Todos os dias, desde que engravidei, passo por momentos de reflexão intensa, revisitar meus conceitos, minhas crenças, e mais forte do que tudo isso é de revisitar a minha história, e a nossa relação. Normalmente, essas reflexões acontecem no carro, quando eu consigo ficar sozinha para pensar, e ontem no caminho de volta para a escolinha, fiquei pensando nesse processo de adaptação. Hugo é uma criança muito tranqüila, e rapidamente compreende as situações e se adapta, e talvez por isso eu pensei que ir pra escola de verdade agora ia ser mais fácil, mas às vezes a gente acaba esperando mais, e nem sempre as crianças estão preparadas para dar. Por ver sua facilidade, pensei que ele estivesse pronto, mas não está, não como eu pensei, e esse processo de adaptação vai precisar de muito mais cuidado, pois meu desejo maior com a escola é que seu desejo por saber nunca se esgote, e sempre se renove. É preciso delicadeza para que a transição seja harmoniosa, e a delicadeza depende da sensibilidade da família e da escola. A criança está saindo do primeiro núcleo social dela, onde todo seu investimento afetivo está centrado, para outro núcleo, totalmente desconhecido, e essa transição precisa de suavidade. Até o nascimento, por mais abrupto que seja, a criança passou nove meses conhecendo aquela voz do corpo que abrigava sua vida, e os sons do entorno. Pensar na transição da família para escola é construir junto à escola esse reconhecimento da criança com o espaço, suavizar a passagem. Fiquei muito feliz pela receptividade da escola para ouvir minha reflexão, e muito mais feliz por receber da coordenação apoio para recomeçarmos nossa relação, para que Hugo se sentisse numa extensão familiar, e não como intruso ou largado por nós num ambiente estranho. Ele é sempre cauteloso, antes de entrar em qualquer lugar, nos leva pela mão e ao se sentir seguro, vai sozinho, ou já vincula com o adulto do lugar. Esses três dias, precisamos soltar nossas mãos antes que ele estivesse preparado para soltar. Retomamos do começo.

Esse texto foi sobre a primeira semana do Hugo na escola, dia 21 de Agosto. E retomamos o processo na semana seguinte, com muita calma.

Pra mim, repensar esse processo foi muito importante, pois apesar de Hugo demonstrar muita tranquilidade, e ser muito inteligente, ele ainda é um bebê, e apesar de muita coisa, sua (i)maturidade emocional deve ser respeitada, e isso só é possível na escuta, e na observação.

Semana passada foi diferente, com muito mais calma, chegamos todos os dias antes da acolhida, sentei com ele na roda, até a professora receber todos os alunos, e só então, chamava o Hugo para pegar um brinquedo na sala ou guardar seu material e eu me despedia dele nesse momento. Alguns dias com aquele choro de reclamação, que dura pouco, mas que ele expõe a insatisfação, na despedida. Em seguida a dúvida entre soltar a minha mão e sair correndo para a roda. E durante esse processo, ele elegeu seu objeto de segurança, que a gente chama de objeto de transição, que foram dois livros, um que ele ganhou da Iara, e outro do Pinóquio, que ele pede para ler todos os dias. E a partir do livro ele estabelecia relação com a professora e os colegas. Andava com o livro para cima e para baixo na escola. E me encheu de orgulho, saber que o objeto que representa a família, o lar, a memória, a nossa presença enquanto estamos ausentes, foi o livro.

Ontem, Hugo já queria sair logo da cadeirinha do carro, chegamos na escola, ele abriu os braços para a professora, e eu enchi os olhos. Fiquei tão emocionada, tão feliz! Saber que ele se sente acolhido e protegido na escola é pra mim o maior presente de Setembro!

Não escondo de ninguém que a escola pra mim sempre foi uma segunda casa, claro que no meu caso, a minha mãe estava presente durante toda educação infantil e ensino fundamental, estudei nas escolas que ela trabalhou. Só que ainda assim, eu era feliz nas escolas, principalmente nas pequenas. O meu choque escolar e minha decepção escolar foi quando precisei ir para escolas maiores, que eu sei que não preciso fazer isso com Hugo para que ele passe no vestibular. É muito mais importante que ele possa viver o conhecimento e a aprendizagem de maneira prazerosa e plena, para que ele encontre seu desejo, sua vocação, e possa fazer aquilo que vá engradecer sua alma, ajudar os outros, e dar prazer. Claro que vão existir altos e baixos, porque a vida é assim, mas quando se está no caminho que se escolheu, as coisas fluem com mais leveza, mesmo nos momentos de aflição. E uma escola que foque no desejo de aprender e na curiosidade pelo mundo, vai dar à ele muito mais do que informação, mas vai dar conhecimento, saber, e vontade.

Vê-lo correr de braços abertos para a professora vai ficar na minha memória pra sempre, e eu gostaria muito de que naquele momento, a minha amiga Iara estivesse comigo, para eternizar esse momento no seu clique, com seu olhar. E quando olhei para trás, todas as mães estavam de boca aberta, olhando a cena! Foi lindo. E eu só tenho a agradecer pela escola que encontramos, e agradecer pela acolhida afetuosa que Hugo vive lá.