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Quando eu engravidei ouvia uns comentários que me faziam acreditar que realmente minha vida iria parar depois de ser mãe, era quase um”coitada, tanta vida pela frente…” Ou “tão nova, já é mãe”… Demorei um pouco pra entender que até eu me sentia assim, porque esse peso no discurso e no olhar entra na gente, e aprisiona.

Eu não sou tão nova, seria essa “mãe tão nova” se tivesse filhos aos 17/18, e eu também não perdi meu “tempo” pela frente, nem minha vida pela frente, mas pra mim, na MINHA vida, na MINHA história, ser mãe foi o maior upgrade do mundo. Foi meu despertador pra tirar de baixo do pano um monte coisa que eu não queria ver, varrer minha sujeira pra fora do tapete e ter que lidar com ela, ter que jogar fora um monte de coisa, ter que aprender mais um bocado, e definitivamente compreender que não dá pra ficar perdendo tempo e gastando vida com o que não acrescenta, o que não me trás felicidade, com o que não sou obrigada, com o que não é um problema meu.

Hugo é a maior energia que poderia encontrar na vida, para me levar mais longe, no longe que eu desejo chegar, que me fez perceber que eu preciso de menos, de pouco, mas que seja o suficiente. Hugo me fez entender que acordar de mau humor me faz perder metade do meu dia, e que passar o dia reclamando não ajuda em nada em ser mais leve. Me fez entender que voltar a ouvir música de manhã, cantar e dançar no carro me faz ser mais divertida, e que eu não preciso ser sempre tão preocupada, porque nossa vida é agora. Acompanhar o crescimento de uma criança, é compreender que agora é agora, não é depois, e se não for agora, você perdeu, passou. Me fez entender que ter filho não é peso, é fluidez, que ter filho é leveza, apesar do cansaço, da falta de tempo, do sono atrasado. É ter um alerta que te mostra que andar a pé, que ir à praças, que olhar a rua, ver o movimento dos carros, olhar pro céu, é mágico, e assistir à vida passar também é interessante. Imagino os olhos do Hugo se eu subisse uma montanha com ele, e de cima ele pudesse ver o horizonte, imagino o encantamento que iria me tocar e me mostrar o que tem de mais belo e sutil na existência. Se fôssemos capazes de observar os olhares atentos dos pequenos, de compreender que mais do que conforto, o prazer da descoberta, e da contemplação, teríamos menos desculpas para fazer o que realmente importa porque somos pais e responsáveis por nossas crianças.
Não quero dizer aqui que todo mundo tem que ser mochileiro, ou escalar montanhas, ou ser nômade, ou qualquer outra coisa, mas estar aberto à reflexão, e não passar incólume à experiência de viver ao lado de uma criança. De ser capaz de ouvir a si próprio através daquela criança, de entender que aquilo que se escuta na fala, no olhar, e na pergunta, também diz respeito à nós mesmos, enquanto adultos, diz sobre nossas escolhas e caminhos, e mais ainda, nos aponta a responsabilidade pelos caminhos que trilhamos, porque não escolher também é uma escolha, não pensar sobre é uma escolha, não refletir é uma escolha, embora não sejamos educados para entender esse processo de escolhas, e tampouco somos educados para sermos responsáveis pela própria vida, nos restando apenas culpar o outro, seja lá quem ele for, pelo nosso suposto destino, mas mesmo que se escolha não pensar, e não refletir, e não questionar, ainda assim não temos como fugir da nossa responsabilidade de ter feito escolhas que nos levem à esquiva da própria vida.

Eu não pretendo escalar montanhas, eu gosto de natureza e de gente. E amo o olhar do Hugo observando as pessoas, porque eu sou encantada por elas e por suas histórias. Minhas aventuras com Hugo são na vida de cidade, ainda com muito medo, principalmente de bicicleta (que eu estou parada por uma bursite no quadril que me deixa com dores horríveis, e sem conseguir andar, mas o pai ), mas caminhamos nas nossas pequenas aventuras cotidianas, de encantamentos diários, e nos permitindo a cada nova experiência aprofundar um pouco mais em nós mesmos, e na nossa relação.