O desmame é um momento que gera muito medo, insegurança e incerteza em boa parte das mulheres que amamentam, certo? E diante de tantas campanhas por um desmame natural, as mulheres ficam divididas entre o desmame natural e as crenças populares sobre a amamentação. (Eu mesma ouvi de um obstetra que amamentar mais de seis meses podia ser perigoso pra opção sexual do meu filho, então eu imagino quantas mulheres não escutam isso por aí, diariamente, de pessoas que ocupam algum lugar de importância e saber na vida delas…) Bom, da mesma forma como o ideal é que a mulher amamente, o ideal é que o desmame seja gradual e no ritmo da relação entre mãe e filho.

IMG_0755.JPG

Imagina que você tem uma pessoa que é sua melhor amiga, aquela que você sente segurança para contar segredos, medos, sonhos; uma pesso que te incentiva e te apóia, uma pessoa que quando você está com algum problema ela te da a mão para você seguir em frente…. E aí, imagina que vocês têm um ritual, algum momento tradicional, todos os dias, vamos supor que vocês tomam café à tarde, todos os dias, para desopilar e isso já faz parte da rotina de vocês desde que vocês se conhecem. Na verdade, foi esse café que fez com que vocês se conhecessem e se tornassem grandes amigas. Então, um dia, você vai ao café e a pessoa não aparece. Você liga e ela não explica o que houve. E isso se repete durante todos os dias, e você não tem uma explicação para o fato, apesar de continuarem se encontrando em outros lugares, e conversando em outros momentos, o ritual de vocês acaba, sem a menor explicação, e ela se distância de você. Com certeza, isso irá modificar a relação de segurança e confiança que você tem nessa pessoa não é? E o sentimento de rejeição e desamparo que fica quando uma relação que era forte e feliz, simplesmente se enfraquece sem motivo plausível? Agora, imagina que você é um bebê, e o momento mais intenso e forte que você tem com a única pessoa que você mais ama no mundo, acabam sem explicação, e muitas vezes de maneira dramática (com base na mentira, por exemplo)?
Desmamar não é uma das mais fáceis situações da maternidade, envolve sensibilidade e segurança, envolve afeto e compreensão, não só da mãe que precisa desmamar, mas de todos que rodeiam esse binômio mãe e bebê.
O desmame inicia antes mesmo que a mãe pense nele, quando a criança começa a introdução alimentar, ela já está no processo do desmame, e ele perdura até que a criança tenha segurança na autonomia que vem construindo dentro dessa relação com seus cuidadores. Como assim? A amamentação não tem apenas um caráter nutritivo, também está relacionado ao alimento emocional,ao aconchego e segurança, é um momento de intimidade e de aceitação. A criança percebe o quanto é amada, o quanto sua mãe está disponível emocionalmente para ela, a criança se sente conectada com a mãe naquele momento.
O decorrer do desmame também está relacionado a aquisição da fala, quando a criança adentra no mundo da linguagem falada, sua percepção da realidade e maneira de se relacionar muda, e isso acontece também na sua relação com a mãe. O primeiros objeto de desejo da criança é o seio, e no momento da amamentação não é só o seio da mãe que está disponível ali, sua voz e seu olhar, as brincadeiras entre mãe e bebê, e isso vai ser crucial para que o desmame se concretize, pois ao perder o seio, a criança ganha outras coisas. Então, à medida em que o interesse da criança aumenta para outras coisas e situações ao seu redor, seu interesse no seio diminui, e sua relação com a mãe será pautada em outros termos. Fundamental que a mãe construa outros rituais, outras traduções, e se mostre disponível afetivamente e seja acolhedora em outros momentos que não somente o da amamentação. Quando o desmame acontece precoce ou de maneira abrupta o risco da criança se sentir indesejada, rejeitada, ou abandonada pela mãe é alto, e isso pode acarretar em questões mais sérias no seu desenvolvimento emocional. Se você está pensando em desmamar, busque seguir o ritmo da relação que você construiu com seu bebê, tente encontrar saídas e desloque a relação para outras atividades, brincadeiras e objetos, sem ferir a autoestima da criança ou a confiança que ela tem na mãe (mentiras de que a criança feriu o seio da mãe, passar esmalte e dizer que está ferido são maneiras de desmamar causando forte impacto negativo na relação!).
Pode ser que a mãe sinta dificuldade em desmamar, não por conta da criança, mas por ela e sua dificuldade de lidar com a “perda”, pois o desmame é perder um lugar para ganhar outro, e para algumas mães essa mudança pode ser dolorosa. E isso vai dificultar que a criança tenha coragem de abandonar a mama, pois ela vai perceber que seu desejo e interesse em outras coisas que não o seio materno provoca tristeza ou angústia na mãe, e por medo de perder o amor materno, ou por culpa de causar tristeza na mãe, a criança tenha dificuldade em desmamar. Então, é sempre interessante que a mãe busque ajuda e apoio psicológico para lidar com as perdas e transformações durante esse processo, para que não seja doloroso para ela e para a criança.

Raisa Pinheiro Arruda
Psicóloga Clínica/Assessoria em Psicologia Escolar
CRP 11/07646
http://mamaepsicologa.com
facebook.com/raisaarrudapsi
raisaarrudapsi@gmail.com

(texto escrito para site Daniele Assessoria Gestante)