Logo que um bebê nasce e começa sua relação extra-uterina com sua mãe e cuidadores, inicia também um processo de memória, onde ele vai gravar seus primeiros registros de prazer, desprazer, reconhecimento, afeto e afins.

No decorrer do desenvolvimento esses registros não serão lembrados, mas estarão sempre ali, guardados, mas dando o tom de algumas emoções, sentimentos e características da personalidade, e, desta forma, interferem também no desenvolvimento das habilidades sociais.

Além dos marcos físicos e orgânicos do desenvolvimento, existem as marcas psíquicas, e ente elas a habilidade de se relacionar e solucionar questões, afora raciocínio lógico e capacidade de interpretação, que estão atreladas à criatividade e raciocino abstrato. Os marcos de desenvolvimento psíquicos também devem ser estimulados, sempre respeitando o ritmo da criança, e sua personalidade.

O principal núcleo socializante da criança é familia, então será no seu núcleo familiar que a criança iniciará o desenvolvimento das habilidades sociais, de acordo com os estímulos que receber, e esses estímulos podem ser incentivos, apoio e elogios. Lembrando que esses estímulos devem ser dados de acordo com o contexto, elogiar uma criança indiscriminadamente, sem um contexto, pode trazer um resultado oposto, ao invés de incentivar, a criança pode se sentir insegura por conta das expectativas depositadas nela.

Desde de bebê os pais já começam a perceber os traços de personalidade do seu filho, alguns traços são nomeados pelos pais a partir daquilo que eles desejam para seu filho. À medida em que a criança cresce, pode se aproximar ou afastar daquilo que os pais desejam e nomeavam enquanto características dela, a partir da leitura e compreensão que ela fez dos desejos dos pais, mas isso não é uma coisa consciente, pensada e analisada, são coisas que acontecem inconscientemente e só o resultado desse processo aparece conscientemente e nas nossas atitudes.

Tendemos a dividir as crianças entre as tímidas e extrovertidas (mas criar rótulos é uma maneira de limitar o desenvolvimento das pessoas) e nossa sociedade costuma super valorizar a criança extrovertida, como se o fato de ser extrovertido fosse facilitar a vida da criança, e muitas vezes a criança que é mais contida e introvertida passa despercebida, ou carrega o peso de não corresponder aquilo que ela acha que esperam dela.

Já a timidez é quando essa introversão chega a um ponto que dificulta suas relações sociais, prejudica seu rendimento escolar e aprendizagem, e tem uma característica chamada “mutismo seletivo”, que a criança fala muito em casa e fora ela não dá uma palavra. Pais que tem crianças quietas e caladas devem ficar atentos se sua introspecção é uma característica da personalidade ou um déficit das habilidades sociais, pois o desenvolvimento saudável é um desenvolvimento com equilíbrio.

A criança tímida, muitas vezes está passando por uma situação na qual não sente segurança em manifestar sua insegurança aos familiares, ou é uma criança cobrada excessivamente, ou uma criança que tem autoestima e autoconceito baixos, ou alguém pode está contribuindo para isso fora do ambiente familiar, e os pais nem sabem, pois ela tem medo de falar. São inúmeras as razões que fazem com que a criança desenvolva a timidez como uma maneira de estar no mundo e se relacionar com ele.

TIMIDA

Algumas coisas que podem ser repensadas e mudadas em casa para observar o comportamento da criança, e ajudá-la a superar o que estiver atrapalhando seu desenvolvimento saudável:

  • Permitir que a criança ajude nas atividades domésticas ou de trabalho em casa. Assim você demonstra que confia, incentiva a arriscar. (Claro, se você se sentir seguro com isso, e que seja uma atividade que não ofereça riscos né?)
  • Conversar na escola para saber como está a socialização da criança com seus pares e com os adultos;
  • Observar a relação dela com outros adultos, estar atento se ninguém está constrangendo ou humilhando a criança;
  • Não dar bronca em público, faça isso em casa. E antes converse com a criança para entender porque ela fez o que fez, se a criança se sentir segura com você, ela vai explicar o ocorrido, mesmo que tenha feito algo errado. Explique e oriente a não repetir o erro.
  • Não castigue a criança quando ela for honesta ou falar a verdade. Pense que se você quer que ela não minta, porque você vai castigar quando ela falar a verdade?
  • Não interferir nos conflitos infantis, a tendência é que as crianças encontrem saídas, e elas precisam encontrar as próprias soluções para os seus problemas.
  • Elogios, apóie, demonstre orgulho quando a criança fizer algo interessante, resolver um desafio, conseguir dar um salto diante de um obstáculo.
  • Brinque. Brinque MUITO com seu filho, deixe a brincadeira fluir, só no brincar somos livres o suficiente para estar próximos da nossa essência. E faça que nesse espaço da brincadeira a criança possa manifestar seus sentimentos. É assim ela vai poder reconstruir relações com a realidade.
  • Nas atividades escolares, ou nas atividades do cotidiano, permita que a criança erre. SOMENTE com o erro é que ela APRENDE. Quando a criança erra, e esse erro é apontado de maneira construtiva, ela tem oportunidade de criar uma solução para a situação, e vai buscar possibilidades até encontrar a resposta correta. Estimule a criança a pensar. Quando você castiga e briga pelo erro (emitas vezes erros bobos), ela tem medo de errar, e isso dificulta que ela desenvolva coragem de arriscar.
  • Tenha paciência, mesmo que você já tenha repetido a mesma coisa várias vezes, a criança aprende com a repetição (não isso que dizemos quando ela chega nas vésperas do vestibular e precisa repetir as mesmas questões várias vezes?), você pode repetir a mesma coisa de maneiras diferentes, e com paciência, pode encontrar formas divertidas de repetir.

Lembrando que todas as orientações aqui são sempre gerais e nunca irão substituir a avaliação e o acompanhamento de um profissional especializado. Caso você perceba que a criança é tímida e isso atrapalha seu desenvolvimento saudável, deve-se procurar ajuda de um especialista para buscar maneiras de ajudar a criança.

 

(texto escrito para site Daniele Assessoria Gestante, no dia 14/0315)