Human
Child Being Disciplined

Primeiro gostaria de fazer algumas perguntas tendo em mente que devemos sempre estar abertos a novas ideias, novos conceitos. O mundo é cíclico, a maternidade também não deixa de ser. Então vamos la: como se caracteriza a sua família? Qual o sentido de ter filhos pra você? Como foi a sua descoberta na maternidade, ainda na gravidez? Foi bacana? Teve ajuda? Como é a sua relação com o seu companheiro(a)? Ele(a) existe?

Porque fiz essa pequena anamnese? Simples: porque ao pensar o castigo, pensamos na forma autoritária clássica da figura paterna ou materna: uma figura mítica, dona da razão e que rege os comportamentos de toda a família, guiado por uma ordem social de normatização, de obediência.

Castigar, no dicionário, é sinônimo de lição, penalidade, punição. Agora pensemos o que é normatizar: tornar comum, generalizar, engessar. Toda a pratica que se pretende trazer da generalização para o particular corre sérios riscos de “matar” a subjetividade do sujeito. O castigo é uma delas. Já aquele que encontra a partir de suas palavras e ações a saída para o seu problema, ou seja, aquele que tem autonomia para ser quem ele é pode evitar algumas catástrofes psicológicas.

Porque escrevemos sobre castigo? Porque pensamos que o castigo esta diretamente ligado a ordem do consumo. De que forma? Um dia um amigo me falou rindo sobre uma frase que ele escutou: “chato é o cara que quando você pergunta como ele está, ele conta.”  Pra mim essa é a máxima da nossa sociedade hipócrita e consumista: não quero saber quem você é, quero saber o que você tem e o que posso ganhar com isso”. Sociedade essa que segrega, que adoece, que da uma sensação falsa de liberdade, que prega o envaidecimento, o individualismo, a ordem da psique e do corpo separados, a ordem do sensacionalismo, a ordem do se fazer ser visto pra existir, a ordem da ordem…

É exagero? Não, não é. No fim das contas toda a questão nasce do seio familiar e a família esta inserida no social, que dita suas regras e sua moral. É mais fácil punir do que procurar entender e escutar seu filho. É mais fácil medicar do que tratar da raiz do problema, é mais fácil mostrar pra sociedade que seu filho é limpo, quieto, caladinho e bem educado, EEEE matriculado em varias  atividades extra escolares que vão cuidar do futuro brilhante dele. E o sintoma fica ali, latejando…

Procurar escutar nosso filho é a primeira regra do “porque mesmo quero ser mãe? Ou o que significou ser mãe assim tao de repente?…

Dessa forma, nos colocamos no lugar de questionamento de nossos comportamentos familiares muitas vezes enraizados. É nosso dever nos revisitar após a maternidade, pois lidamos com um ser em desenvolvimento que injustamente toma para si os problemas que são dos pais. Sabemos que esse processo de olhar para si é bastante doloroso e pra isso existe uma rede de apoio que estamos tentando construir de forma sensível, assim como pretendemos mostrar que nossos filhos, no futuro, podem mudar essa logica dolorosa da sociedade, que nos anula enquanto pessoas em função do capital. Basta mudar a forma de educar.

Sabemos que a violência não é somente física. Não falamos aqui desse tipo de violência, mas da pior dela: aquela que apaga o sujeito, que mata sua subjetividade e o limita a condições outras. Na logica consumista não se quer saber quem o outro é, mas sim saber a marca do relógio, se a maquiagem que ele usa é da M.A.C., se ele tem o carro da mercedes, etc… Pra que ideologia se posso apenas comprar um objeto que a represente sem que eu precise me pronunciar? “Minha imagem vale mais que mil palavras” por isso tanto visagismo, tanta técnica de se camuflar através da maquiagem, tanta roupa para parecer quem eu não sou.

Essa visão do outro nos é ensinada desde pequenos, com as inúmeras figuras infantis nos brinquedos e objetos ligados a infância, na aquisição de toda a coleção dos bonecos X, nos signos que nos são dados que fazem a criança querer sempre mais, e ser mais birrenta porque não consegue ter tudo e o céu e o limite para suas vontades…

Depois chega a adolescência e com ela a frustração. Os signos viram vitais para seu desastroso mundo dos grupos sociais: ou me encontro em objetos que “são a minha cara” ou estou perdido: “tem tantas opções…” A fala fica cada vez mais distante, o sujeito cada dia mais mudo. Pudera… os objetos falam por mim! Os rótulos falam por mim, a normatização do ser fala tudo de mim. E eu calo: os sintomas aparecem.

Porque castigo o meu filho? Porque ele me deve obediência, respeito. O que você terá é medo, é distanciamento e não respeito.

Porque castigo o meu filho? Pra ele não sofrer no futuro. Saber que nem tudo o que ele quer ele pode ter, pra ele ser um cidadão de bem, saber que existem limites. Como se pode ensinar limite e criar um cidadão de bem na ordem do imperar? A construção de cada conflito deve ser coletiva, tanto demandando uma participação ativa e criativa dos pais quanto das instituições nas quais a criança está inserida, como a escola (leia-se escola todas as pessoas que a constitue: do porteiro a diretoria). Saber entender como seu filho esta se constituindo enquanto sujeito é a palavra chave que substitui os castigos, que nunca oferecem uma solução real, porem temporária e rasa, que costuma enganar os pais. O limite pode ser dado de forma mais afável, que assegure um fortalecimento psicológico da criança para encarar a vida de forma mais autônoma e dinâmica.

Existe uma musica que perfeitamente caracteriza essa relação familiar adoecida na base do “eu mando e você obedece”:

Hora do Almoço: Belchior

No centro da sala,

diante da mesa,

no fundo do prato,

comida e tristeza.

A gente se olha,

se toca e se cala

E se desentende

no instante em que fala.

Cada um guarda mais o seu segredo,

sua mão fechada

sua boca aberta

seu peito deserto,

sua mão parada,

lacrada,

selada,

molhada de medo.

Pai na cabeceira: É hora do almoço.

Minha mãe me chama: É hora do almoço.

Minha irmã mais nova, negra cabeleira…

Minha avó me chama: É hora do almoço.

… E eu inda sou bem moço

pra tanta tristeza.

Deixemos de coisas,

cuidemos da vida,

senão chega a morte

ou coisa parecida,

e nos arrasta moço

sem ter visto a vida

ou coisa parecida aparecida

texto escrito para Daniele Assessoria para gestante

http://www.danieleassesgestante.com.br/2015/06/o-castigo-e-a-logica-do-consumo/