Por Raisa Arruda, Psicóloga (CRP 11/07646)

Ele mama, enquanto eu brinco de morder sua fofura, ele se desmancha em sorrisos enquanto mama, e eu me desmancho em amor.

Amar não é fácil, quando você vive numa cultura que te bombardeia com imposições para se centrar em si própria, amar dói porque te rasga ao avesso, até você compreender a beleza que é ser o que se é, até você apreender a se desprender de si, até você deixar de lado todas as falácias e discursos, sobre o que é importante (mas que não é importante de verdade!) amar dói.

Amamentar dói, até você se desprender de tudo o que te enchem a cabeça, e focar no que importa. Amamentar dói, quando é uma obrigação ou uma técnica, quando é um trabalho a ser cumprido, e dói até você se libertar.

Porque amar liberta, liberta você de si mesma, liberta do medo. Passamos a vida ouvindo que precisamos ser livres, e só aprendemos a ser egoístas, uma liberdade que nos prende em nós mesmos. Amamentar liberta, porque você aprende a se doar. Ser alimento é se dividir, é se diluir, é estar por inteiro e ao mesmo tempo se repartir.

Amamentar liberta. Liberta do medo de amar. Liberta do medo de ser livre. Liberta dos julgamentos. Liberta do nosso próprio egoísmo. Liberta da mania de controle. Liberta da ansiedade do tempo. Liberta da maneira presa e paranóica de ver a vida. Liberta porque você aprende  mais sobre você, liberta porque aprende sobre seus limites. Liberta porque você aprende a ser livre.

Amamentar é romper. Romper com o tempo. Romper com o controle. Romper com amarras. Romper consigo mesma.

Talvez seja por isso que não querem que mais mulheres amamentem, porque assim não nos encontramos, porque assim não percebemos o controle burocrático e normativo do nosso corpo, do nosso ser, da nossa capacidade de se reinventar. Os bebês nos ensinam isso. As mulheres que amamentam são insubordinadas ao tempo, à lógica de produção, porque para amamentar em paz é preciso se rebelar contra esse sistema.

Amamentar é revolucionário. A maternagem livre é revolucionária.

 

(* e essas imagens L-I-N-D-A-S foram feitas pela nossa querida Iara Aimê, que além de ser psicóloga, mãe e autora daqui, é fotógrafa de partos e famílias!)