Vejo ainda muitas indagações a respeito da psicoterapia, e esses dias procurando mais sobre atendimento popular, já que abri o projeto no consultório agora (para saber mais clique aqui!), encontrei alguns comentários de pessoas bem indignadas com psicoterapia, mas não vi nenhum comentário esclarecendo algumas questões.

Acredito que a primeira coisa que muita gente se pergunta é pra quem a psicoterapia é destinada. Bom, não existe um público específico que precise de psicoterapia e outro que não precise, a psicoterapia é de livre demanda, qualquer pessoa pode buscar um serviço de atendimento psicológico, é uma práxis que atende o mais diverso público: casais, famílias, crianças, adolescentes, adultos; e as mais variadas questões e queixas de cada público. O ideal é buscar um psicólogo que trabalhe com o público que você acredita estar inserido, ou que trabalhe com as queixas e questões que você pretende levar para a terapia.

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Outra coisa que vira e mexe as pessoas se questionam é para que serve a psicoterapia.  A psicoterapia é uma prática do psicólogo que proporciona um lugar de escuta terapêutica, essa escuta e as intervenções a partir dela serão realizadas de acordo com a técnica que cada psicólogo se especializou/especializa-se (depois de formado o psicólogo vive uma formação continuada, pois cada caso clínico requer estudos e aprofundamento, cada caso é um caso, e cada caso exige muita revisão teórica, estudo de casos clínicos, dentre outros tipos de pesquisa, para que o psicólogo possa intervir da maneira mais adequada à cada cliente/paciente). A psicoterapia não é como a compra de um objeto, não é como comprar uma saboneteira que tem sua serventia objetiva e visível. Quando você busca a psicoterapia, às vezes porque alguma situação específica ou um fato te fez esgotar as possibilidades de agir diante daquilo, ou as possibilidades de lidar com aquilo, ou simplesmente por esgotamento emocional, ou por não estar passando por nenhuma situação de sofrimento, mas porque deseja aprender mais sobre si mesmo, porque sabe onde o calo aperta e deseja cuidar disso, porque sabe “do problema”, mas não consegue mudar a maneira de agir diante dele e de si próprio… Tá vendo como são inúmeras as razões? E estas são apenas as que me vieram em mente agora, mas cada um tem sua própria questão.

Então, diante dos diversos motivos que alguém pode buscar a psicoterapia, existe mais um monte de detalhe envolvido nessa práxis. Sabe aquela história de atirar no alvo e pegar no outro? Quando buscamos psicoterapia nos propomos a fazer um trabalho arqueológico da nossa própria história, da nossa constituição, da nossa personalidade, do nosso passado, das nossas relações, e à medida em que escavamos, vamos descobrindo milhares de detalhes que pensamos ter esquecido, detalhes que fingimos que não víamos, vamos encontrando nossa própria verdade, que muitas vezes ocultamos ou temos medo de encarar. Falo isso como psicóloga, e como alguém que passou por um processo de análise, que até hoje reverbera, como quando a gente joga a pedra no rio, e várias ondas se formam… A análise faz isso na nossa vida, nada fica intacto dentro de nós mesmos.

Ao mergulhar nas nossas profundezas, encontraremos coisas que gostamos, mas também encontraremos coisas que escondemos até de nós mesmos, e muitas vezes aquilo que escondemos com toda nossa força e energia, retorna em ações, comportamentos, sentimentos e emoções, que por escondermos, não sabemos lidar. Nunca podemos prever o que vamos encontrar a cada sessão, algumas pessoas chegam pensando em falar sobre A, e terminam falando sobre F+H+Z, e relembram fatos de 1900 e um quebrado. O setting terapêutico é imprevisível, e isso é o mais magnífico da psicoterapia, uma grande redescoberta de si próprio. 

Por ser tão imprevisível o psicólogo não pode prever tempo e resultados do seu trabalho. Trabalhamos em busca de proporcionar àquele que nos procura harmonia e bem-estar, trabalhamos em prol da saúde mental, que se constrói nas sessões a partir daquilo que é dito, escutado, a partir das intervenções. Durante o processo várias situações podem acontecer, como a resistência, muitas vezes um paciente avança várias questões sobre sua história, e toca num ponto x, que o faz retroceder novamente, e nós vamos trabalhando em cima dessas resistências, uma a uma, à medida em que elas aparecem, buscando a fluidez do discurso. Por isso as interpretações não são tão diretas, pois o sujeito também não uma lógica física de causa e efeito imediato, cada causa pode gerar uma série de efeitos diferentes, interligados à outras causas, como um novelo de lã embaralhado.

Não é necessário estar adoecido, ou em sofrimento, para buscar a psicoterapia, também não é um serviço destinado à quem está à beira de um ataque de nervos. Temos, ainda, uma cultura de que a psicoterapia só serve para quem já está em sofrimento emocional intenso, mas a psicoterapia pode ser um alívio para quem busca qualidade de vida e das relações, para quem busca melhorar a relação com si própria, com auto-imagem, com auto-estima, com os outros, com o trabalho, com a escola, com a família.

Também não é garantido que você vai se entregar ao primeiro psicólogo que encontrar. Existe o que chamamos de transferência (e para outras abordagens a empatia), e para que a psicoterapia se processe, você tem que se sentir à vontade com àquele que você escolheu como seu psicoterapeuta ou analista. Tem gente que na primeira já se sente extremamente à vontade, e outras pessoas que passam por alguns consultórios até encontrar aquele que consegue sentar-se e falar sem freios. 

Se você sente dúvidas sobre a psicoterapia e as diversas abordagens, procure um psicólogo, agende uma consulta, converse com ele, veja como funciona o  trabalho de um psicólogo, conheça o consultório, e tire suas dúvidas. Mesmo que você não faça a psicoterapia naquele momento, já pode valer à pena desconstruir os mitos e fantasias que as pessoas criam em cima do fazer do psicólogo.

Espero ter ajudado!

Raisa Pinheiro Arruda

CRP 11/07646