Achei esse artigo do Estadão no site/blog da Mariana Anconi, psicanalista que acompanho e sou fã. Resolvei trazer aqui, pois além de informativo, desconstrói algumas místicas criadas em torno do dizer psicanalítico sobre o autismo, e o trecho que compartilho, em especial, acredito que não se resume à clínica com crianças com transtorno global de desenvolvimento, ou autismo, ou alguma síndrome, mas à clínica com crianças como um todo.

O papel do psicanalista (assim como dos psicólogos, acredito eu!) não é o de culpabilizar, mas de puxar a responsabilidade que é inerente à existência, e ao desejo, e essa responsabilidade é reconhecida e vivida, a partir do momento em que se reconhece o desejo e no desejo, e é o que acontece no percurso analítico, o reconhecimento do desejo, e o reconhecimento de si, neste desejo. Quando se trata da orientação dos pais, a escuta auxilia os pais à encontrarem esse lugar, por isso que não é raro que psicanalistas encaminhem os pais dos seus pequenos analisandos a iniciar a própria análise.

Segue trecho e link do artigo, que vale a leitura completa!

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“[…]

a psicanálise não está a serviço de culpar os pais pelo problema dos filhos, assim como não nega a importância e relevância dos cuidadores na transmissão dos valores imaginários e simbólicos para a criança que, ao nascer, depende inteiramente deles para viver, se desenvolver e se constituir como um Sujeito inserido no mundo da cultura. Não nega, tampouco, a dimensão física da criança. Dimensão esta que é objeto do conceito psicanalítico de pulsão, justo o que trabalha a fronteira e as conexões entre o psíquico e o somático recusando a dicotomia entre o corpo e a psique.

Enfim, a psicanálise está a serviço de ajudar pais e filhos no enfrentamento do que os faz sofrer, apontando a flecha do tratamento no sentido da constituição de um Sujeito imerso no mundo da linguagem e da relação com o outro. Para isso é fundamental a participação dos pais no tratamento do filho. Já não se trata mais de alijar os cuidadores responsáveis pela criança do espaço clínico, mas, ao contrário, de ajudá-los a se autorizar do exercício de suas funções parentais com suas dificuldades e incertezas com as quais todos nós, pais, convivemos com nossos filhos, sejam autistas ou não.

É evidente que, com pessoas portadoras de autismo, as dificuldades são de outra ordem. A clínica psicanalítica, representada no MPASP em suas diversas vertentes, dá um valor especial à escuta dos pais, tanto no que diz respeito ao sofrimento subjetivo quanto às questões materiais de acesso aos serviços públicos de saúde mental, cuja rede em construção ainda mostra-se insuficiente para dar conta da dimensão do problema. Porém já tem possibilidades para apontar um caminho possível de construção que acreditamos estar contido no documento do Ministério da Saúde chamado Linha de Cuidado para a Atenção das Pessoas com Transtorno do Espectro Autista e suas Famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde/SUS, documento este que pode facilmente ser acessado via internet.

A psicanálise não julga, a psicanálise escuta o sofrimento e sua verdade para que o sujeito possa se assenhorar de sua vida.

Fonte: http://marianaanconi.com/2015/05/13/os-autistas-seus-pais-e-a-psicanalise/