No nosso encontro de psicólogas no Shopping Del Paseo, dia 27/08,  surgiu uma questão sobre infância e família, qual o lugar dos filhos na vida das famílias? A reflexão posta foi relacionada ao filho como um objeto de consumo, já que vivemos numa sociedade de consumo, dificilmente conseguimos nos desvincular totalmente dessa marca que permeia e norteia das regras e condutas sociais. Como se ter filhos fosse um protocolo social à ser atingido, para dar satisfação, um caminho que deve seguir, mesmo que não seja desejado.

Vale à pena refletir que dentro desse ritmo frenético de vida de trabalho-consumo as pessoas se distanciam de si mesmas, o que dificulta a escuta da própria necessidade e dos desejos, quando uma mãe engravida, poucos chegam para falar da importância de ela descansar para gestar esse bebê, não se fala das mudanças emocionais de forma positiva e de como pode engrandecedor para ela para se reconectar com si própria e com seus sonhos, não se explica sobre a fragilidade e vulnerabilidade emocional, diante das alterações psíquicas que ocorrem nesse momento, não explicam a importância de junto ao pai e à família conversar sobre o exercício do maternar que não diz respeito apenas à mãe, mas ao cuidado que irão ter com a criança. Nessa correria de dar o que o bebê precisa, sem questionar se realmente são da ordem da necessidade do bebê. E os pais não encontram espaço para refletir sobre o primordial: o lugar que irão dar para essa criança na família.

Muito mais importante na estruturação do bebê enquanto sujeito, enquanto pessoa, é ter um lugar marcado por afeto, construções e fantasias que esses pais fizeram sobre esse filho, os sonhos e as expectativas são o início da história do bebê, e como esse bebê será recebido na sua família. 

Agora, para os pais, é de extrema importância a compreensão que as expectativas são das fantasias e desejos parentais, e reconhecer o bebê como uma pessoa que irá se constituir a partir desses desejos, mas como uma equação entre o que esperam dele e o que ele encontrou de identidade e desejo próprio a partir disso. Os filhos são resultado no nosso amor próprio, pois são uma extensão de nós mesmos, mas ser a extensão da nossa história não significa que terão que ser também a realização dos nossos sonhos frustrados, nem responsáveis por realizar nossos desejos. E o que percebemos é que os pais não tem tempo e muito menos apoio de aprender sobre isso, reconstruir a si próprios enquanto pais, de reconhecer a nova identidade e assimilar aos poucos as novas responsabilidades, para a construção tranquila da nova estrutura familiar. De poder reconhecer os próprios limites, saber que falhar é necessário e que isso vai acontecer eventualmente, e de poder lidar com as falhas de uma maneira menos dolorosa. Assim como, poder reconhecer a si próprio nessa nova história e não transferir à criança a própria história, e isso significa o que houve de bom, e também de ruim, na infância de cada um. 

Encontrar uma criança, independente de ser filho, é sempre um reencontro com a criança que se foi e que está dentro de si mesmo. E essa criança tem suas alegrias infantis, mas suas mágoas e ressentimentos, que seguem marcando os passos, as vontades, os sonhos, as relações, as atitudes, dos adultos. Ter um filho é reencontrar a si próprio criança, todos os dias, e por isso, reviver sentimentos de prazer e de angústia, que nem sempre se entende o porquê, por estarem guardados em memórias antigas e escondidas de cada um.