Há uma crença na nossa sociedade de que a imposição de limites é sinônimo de castigos e punições, que uma criação pautada no respeito é uma invenção moderna de pais que não querem educar.  O que eu percebo é que quando se trata em educação e criação tendemos a pular para os extremos, como se limites anulassem o respeito, como se diálogo anulasse autoridade. Tendemos a confundir autoridade com autoritarismo, e esses conceitos não são  sinônimos. 

Estamos em constante processo de aprendizagem, inclusive nós adultos estamos o tempo inteiro aprendendo algo, seja técnico, seja cultural, seja uma mudança de ideal, valor ou fé, mas as transformações ocorrem através do conhecimento e da aprendizagem. Então, as crianças, que são novas nesse mundo, também estão num processo de aprendizagem constante, talvez o processo das crianças seja muito mais intenso, tendo em vista que tudo, T-U-D-O é novo para elas, e elas só passam a ter conhecimento sob determinado objeto ou conduta quando isso é apresentado à ela algumas vezes até que haja assimilação do que foi visto e vivido. E isso não se aplica apenas às questões de cognição, comportamento também é aprendido. e durante todo esse período que a criança não fala, ela está assimilando a cultura da família, e todos os estímulos que ela é exposta, por isso cansamos de repetir que a criança é um reflexo do ambiente em que ela vive.

Se com dois ou três anos uma criança demonstra determinado comportamento é bastante provável que ela foi exposta à situações que ela aprendesse que tal comportamento é o correto (mesmo que não o seja de fato), então, quando se questiona a conduta de uma criança, e ela é punida por tal conduta, a culpa é apenas dela, ou existe parcelas de responsabilidade de quem convive com a criança?Sad Child

Questionar o comportamento de uma criança é questionar o próprio comportamento. Quando falo que ter filhos é uma oportunidade ímpar de autoconhecimento é porque lidar com filhos é lidar o tempo inteiro com si mesmo, já que eles reproduzem da maneira mais clara, aquilo que muitas vezes os adultos fazem com metáforas e disfarces. Mas, quem quer lidar com aquilo que é “errado” em si mesmo? A sociedade prefere punir a criança, do que olhar para o adulto que a ensinou a ser o que ela é, apesar de todos saberem que somos um eterno vir a ser, e que condutas e atitudes podem ser transformadas através da aprendizagem, ou seja, da educação.

De acordo com Hannah Arendt (1990) educar é introduzir as crianças ao mundo, por estas serem recém chegadas a ele, necessitam da educação para conhecer a cultura, história, e etc. para que desta forma possam apreendê-lo e transformá-lo, assim, educar não é somente transmitir conhecimentos, mas preparar as crianças para o mundo, para que possam cuidar deste e transformá-lo para o futuro.

creche

A educação, partindo desta perspectiva, tem o papel transformador da sociedade para que esta se resguarde, como se a partir da educação fôssemos instruídos a cuidar do mundo para que este continue existindo para os que nele habitam, assim, a educação também é política, no sentido de formar cidadãos, e responsabilizá-los para sua existência e ação.

A educação serve para nortear, a partir da tradição e da história, a ação e o pensamento. É necessário que seja permitido àquele que exercer o papel de educador – nota-se que educador não é somente o professor em sala de aula, mas aquele que tem por papel passar adiante conhecimento – autoridade para que ele exponha o conhecimento; as crianças, de acordo com a autora, por serem novas nesse mundo que já existia antes delas, e vai continuar existindo após delas, devem ser submetidas à autoridade dos adultos para que re-conheçam o mundo como ele é. A autoridade não é relacionada ao exercício de poder autoritário, mas está atrelado ao conceito de responsabilidade pelo mundo, onde há exercício de força e poder já não existe autoridade. (ARENDT, 1990)

A perda de autoridade não pode existir. As crianças não podem recusar a autoridade dos educadores, como se estivessem oprimidas por uma maioria adulta – ainda que, efetivamente, a prática educacional moderna tenha tentado, de forma absurda, lidar com as crianças como se se tratasse de uma minoria oprimida que necessita de ser libertada. Dizer que os adultos abandonaram a autoridade só pode portanto significar uma coisa: que os adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo em que colocaram as crianças. (ARENDT, Hannah, p. 44)

Maria Rita Kehl, no artigo Adultescência: a “teenagização”da cultura ocidental (2008) traz a reflexão de que na cultura ocidental, onde a juventude ocupa lugar principal, e de desejo dos adultos, o adulto que se espelha em ideais “teens” não se sente à vontade diante da responsabilidade.

