Muito se escuta e se lê sobre a importância da rotina para o bebê, certo? Mas muitas vezes a imposição da rotina por ela mesma acaba sendo muito rígida, e ao invés de ajudar o bebê a se organizar, diminuir a ansiedade, e conviver com limites, pode deixar a criança ainda mais ansiosa. 

A rotina é um planejamento, que facilita a organização. O bebê começa a organizar sua rotina logo que nasce, quando começa o tempo entre mamadas e dormidas. Quando a mãe quiser estabelecer a rotina do bebê, deve-se pensar numa equação entre a rotina individual e a familiar, e levar em consideração que o bebê ainda está iniciando sua relação com o mundo fora da barriga, e não ainda maturidade para seguir à risca horários estabelecidos por outros, porque sua rotina inicialmente é pautada nas suas necessidades orgânica! Então, como ensinar o bebê que a família tem um ritmo? É muito importante ensinar o bebê primeiro que existe o dia e à noite, então manter o bebê num quarto escuro e obrigar que a casa fala silêncio enquanto ele dorme vai dificultar mais tarde que ele se adapte à outra realidade. Os bebês não acordam se o barulho for constante, e for o barulho normal da casa, ele vai acordar com um barulho maior e repentino, com algo que desequilibre.

Quando falei sobre a importância do colo, comentei que o contato físico entre os pais e o bebê é a primeira maneira de limitar a criança, pois ela vai conhecer o limite através do próprio corpo, mas ao mesmo tempo em que ela aprende sobre limites através do corpo, ela vai aprender sobre limites através das relações sociais e da cultura familiar. A relação com o tempo também ensina sobre limites, pois a criança percebe que há inicio, meio e fim.

Rotina

Então, outra questão que os pais devem estar atentos é sobre a rotina familiar, não adianta impor para uma criança uma rotina que está totalmente fora do padrão familiar. Por exemplo, se a família não tem horário para alimentação, não tem horário para acordar e dormir, a criança vai ter dificuldade de se adequar à uma rotina que não seja aquela que ela aprendeu observando enquanto bebê. Lembre-se que as crianças são reflexo do ambiente em que elas vivem, seu comportamento vai ser adequado ao que ela observou e aprendeu no convívio familiar.

Quando se fala em rotina, temos a imagem de um horário estabelecido e rígido, não é? Bom, como a rotina é um planejamento do cotidiano, ela deve ter espaço para o imprevisível, certo? Se a rotina é fixa e rígida, como que a criança vai conseguir se organizar emocionalmente caso algo fuja do roteiro? Como ela vai aprender que nem sempre as coisas saem como planejado? Por isso é importante que a rotina seja flexível, mas isso também deve ser um reflexo da rotina familiar. Por exemplo, numa viagem é impossível manter a mesma rotina, abrir espaço para imprevistos ensina a criança a lidar com eles. Lidar com imprevistos é uma questão de criatividade, e isso é aprendido e desenvolvido com as experiências de vida. Quando se ensina à uma criança que não existe alternativa a não ser aquela pré-estabelecida, se algo não acontecer tal qual foi combinado, ela terá dificuldades de lidar com isso, e lidar com imprevisto é aprender a  lidar com a frustração também.

Encontrar o equilíbrio é fundamental para auxiliar as crianças nessa caminhada de desenvolvimento pessoal e cognitivo, e a flexibilidade da rotina pode ser antecipada com explicações. Por exemplo, quando um pai se atrasa para pegar um filho na escola, esse filho reage com medo e choro, não é? Porque ficou estabelecido um horário, porque o pai nunca se atrasou, ou algo parecido. Explicar para a criança que pode haver um atraso, prepara ela para a situação, e diminui a ansiedade. E assim ela vai aprender que vão existir momentos em que se deve seguir à risca, e respeitar o prazo estabelecido, e vai saber que imprevistos acontecem, que nem tudo acontece como planejado, e que é necessário criatividade e maturidade para lidar com isso, para aceitar, para se responsabilizar, e criar novas alternativas.

 

(Texto escrito para o site Daniele Assessoria Gestante, publicado em 27/04/15)