato com suas próprias crenças, com sua historia de vida, suas limitações, e isso faz com que exista um processo de auto conhecimento “Assim essa mãe vai procurar outras alternativas nessas situações”, esclarece.

Quando esse sentimento de incapacidade deve ser analisado mais a fundo?

“Esse sentimento de incapacidade também pode ser uma denúncia de uma possível depressão pós parto, uma possível depressão materna. Então precisamos avaliar a intensidade que esse sentimento aparece. E se ele aparece de uma forma incapacitante de fato ou se é um sentimento que faz com que a mãe negue seu papel como mãe
Uma mae que se sente incapaz e nega o nascimento do próprio fiho, nega cuidados para o próprio filho, que dificulta o laço, o vinculo e o cuidado materno de fato. o sentimento paralisou essa mãe, essa mulher precisa buscar ajuda, isso vai interferir no desenvolvimento dessa criança. O bebê precisa de aguem que o materne. Não necessariamente a mãe, mas alguém que faça esse cuidado”

Desconstruindo a ‘mãe perfeita’

“Essa mãe perfeita não vai dar espaço para que o bebe deseje. Se o bebê não deseja, ele está apático, ele ta ai e não existe. Porque essa mãe não permite que ele mostre que existe. Ela é tão total e não deixa que ele sinta falta de nada.. e essa falta é o que faz com que agente se sinta sempre caminhando. E ai entra aquela discussão.. as pessoas precisam parar de pintar a maternidade como perfeita.
Porque as mães se incomodam muito com o fato de não alcançarem esse ideal e se sentem incapazes de serem mães, quando na verdade a gente não é capaz. A gente não nasceu capacitado pra resolver todas as dificuldades que a maternidade coloca na nossa frente. A maternidade é um processo de autoconhecimento, de trabalhar o limite, de buscar ajuda, buscar apoio, de perceber que tem que delegar o cuidado da criança as outras pessoas.

 

Texto originalmente publicado em: http://maeatwork.com.br/2015/08/26/e-necessario-que-a-mae-tambem-falhe-diz-psicologa/

Destaque no site da Ana Maria Braga

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