[…] Isso significa que a vaga de “adulto”, na nossa cultura, está desocupada. Ninguém quer estar “do lado de lá”, o lado do careta, do conflito de gerações, de modo que tal conflito, bem ou mal, se dissipou.  […] Não que os pais “de antigamente”soubessem como os filhos deveriam enfrentar a vida, mas pensavam que sabiam, e isso era suficiente para delinear um horizonte, constituir um código de referência – ainda que fosse para ser desobedecido. Quando os pais dizem: “Sei lá, cara, faz o que você estiver afim”, a rede de proteção imaginária constituída pelo o que o Outro sabe se desfaz, e a própria experiência perde significação. E, como nenhum lugar de produção de discurso fica vazio muito tempo sem que algum aventureiro lance mão, atenção!, o Estado autoritário, puro e simples, pode vir fazer as vezes dos adultos que se pretendem teen. […] (KEHL, 1998/2008, p. 12)

Quando os adultos se eximem de ocupar seu lugar de responsável, aquele que orienta a partir da experiência (orientar está longe de ser uma atitude autoritária, pode-se pensar numa atitude dialógica!), discursos totalitários (e aí podemos encontrar os movimentos nazi e fascistas) fazem esse papel, esvaziamos o lugar de autoridade para permitir que este seja ocupado pelo autoritarismo, já que as crianças e adolescentes precisam de limites para se organizar e se resguardar da angústia do desamparo.

Essa fuga da responsabilidade de educar – e, assim, dar limites – não é uma questão de escolha aleatória, onde o adulto simplesmente decide que não vai ocupar essa posição, na verdade, a sensação de desconforto é percebida, mas nem sempre se consegue explicar porquê, e muitas vezes essa explicação se torna em sintomas como angústia que se desdobra em diversas outras síndromes contemporâneas.

Entretanto, essa característica do adulto contemporâneo  se constitui à medida em que a cultura liberal e de consumo se instala, trocando os ideais de dever pelo de prazer. Segundo Kehl, (2004/2008), esse estágio do capitalismo de consumo, os ideais que deveria nortear a vida pública não são coletivos, mas individuais de consumo. Vive-se um momento de imperativo do gozo, a publicidade bombardeia imperativos que levam cada sujeito a buscar seu prazer acima de qualquer coisa:

[…] “Seja um tiger“, ordena um outdoor que oferece não me lembro qual produto para aumentar as chances dos mais aptos (ou dos mais esperto) da selva darwiniana da concorrência instituída pela acumulação de capital. Um tiger, o predador mais forte e mais voraz diante do qual todos os outros devem se intimidar.

A repetição incansável desse tipo de apelo faz-nos perceber a vida social como cada vez mais ameaçadora. A vida social se organiza em torno de mandatos da ordem do no limits. O efeito disso é um horizonte dominado pelo fantasma da regressão a uma ordem primitiva incapaz de impedir o acirramento da luta de todos contra todos. As crianças, que acreditam no que os adultos lhe ensinam, sabem que se não conseguirem crescer como predadores, estão condenadas a sofrer nas garras dos mais fortes. (p. 42)

Diante dessa configuração sócio-cultural contemporânea, o que sustenta a Lei são os significantes culturais do consumo, esta Lei se representa simbolicamente pelo papel do pai, que, por sua vez, passa a ter seu papel potencializado pelo seu poder de consumo, desta forma, um pai com pouco recursos, mesmo que sério, esforçado e amoroso, se encontra desmoralizado perante seus filhos.

Dessa maneira, o papel de qualquer educador encontra-se prejudicado, seja pelo imperativo de não ocupar o lugar social do adulto, seja pela falta de norte, pois de maneira, diante das características de uma sociedade de consumo, se pode ensinar às crianças e adolescentes  que renuciem seus desejos e necessidades de satisfação imediata? (KEHL, 2004/2008)

Talvez, isso explique o porquê de tanto conflito no ato de educar e limitar, de dizer não e explicar porquê, de dizer não e oferecer outras possibilidades. De ver no limite um leque de alternativas saudáveis, de ver no limite uma saída para a criatividade.

As crianças dependem da intervenção do Outro para entrar na lógica da Lei – conjuntos de regras que regulam o convívio social. A criança aprende com o adulto a respeitar as regras do convívio humano, aprende pela observação, aprende pelo diálogo, aprende quando é apresentada à outras possibilidades de ação! E a criança leva à sério o que aprende. Basta observa como as crianças passam a denunciar nossos erros depois que elas aprendem o que é certo e errado… E quando elas não denunciam falando, denunciam no seu comportamento. A punição ao comportamento infantil, sem que seja seguido de uma orientação ou explicação, seria uma maneira de calar a denúncia que as crianças estão fazendo sobre o modelo social (falido) que os adultos seguem?

 

Referências

ARENDT, HANNAH. A Crise da educação in: Entre o Passado e o Futuro. Trad. M. W. Barbosa. Sao Paulo, Perspectiva, 1990

KEHL, Maria Rita. A adultescência: a “teenagização” da cultura ocidental in: A fratria órfã: conversas sobre a juventude. São Paulo: Olho d’água, 2008.

_______. O que é um adulto? in: A fratria órfã: conversas sobre a juventude. São Paulo: Olho d’água, 2008.

_______. Meninos em pânico. in: A fratria órfã: conversas sobre a juventude. São Paulo: Olho d’água, 2008.

ROURE, Susie Amâncio Gonçalves de. Educação e crise na autoridade em Hannah Arendt. Revista Educação , Goiânia, v. 10, n. 2, p. 179-190, jul./dez. 2007.