Esses dias me deparei constantemente com várias reclamções maternas, e resumidamente tinham a vê com a falta de espaço para maternidade. Sim, falta espaço, porque aquele espaço kids de shopping e restaurante não serve, a propaganda enaltecendo a escravidão materna como algo bom, é quase um discurso medieval para manter os servos na posição de servos, pois um dia eles seriam salvos por sua obediência.

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Bom, a única coisa que me resta é desabafar aqui no blog, à minha maneira, problematizando. Eu adoro ganhar presentes, e não vou ser hipocrita de dizer que aproveito sim quando existem descontos reais em datas comemorativas para comprar o que eu preciso, tipo eu estava sem computador (isso explica o sumiço no blog), e meu marido, que me apóia em tudo, inclusive nessa empreitada virtual, me deu um computador novo para que eu não parasse com esse trabalho! Até porque sem um computador você não faz nada, né? Meus trabalhos da pós ficaram atrasados por isso. Não vou mentir que também pensei em abolir o computador, e dar uma de mainstream e voltar àquela coisa sensacional dos fanzines, e fazer o blog todo à mão, comprar um mimeografo, e enviar pelos correios mediante um valor X, isso foi antes de criar coragem de convidar a Iara pro blog…

Então, voltando ao assunto do dia das mães…

Uma vez eu vi um vídeo que trazia uma entrevista de emprego que não tinha folga, não tinha feriado, não tinha férias, você tinha que exercer mil funções, e um chefe super exigente, um trabalho bem de escravo e ainda sem remuneração, e aí no final era a descrição da vida da mãe, e na época eu chorei, chorei muito, porque fiquei emocionada (será que foi emoção mesmo?), e hoje eu fico horrorizada como as coisas conseguem ser invertidas a tal ponto, de não percebermos a manipulação para manutenção do status. Como que eu me emocionei com a constatação de que a maternidade é transformada numa escravidão, comparada à trabalho, e tudo quando se compara ao trabalho (dentro da percepção cultural do trabalho), perde o sentido, porque trabalho é produção focada em resultado, como medir a produção, a qualidade e o resultado de um trabalho que é livre, autônomo, e permeado de afeto e subjetividade (ou pelo menos deveria ser?)…. E isso é tão complicado, porque essa associação de maternidade à função acirra mais ainda os julgamentos e competições maternas que são horrorosas. E tem mais, enaltecer a escravidão materna faz com que todo o debate sobre compartilhamento de cuidados, participação paterna, rede de apoio, e afins, seja minimizado, porque é lindo ser escrava, quando se é mãe. Só que não, não é, se fosse não teríamos tantas mães depressivas, tantas mães surtando, tantas mães perdidas, tantas mães deslocadas, tantas mães adoecidas, tantas mães odiando ser mães e se escondendo atrás de discursos, porque discurso é só o que se diz, e há uma distância tremenda entre o que se diz e o que se faz.

E aí é engraçado, porque eu vejo muitas mulheres (e muitas amigas) reclamarem da imposição da maternidade à mulher, e ao mesmo tempo, depois de ser mãe, percebo mais ainda o quanto a maternidade, apesar de ser cobrada e imposta, é mal vista e rechaçada. Quando a gente  se torna mãe parece que a luta é mil vezes maior, os empregos não querem uma mulher na idade reprodutiva, e nem quando ela se torna mãe; você fica privada de ir a vários lugares, porque não existe suporte à maternidade, o apelo e os estímulos da rua são tantos que você acaba expondo seu bebê ao desnecessário e no final da noite não consegue descansar, porque ele está super excitado, e não dorme (mas te enchem a cabeça dizendo que isso é bobagem, você cai, e se lasca, ou vocês acham que crianças fazem mais birras em shoppings e supermercados, por quê? Estresse, né meu povo!), e aí não existe mais uma rede apoio tão completa como antes, porque parece que o trabalho nunca tem fim e os avós irão trabalhar pra sempre também… E quando as pessoas caem no conto da mulher que vira mãe vira também heroina e da conta da casa, cozinha, família, trabalho e criança SOZINHA, e algumas mães acreditam piamente nisso, e se sentem frustradas e incapazes, e minam sua autoestima e autoimagem porque não dão conta, mas continuam numa tentativa vã de dar conta, só que NÃO DÁ. E milhares de mitos sobre a mulher, desde a mulher é multi-função ao homem é incapaz por natureza de se ocupar com determinadas atividades. E o caso não é de pedir ajuda, sabe? Mas de gritar pelo direito de ser mãe, e gritar pelo direito da infância, porque se houvesse espaço para infância, no sentido de haver valorização, as mães teriam apoio.

Esse é meu segundo dia das mães, e sinceramente, o que eu queria mesmo, com todo meu coração é pedir pelo direito de ser mãe. Pelo RESPEITO à maternidade, que passa pelo respeito à infância, e pelo respeito à mulher. O direito de ser mãe também passa pelo direito de não sê-lo, porque não quer. Passa pelo compartilhamento, passa pela divisão, passa pela responsabilidade social, passa pela garantia de direitos básicos… Meu desejo do dia das mães é que as mulheres não precisem deixar seus filhos para cuidar dos filhos dos outros, que a responsabilidade de cuidados por uma criança não recaia apenas no ombro da mulher, que parem de crucificar a mulher que escolheu (ou não) ser mãe como se isso fosse uma fraqueza, que parem de subjugar a mulher que é mãe como se ela tivesse perdido sua capacidade de qualquer coisa, que parem de associar a doação de si da maternidade à escravidão do trabalho, que parem de associar maternidade à trabalho, que parem de dizer que mães cuidam de tudo sozinhas e por isso que elas são boas mães, que parem de minar o saber materno e destituir a mulher desse lugar de quem sabe, em nome da insegurança… Quando se mata a dignidade da maternidade, se mata a infância saudável…

Eu não sou escrava, eu sou mãe, e a maternidade pra mim não é um trabalho, mas é parte de mim, é ser o que eu sou, hoje, eu sou mãe. Não é uma função, é o que eu sou. Não é um papel, mas o que eu sou. Eu sou mãe. E ser mãe é ser tudo o que eu sou, e eu sou mulher, sou esposa, sou psicóloga, sou curiosa, sou amiga, sou estudiosa, sou filha, sou falante, sou dona de casa (e meu marido é dono de casa também!), sou mãe de cachorro… Entendem? Não da pra separar, a maternidade é parte de mim hoje, é uma inclusão de uma característica à minha personalidade, e quando a gente se esforça pra separar a linha de cada coisa, a gente perde… a gente luta o tempo todo contra a maternidade, desejando delimitar o espaço dela na nossa vida, como se “até aqui eu sou mãe, até aqui eu sou mulher…”

 

Mais sobre:

Presenteie sua mãe com equidade – http://www.revistaforum.com.br/questaodegenero/2015/05/09/presenteie-sua-mae-com-equidade/

Se amamos tantos as mães, por que as tratamos tão mal? – http://www.revistaforum.com.br/questaodegenero/2014/05/09/se-amamos-tanto-maes-por-que-tratamos-tao-mal/

Nesse dia das mães não quero flores, quero direitos – http://milc.net.br/2015/05/neste-dia-das-maes-nao-quero-flores-quero-direitos/#.VU7GmflViko

Os 6 p’s do ativismo materno – http://milc.net.br/2015/05/especial-maes-os-6-ps-do-ativismo-materno/#.VU7GnPlViko

Homens, ativismo e infância – http://milc.net.br/2015/04/homens-ativismo-e-infancia/#.VU7Go_lViko