Antes de se casar com Fernando, Maria Antonieta Kosh já tinha uma filha do primeiro casamento e outro do segundo. Já Fernando tinha uma menina. Após se casarem – há cinco anos – “engravidaram” mais três vezes e agora outro bebê está a caminho. Essa grande família é composta, então, por pai, mãe e (quase) sete crianças de 0 a 11 anos. “E nós consideramos que todos são filhos de ambos”, comenta Maria Antonieta.

Achou confuso?

Pois cenários como esses são cada vez mais comuns nas famílias brasileiras atuais. De acordo com o IBGE, em 2010, a formação clássica de família “casal com filhos” representava 49,9% das residências. Outros formatos correspondiam a 50,1% – entre eles, a família reconstituída ou mosaico.

Mas unir “os meus, os seus e os nossos” filhos, ex-maridos e ex-esposas em uma mesma constituição familiar nem sempre é uma tarefa simples. Como fazer com que essa adaptação e convivência seja a mais pacífica e proveitosa possível?

“O ideal é que os adultos estejam bem resolvidos com a situação e com os sentimentos da relação anterior para que a insegurança não reverbere no comportamento de toda a família. Além disso, o diálogo precisa ser aberto, honesto e constante para estreitar a confiança entre os novos companheiros familiares e evitar conflitos futuros”, aconselha a psicóloga família Raisa Arruda.

De acordo com ela, a criança e o adolescente, quando ouvidos, sentem-se amados e respeitados.

Mas eu me mordo de ciúmes…

O ciúme já é um sentimento comum entre membros de uma mesma família. Imagina quando outras pessoas, que ainda não possuem muita afinidade, vão morar na mesma casa?

Priscila Torres é mãe de duas meninas adolescentes e acabou se separando do segundo marido por conta dos ciúmes de sua filha mais nova.

“Ela sempre foi muito apegada a mim e não queria dividir a minha atenção com o meu marido e o filho dele. Chegou até a escrever uma carta cheia de ameaças para eles. Só melhorou quando ela começou a namorar”, conta Priscila.

Segundo Raisa, o que vai determinar o aparecimento de um conflito é a personalidade de cada um e a maneira de se relacionar com o mundo e consigo. “O importante é construir as novas relações com base no diálogo, respeito e confiança”, comenta.

Eu educo o meu filho do meu jeito!

Marcos Santana e Fernanda Leone estão juntos há quatro anos. Marcos tem três filhos: dois moram com a mãe e passam finais de semana alternados com o pai; o terceiro vive em outra cidade. Fernanda tem dois meninos adotados, frutos do primeiro casamento dela, e que moram com o casal.

“As crianças se adaptaram muito bem umas às outras. Nós, os adultos, é que tivemos que fazer concessões com relação à educação delas”, comenta Marcos.

A psicóloga afirma: “Estabelecer regras e limites é imprescindível para respeitar a bagagem e a autoridade de cada um dentro de casa. Os pais precisam estar afinados nas decisões que envolvem a educação dos filhos”.

Marcos conta que Fernanda sempre foi o tipo de mãe que protege, resguarda e mima. Ele, como pai, achava correto deixá-las mais soltas para que aprendessem a se virar sozinhas.

“Quando fomos morar juntos, algumas dessas formas foram ajustadas. Com muita conversa e exemplos, ela foi abrindo um pouco as asas e me convenceu que deixar as crianças tomarem banho de piscina gelada no inverno não era legal”, conta Marcos, rindo.

Mas a verdade é que a aceitação de um novo casamento por parte dos ex-maridos ou esposas pode ser problemática, em alguns casos. A família de Maria Antonieta passou por isso.

“A minha enteada acabou sendo afastada da família por causa da mãe dela. Ela tinha um sentimento de ‘vocês fazem de tudo pelos seus filhos e nada pela minha’. Dialogamos, abrimos a nossa casa e tentamos formar uma só família, mas não conseguimos. Parece que a adaptação para as crianças é mais fácil do que para os adultos”, avalia.

Raisa dá uma dica: “Os adultos e as crianças precisam reconhecer os ganhos dos novos relacionamentos e não só as perdas”.

Ele é muito diferente de mim…

Cada família se constitui em diferentes pilares culturais que vão depender das crenças e da educação que receberam ao longo da vida. Quando famílias distintas se juntam, as diferenças podem gerar conflitos.

“Conviver com o diferente dentro de casa é uma experiência intensa e que gera aprendizados a longo prazo. Conviver com novas culturas faz com que você aprenda mais sobre si mesmo e sobre a construção de novos vínculos”, afirma a psicóloga. Portanto, não é preciso ter receio do novo.

Priscila, ao se casar novamente, se viu com três adolescentes dentro de casa. Ela e o marido trabalham fora o dia todo e acabavam ficando sem tempo para cozinhar e deixar as coisas em ordem. Como dar conta de tudo?

“Conseguimos dividir as tarefas com as crianças, o que já é possível na idade deles. Agora eu fico responsável pela comida, por exemplo. Não precisamos mais comer fora e ainda economizamos”, ela conta.

Priscila terá outro bebê em breve, já está trabalhando menos que antes e a divisão de tarefas será fundamental na adaptação desse novo período.

(Foto: Getty Images)

 

Publicado originalmente em : Os meus, os seus, os nossos