Quando nascemos nossa principal mediação com o mundo é através do corpo, além do choro (claro!). Na verdade, antes de nascer, todo nosso conhecimento do mundo é dado na relação corporal com a mãe, já é que é no corpo dela que ficamos abrigados. Então, ao nascer, o corpo continua sendo a principal forma de conhecer e reconhecer a nova realidade.

Já existem inúmeras pesquisas que apontam a importância do toque, da relação corporal, da comunicação corporal e do olhar, como atitudes preventivas de psicopatologias – o espectro autista, por exemplo.

A nossa relação com o corpo é tão importante e estruturante que quando se pensa em bem estar, qualidade de vida e autoestima a primeira coisa que relacionamos é o corpo. Quando se pensa em estar bem consigo, a primeir coisa que se pensa é em fazer as pazes com o espelho, cortar o cabelo, maquiagem nova, academia, e afins, não é? Se a nossa relação com o corpo é tão presente, por quê temos tanta dificuldade em nos permitir estar disponíveis em afeto corporalmente?

Isso é cultural. O corpo é fonte primordial de prazer e desprazer, já foi comentado aqui que quando a pulsão sai em busca de satisfação, ela sai do corpo, e quando retorna satisfeita ou insatisfeita, é para o corpo, e daí os sintomas, e as doenças psicossomáticas. Quando se controla o corpo, e o prazer que o corpo proporciona, também é controlado o estado de felicidade, e daí várias outras instâncias de controle existem em relação à isso. Quanto mais distantes do corpo, mais distantes do prazer. O consumo é um exemplo de um prazer insaciável, que nos distância das relações presentes, que nos distância de nós mesmos, e das reais necessidades. Quando estamos preenchidos de afeto, não temos necessidade de consumir, não é?

Mas voltando ao colo… Quando o bebê nasce, ele não tem bordas. O corpo dele é diluído com o mundo, que num primeiro momento se resume à mãe. O toque dá bordas ao corpo do bebê, delimita o que é do bebê e o que do Outro; junto ao toque a conversa, que também é uma maneira de se presentificar e marcar o bebê com limites. O primeiro limite que recebemos é com o corpo e no corpo. As técnicas de contenção de bebês funcionam, porque elas organizam o bebê ao limita-lo (o limite também é estruturante, e primordial, e não significa e nem precisa de autoritarismo para ser colocado!). Agora, as técnicas de contenção poderiam ter um efeito muito mais terapêutico e de longo prazo se colocassem no seu centro o corpo do cuidador. Um abraço de uma mãe, carinhoso, ao bebê que chora desesperado tem uma função muito maior do que a de contenção, transmite segurança, e transmite amor, pois junto do abraço vem o som da voz da mãe, que para um bebê é como uma canção. Se a mãe não está segura do seu poder de segurança e tranqüilidade, o bebê também não vai se sentir seguro naquele colo. Por isso, no começo, algumas avós fazem isso melhor do que as mães. O importante é que nesse comecinho da relação entre você e seu bebê, você peça que as pessoas que te ajudam e apóiam te permitam construir a comunicação com o bebê. Ajudar não é tirar você do lugar de mãe para descansar, mas que você se ocupe apenas disso e nada mais. Quando a recém mãe não tem outra preocupação além da relação com seu bebê, até o ritmo do corpo muda, e de adapta. Agora, se ao invés de cuidar disso, a mãe tem que cuidar das mais diversas obrigações, a sua relação com o bebê vai ficar comprometida, por conta do cansaço. Então, essa história de que a mulher tem que dar conta do mundo é balela, ok? A licença maternidade não é um período em que se ganha o salário para cuidar do bebê à toa.

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Essa história de que o colo vicia, e você vai ter uma criança dependente e mimada também é outra questão cultural. Enquanto ela não sabe andar e falar o corpo da mãe é seu corpo emprestado; enquanto o mundo é estranho, desconhecido e não desperta interesse, o corpo da mãe é o abrigo seguro, e enquanto ela constrói a relação dela com o mundo através do seu cuidador, ela vai adquirindo confiança e autonomia. O caminho de toda criança é a autonomia. Um dia ela não vai querer o colo, vai quer o chão. E depois que ela começar a querer o chão, o colo vai ficar cada vez mais distante, e a relação com corpo é outra, ela vai se fortalecer através da brincadeira e da disposição afetiva para brincar. E brincar também envolve o corpo, envolve voz, olhar, envolve movimento.

O colo é importante, nos primeiros meses de vida é primordial, pois não é só a questão física e orgânica que está em jogo no desenvolvimento, as questões afetivas e emocionais são estruturantes da personalidade. E é isso que o colo fornece, afeto e segurança. Claro que quando a mãe está cansada, ou o bebê pesa, pode ser o colo de outra pessoa. E claro também que ninguém vai se prender, e deixar de ir ao banheiro, por exemplo, pra não deixar bebê. O berço ou no carrinho. Mas vale questionar sobre todos os artefatos que se compra para distanciar o bebê, e fazer com que ele se torne autônomo antes de ter maturidade para sê-lo. A infância é o período mais curto da vida de uma pessoa, e o bebê é bebê por um período mais curto ainda, mas é um período que marca toda a vida.

Claro que sobrevivemos à falta de colo, mas sobrevivemos à custa de quê? Quantos de nós não somos inseguros em relação ao nosso corpo, quantos não temos medo de entrar em relacionamentos afetivos, ou temos dificuldade de aceitar carinho e afeto? Quantos não temos medo de sermos tocados e abraçados? Mas quanto isso acontece, algo dentro aquece.

Pense nisso, quando o bebê chorar e você não souber o que fazer. Pegue-o no colo, embale, cante, dance, diga que está ali, que ele está seguro, que vai passar, que vai melhorar, que logo logo vai ficar tudo bem. Não tenha medo de abraçar, de cheirar, de dormir junto. Tudo isso passa, mas as marcas afetivas que ficam são impagáveis.

 

(Texto escrito para parceria com o site Daniele Assessoria Gestante no dia 09/03/15)